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Uma carta a Benito

Bad Bunny no Super Bowl 2026

Bad Bunny no Super Bowl 2026 (Grosby Group)

Benito,

Desde a sua apresentação no Super Bowl eu tenho pensado muito no que você tem feito.

Tenho acompanhado a repercussão, as conversas, os desdobramentos. Tenho observado como você usou um dos maiores palcos do mundo para colocar o nossos territórios e a diversidade latino-americana e caribenha no centro. Não foi apenas sobre performance. Foi sobre posicionamento. Foi sobre identidade.

Naquele momento, eu tive a sensação de que a América Latina tinha vencido aquele jogo. Mas não só. O Sul global venceu. Durante muito tempo fomos ensinados a olhar para fora em busca de referências. E ali, no palco mais assistido do mundo, nós éramos a referência. 

Não sei se essa carta vai chegar até você. Espero que sim.  

Mas, de qualquer forma, te escrevo por duas razões muito simples: para agradecer – e para te dar boas-vindas.

Antes de tudo, deixa eu me apresentar.

Meu nome é Warley Alves Barbosa, tenho 33 anos. Sou produtor cultural no Brasil. Cresci na periferia e trabalho desde muito jovem pesquisando e produzindo experiências que conectam arte, identidade e território. Talvez por isso o que você faz me atravesse de um jeito tão direto – porque eu sei o que significa contar a própria história a partir do lugar de onde se veio e com as influências que te cercam.

Eu estive em Porto Rico para viver o show #25 da residência que você promoveu lá. E voltei diferente.

No dia seguinte ao show, escrevi que finalmente entendi quando você dizia: “No me quiero ir de aquí”.

Mas não foi só o show. Foram os dias na ilha. Quase uma semana sentindo aquela terra e aquele povo pulsar.

A ilha estava em festa, não só pelo espetáculo, mas pelo que ele provocou. Música nas ruas. Arte nos muros. Bandeiras nas janelas. Orgulho no jeito de falar. Bares e restaurantes cheios. Gente feliz em receber. Gente querendo mostrar ao mundo quem é.

Warley em Porto Rico (Arquivo pessoal)
Warley em Porto Rico (Arquivo pessoal)

Ali eu entendi algo que me marcou: quando um jovem artista honra suas raízes e as projeta para o mundo com verdade, ele amplia o imaginário coletivo sem romper com quem veio antes.

Eu me apaixonei por Porto Rico, por seu povo e por sua cultura, através do amor que você demonstra por ela.

Agradeço de verdade por ter me apresentado sua terra e por tudo que você tem feito.

E agora você chega ao Brasil.

Você pisa aqui justamente num período em que o Brasil se encontra consigo mesmo… e amplifica sua conexão e identidade latino-americana. Nossas diferenças de língua, muitas vezes, foram instrumentalizadas como barreiras. Mas, cada vez mais, compreendemos que estamos conectados à história, em saberes, no sazón, em um caldeirão cheio de diversidade e pulsação.

É Carnaval no Brasil.

E por isso eu tomo a liberdade de te sugerir algumas experiências que podem tornar a sua passagem por aqui ainda mais intensa, como foi a minha na sua ilha. Não vou te falar de pontos turísticos porque sei que isso vai ter aos montes.

Eu sei que você já conhece a nossa diva pop, Anitta. E a gente tem muito orgulho de como ela nos representa. Mas, se te interessar, vale olhar um pouco para o que está por trás dessa força.

O funk é muito maior do que parece quando atravessa fronteiras. Ele nasce na periferia, cria linguagem própria, ocupa a rua e transforma realidade em som. É no baile funk que acontece o nosso “perreo”. Tem muitos artistas desse movimento que vale a pena você conhecer. Eu, particularmente, gosto muito de dois: MC Carol, de Niterói, e MC Hariel, de São Paulo.

E muito próximo dessa energia existe algo muito forte no Pará, estado da região Norte do Brasil: as aparelhagens do tecnobrega, o rock doido. É som alto, batida potente, tecnologia popular, festa coletiva e identidade. Tudo isso com muita influência caribenha. Gaby Amarantos é a principal porta-voz desse movimento..

Se você quiser entender outra camada do Brasil, mergulhe nas obras de Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Eles são parte viva da nossa história.

E quando a gente fala de raiz e invenção ao mesmo tempo, é impossível não lembrar do manguebeat. Chico Science, que já nos deixou, e a Nação Zumbi misturaram tradição, crítica social e experimentação de um jeito que dialoga muito com o que você faz: pegar o que é ancestral e vestir com linguagem contemporânea, sem perder identidade.

O samba é outra dessas raízes profundas. Não é só música, é convivência, cotidiano e celebração. Zeca Pagodinho e Alcione carregam isso com alegria e naturalidade.

E já que você chega no Carnaval, a energia que vem da Bahia – o tal do molho – é impossível de ignorar. Ivete Sangalo e O Kannalha traduzem bem essa vibração. 

E ainda te sugeriria três nomes especialmente importantes para mim nesse momento do Brasil: Marina Sena, uma jovem de Minas Gerais, muito segura da própria identidade. Tem ousadia e raiz ao mesmo tempo e lançou um EP de Carnaval que conversa diretamente com o que você vai encontrar nas ruas.

Liniker, de São Paulo. Vencedora do Grammy Latino, ela fez uma apresentação na premiação em que você estava presente. A música dela carrega identidade, afeto e liberdade com uma força muito própria.

E João Gomes, de Pernambuco. Nossa joia mais preciosa. Ele canta com uma verdade que conecta milhões de pessoas. É um talento muito grande. Tenho certeza de que você ainda vai ouvir muito falar dele. E, além disso, é um ser humano excepcional.

Se tiver tempo, assista “O Agente Secreto”, filme brasileiro que está concorrendo ao Oscar. Ele tem a participação de Wagner Moura, com quem eu sei que você já teve a oportunidade de trabalhar junto, e ajuda a contar uma parte importante da nossa história.

Prove a culinária do Pará, que, para mim, é uma das melhores do mundo. Experimente Minas Gerais, que transforma afeto em comida. E aproveite que você estará em São Paulo. Aqui é possível encontrar bons restaurantes de todas essas culinárias no mesmo lugar.

Se puder, vá a uma partida de futebol. O futebol é uma das nossas maiores paixões e ali você vai sentir outra dimensão da nossa emoção coletiva.

Se tiver a chance de ir ao Rio, viva uma noite na Sapucaí. O desfile das escolas de samba é uma das experiências artísticas mais preciosas que existem. 

E no dia 21 de fevereiro, em São Paulo,  justamente no dia do seu segundo show,  acontece aqui algo que eu realmente gostaria que você vivesse: O Navio Pirata, do BaianaSystem.

Ali existe música, mas existe também o posicionamento. É sobre soberania cultural e resistência. É sobre uma forma muito própria de ocupar o espaço público com identidade e altivez. Sinceramente, eu acho que conecta muito com o que você tem feito, com essa ideia de honrar as raízes e as tradições enquanto projeta o futuro.

É uma experiência catártica.

Única.

Coletiva.

Intensa.

É difícil de explicar. Você precisa sentir.

Benito, novamente, muito obrigado por tudo o que você tem feito. Se entregue para o Brasil e ele vai te retribuir. E acima de qualquer coisa: divirta-se. Eu fui abraçado pela sua terra, e o que eu desejo é que você se sinta abraçado pela minha também.

Que, além de você, essa carta encontre irmãs e irmãos de toda a América Latina. Seguimos aqui – e seguimos juntos.

Com carinho e admiração,

Warley.

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