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COPA DO MUNDO
Joé Dwèt Filé, revelação do Haiti

Joé Dwèt Filé, revelação do Haiti

Copa da Música: o Haiti no compasso do mundo

Enquanto a seleção caribenha encara o Brasil, konpa vive seu auge global

“O Haiti é aqui”. Caetano Veloso avisou em 1993, mas quase ninguém escutou. Com muitas similaridades culturais, Brasil e Haiti se reencontram nesta sexta-feira (19) pela fase de grupos da Copa do Mundo. No entanto, poucos torcedores daqui arriscariam citar um artista da música haitiana se o juiz apitasse agora.

O país caribenho exporta há sete décadas um dos ritmos mais dançantes das Américas e vive, em 2025 e 2026, seu maior momento de visibilidade internacional. 

O konpa (ou compas direct) nasceu em 1955, quando o saxofonista Nemours Jean-Baptiste modernizou a méringue local com sopros de jazz e levadas afro-cubanas.

Dali saíram instituições como Coupé Cloué e o Tabou Combo, que espalharam o gênero pela diáspora, de Nova York a Paris. Em dezembro de 2025, a UNESCO inscreveu o konpa como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, selo que coroou seus 70 anos e chegou justamente quando o ritmo voltava às conversas globais.

Esse retorno tem rosto jovem. O hit “4 Kampé”, do franco-haitiano Joé Dwèt Filé, viralizou a ponto de fazer Madonna dançar konpa nas redes, e o produtor Michaël Brun transformou sua festa BAYO em arenas lotadas nos Estados Unidos.

Para o leitor brasileiro, o reencontro em campo carrega afeto: em 2004, durante a missão de paz da ONU, a seleção disputou o “Jogo da Paz” em Porto Príncipe, e o terremoto de 2010 trouxe milhares de haitianos para o Brasil. Os dois países voltam a se cruzar agora, desta vez com uma trilha caribenha em alta.

Música no Haiti: do konpa de raiz à nova geração

A seguir, a série Copa da Música escolheu seis nomes para entender o que toca em Porto Príncipe e na diáspora hoje, do clássico que abre as portas aos artistas que dominam o streaming.

Joé Dwèt Filé

Konpa, R&B e pop urbana. Lançado em outubro de 2024, “4 Kampé” foi certificado disco de diamante na França, passou de 50 milhões de streams e ganhou um remix com Burna Boy, o “4 Kampé II”; o cantor chegou a dividir o palco do Stade de France com Aya Nakamura. Em 2026, emendou o álbum “Hate Love”, com o single “Rihanna”. Nascido em Montreuil, na França, e filho da diáspora haitiana, foi apelidado de “rei do konpa” pela imprensa francesa.

Michaël Brun

Produtor e DJ que costura música eletrônica a konpa e rara. Sua faixa “Touchdown”, de janeiro de 2025, virou hino de uma rodada do futebol americano (NFL) e reuniu J Balvin, Beenie Man e Bounty Killer; antes, ele assinou “Safe” com John Legend e Rutshelle Guillaume. Em 28 de junho de 2025, levou a festa BAYO ao Barclays Center, em Nova York. Haitiano-guianense radicado no Brooklyn, é dono de um Grammy Latino pelo trabalho com J Balvin.

Zafém

Formado em 2019 pela dupla Réginald Cangé (ex-Zenglen) e Dener Ceide (ex-Tabou Combo), o grupo se tornou o fenômeno do gênero: o álbum de estreia “LAS” (2023), de 16 faixas, entrou nas paradas da Billboard nos Estados Unidos, feito raro para um disco em crioulo. Os sucessos “Savalou” e “Dlo Dous” consolidaram a banda como a nova referência do compas.

Rutshelle Guillaume

Apelidada de “rainha do konpa”, acumula prêmios fora da ilha: foi eleita melhor artista caribenha no Trace Awards de 2023 e levou o prêmio da Francofonia no festival Nuits d’Afrique, em Montreal. Em 2024, emprestou a voz a “Safe”, parceria com Michaël Brun e John Legend, ponte entre o konpa e o pop internacional.

Baky Popilè

Rap kreyòl (em crioulo haitiano). Um dos rappers mais ouvidos e comentados do país, lançou em setembro de 2025 seu terceiro álbum, “Kaia”, em que mistura rap com amapiano, gospel e compas. O hino “Ayiti Pap Kraze” reaparece sempre que se fala da resiliência haitiana. Natural de Les Cayes, no sul do país, divide os holofotes com nomes como Wendyyy e Trouble Boy Hitmaker na cena urbana.

Tabou Combo

O clássico que abre as portas. Fundado em 1968 em Porto Príncipe e radicado no Brooklyn há décadas, é o grupo de konpa mais conhecido fora do Haiti, com hinos que atravessaram gerações na diáspora. Não está nas paradas de hoje, mas é o atalho mais curto para quem nunca ouviu o gênero entender de onde veio toda essa nova geração.