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Dia do Funk: 25 músicas que traçam a história do gênero

Do funk carioca ao phonk, faixas ajudam a entender a trajetória dos batidões

Anitta (funk)

Anitta (Mirko Fava/Reuters)

Além de ser um gênero musical, o funk brasileiro é um território. Ou melhor, vários: são as periferias daqui em forma de som. Não por acaso, o ritmo é a música eletrônica nacional por excelência. Sua história também é a história dos “endereços dos bailes”, para citar um clássico. Nenhuma outra música brasileira se reinventou tantas vezes, muitas delas mudando de CEP sem mudar o DNA.

Leia mais: Estrelas a partir dos anos 1980, DJs mudaram o curso da música de baile

O baile que nasceu no Rio com nomes como DJ Marlboro e Cidinho & Doca virou melody no rádio, proibidão no morro, fenômeno de venda nas mãos da Furacão 2000, indústria audiovisual em São Paulo com KondZilla, brega funk nas periferias do Recife e, na última década, matéria-prima de um pop global que vai de Drake ao phonk devorado por adolescentes do Leste Europeu.

Após anos de preconceito explícito e/ou velado, o gênero ganhou uma data para chamar de sua: 12 de julho. O reconhecimento veio apenas em 2024, quando uma lei federal reconheceu a importância do ritmo e criou o Dia Nacional do Funk.

As 25 faixas a seguir são um roteiro mais ou menos cronológico de como o gênero mudou de som, de escala e de lugar sem perder a raiz.

Fundação

Entre 1989 e 1995, o funk deixa de ser apenas bailes de Miami Bass com repertório importado e passa a se reconhecer em português. É o período em que DJ Marlboro organiza em disco uma cena que já existia nos subúrbios, MCs passam a narrar cidade, desejo, violência e cotidiano, e o “rap de comunidade” consolida uma voz própria. A virada é importante porque o funk começa a disputar o imaginário nacional não só como som de festa, mas como forma de notícia social cantada. Hermano Vianna, que estudou os bailes antes da consolidação do funk gravado em português, registrou que o LP “Funk Brasil”, de 1989, acelerou a passagem dos bailes de repertório importado para músicas compostas no Rio.

“Melô da Mulher Feia” — MC Abdullah / DJ Marlboro (1989)

Faixa de abertura de “Funk Brasil”, marca a entrada do funk carioca em disco e fixa o modelo dos “melôs” em português.

“Feira de Acari” — MC Batata (1990)

Crônica popular bem-humorada sobre consumo, informalidade e sobrevivência, Entrou na trilha da novela “Barriga de Aluguel”, da Globo.

“Rio 40 Graus” — Fernanda Abreu (1992)

Ponte entre funk, pop e MPB, levando a linguagem da batida e da crônica carioca para outro circuito de escuta.

“Rap da Felicidade” — Cidinho & Doca (1994/1995)

Hino do funk consciente e síntese de uma geração que transformou a favela em sujeito da canção.

“Rap do Silva” — MC Bob Rum (1995)

Narrativa de violência contra o funkeiro comum: um dos pontos centrais do “rap de comunidade” como denúncia.

“Rap das Armas” — MCs Júnior e Leonardo (1995)

Nasceu no contexto do funk carioca dos anos 90 e ganhou nova vida com “Tropa de Elite” e remixes internacionais nos anos 2000.

Melody e primeira onda pop

A segunda metade dos anos 90 abriu espaço para outra face do funk: menos centrada na denúncia direta e mais voltada ao romantismo, ao refrão e à rádio. O chamado funk melody ampliou o público do gênero sem apagar sua origem. Ao mesmo tempo, faixas de afirmação como “Som de Preto” lembravam que o sucesso nacional convivia com criminalização, preconceito racial e tentativa recorrente de reduzir o funk a caso de polícia.

“Garota Nota 100” — MC Marcinho / DJ Marlboro (1996)

Marco do funk melody e base para entender por que MC Marcinho seria associado ao romantismo no gênero.

“Só Love” — Claudinho & Buchecha (1997)

O melody virou fenômeno popular, com apelo de rádio, TV e repertório afetivo que atravessou gerações.

“Som de Preto” — Amilcka & Chocolate (1998)

Autoafirmação direta: “som de preto, de favelado” como resposta musical à criminalização dos bailes.

Tamborzão e mainstream

Nos anos 2000, o tamborzão empurra o funk para o centro do mercado popular. A Furacão 2000, os bondes, os DVDs copiados e vendidos em banquinhas de todo país, os programas de TV e as coletâneas fazem o gênero atravessar o Brasil. Também é o momento de maior pânico moral: letras sobre sexo, dança e corpo viram assunto judicial, político e midiático. Ao mesmo tempo, artistas como Tati Quebra-Barraco e Deize Tigrona abrem caminho para uma linhagem feminina e internacionalizada do funk. “Injeção”, de Deize, chegou a M.I.A. e Diplo, primeiro sinal forte de que a batida carioca podia circular na música pop global.

“Cerol na Mão” — Bonde do Tigrão (2001)

Quer dançar? O pancadão conquista o país e transforma o Bonde do Tigrão em símbolo da fase mais comercial da Furacão 2000.

“Um Tapinha Não Dói” — MC Naldinho & Bella Furacão / Furacão 2000 (2001)

Epicentro do debate sobre sexualidade, violência, censura e moralismo em torno do funk; foi alvo de ação judicial e discussão pública.

“Boladona” — Tati Quebra-Barraco (2004)

Tati colocou a sexualidade feminina em primeiro plano e abriu uma linhagem decisiva para o funk feito por mulheres.

“Injeção” — Deize Tigrona (2004)

A faixa foi sampleada por M.I.A. em “Bucky Done Gun”, com produção de Diplo, conectando o funk carioca ao circuito eletrônico internacional.

“Créu” — MC Créu (2008)

Essa tocou até não poder mais. Síntese da era das coreografias virais antes do TikTok, com dança, velocidade e humor como motores de circulação.

Ostentação, São Paulo e YouTube

A década de 2010 muda a escala do funk. O YouTube se torna plataforma central, São Paulo ganha protagonismo com o ostentação e depois com os fluxos, o passinho vira linguagem visual, e artistas ligados ao funk entram na indústria pop por outra porta. A KondZilla começa como produtora de videoclipes, registra a ascensão do ostentação e se consolida como um dos principais canais de música voltados ao baile funk.

“Plaque de 100” — MC Guimê (2012)

Hino do funk ostentação: carros, grife, dinheiro e desejo de ascensão como estética do funk paulista.

“Ah Lelek Lek Lek” — MC Federado e Os Leleks (2013)

O passinho encontra a internet e a cultura pop global; Beyoncé dançou a coreografia no Rock in Rio 2013.

“Show das Poderosas” — Anitta (2013)
O funk-pop estoura mais uma vez na TV aberta e na indústria fonográfica tradicional com linguagem de videoclipe, coreografia e refrão de massa.

“Beijinho no Ombro” — Valesca Popozuda (2013)

Da Gaiola das Popozudas ao bordão nacional, Valesca transforma rivalidade, deboche e autoestima em pop funkeiro.

“Baile de Favela” — MC João (2015)

Consolida o funk paulista como força nacional e ganha projeção adicional com Rebeca Andrade, que competiu ao som da faixa na ginástica artística.

Globalização definitiva: exportação

A partir de 2017, o funk deixa de ser apenas um gênero brasileiro com episódios internacionais e passa a operar como idioma global. “Bum Bum Tam Tam” bate recordes no YouTube e ganha remix com nomes como Future, J Balvin e Stefflon Don. “Vai Malandra” exporta a favela como estética pop consciente de si. O 150 BPM recoloca o Rio no centro da inovação rítmica. O mandelão e a bruxaria levam São Paulo para circuitos eletrônicos internacionais. O Brazilian phonk, por sua vez, transforma fragmentos do funk em linguagem de TikTok, academia, game, drift e playlists globais.

“Bum Bum Tam Tam” — MC Fioti (2017)

Primeiro clipe de artista brasileiro a ultrapassar 1 bilhão de visualizações no YouTube; depois ganhou remix com Future, J Balvin, Stefflon Don e Juan Magán.

“Deu Onda” — MC G15 (2016/2017)

Hit perfeito para uma leitura musicológica: virou objeto do artigo “O errado que deu certo”, sobre harmonia e construção da batida no funk paulistano-carioca.

“Vai Malandra” — Anitta, MC Zaac, Maejor, Tropkillaz e DJ Yuri Martins (2017)

Clipe no Vidigal, projeto internacional… O funk carioca vira estratégia explícita de pop global.

“Ela É do Tipo” — Kevin O Chris (2018/2019)

Uma das faixas centrais do 150 BPM; o remix com Drake, lançado pela OVO Sound, selou uma nova etapa da circulação internacional do funk.

“Automotivo Bibi Fogosa” — Bibi Babydoll, DJ Brunin XM e KZA Produções (2023)

Representa a conexão entre mandelão, automotivo e consumo global por plataformas; a faixa viralizou fora do Brasil e chegou ao topo de paradas virais no Leste Europeu, já no phonk.

“MONTAGEM – PR Funk” — S3BZS, MC GW e MC Menor do Alvorada (2023)

Um dos símbolos do Brazilian phonk, vertente que levou elementos do funk brasileiro a playlists globais e fez o gênero circular em escala internacional.

Bônus: Sexta dos Crias

Se você chegou até aqui, é porque merece ver cinquenta minutos de DJ Ramon Sucesso distorcendo a realidade no Primavera Sound Barcelona em 2024. Como disse um gringo nos comentários do vídeo, atônito ao descobrir o beat bolha de Belford Roxo, “era essa a sensação de ver Isaac Newton dar uma palestra em Oxford”.