Papatinho e Rafaello falam sobre o NT Sessions: ‘A beleza não tem CEP’
Rap e música clássica se unem em performance no Rio de Janeiro; saiba mais

Rafaello Ramundo, L7NNON e Papatinho no NT Sessions (foto - Victor Moura)
O que acontece quando o rigor de uma orquestra sinfônica encontra a sagacidade das rimas e os beats que dominam as paradas? A resposta pode ser o NT Sessions, o novo projeto da produtora Novo Traço, cuja estreia reúne o produtor Papatinho, o rapper L7NNON e a Orquestra Novo Mundo.
+Leia mais: Orquestra Novo Traço une L7NNON e Papatinho em encontro histórico
O que começou numa imersão em isolamento criativo num estúdio, agora culmina numa ocupação histórica: uma apresentação ao vivo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro neste sábado (25), que será transmitida no YouTube.
Com ingressos a preços simbólicos e esgotados em cerca de 15 minutos, a proposta da performance, intitulada “Cordas e Batidas”, é fundir o clássico ao contemporâneo. A direção é de Rafaello Ramundo e a regência é do maestro Carlos Prazeres.
Um prelúdio da apresentação pode ser conferido nesta sexta-feira (24), com o lançamento do single “Celebrando A Vida”, mostrando novas possibilidades sonoras. A Billboard Brasil conversou com Papatinho e Rafaello, que deram detalhes sobre o projeto. Confira a seguir.
Papatinho, você já transitou entre vários gêneros. O que a linguagem orquestral trouxe que nem o rap, o funk ou o pop tinham oferecido antes?
Papatinho: Quando você chega em um universo onde tem uma orquestra e um coral, tudo fica muito mais emocionante. Foi maneiro demais ver a reação do L7NNON quando ele viu aquilo pela primeira vez; ele ficou impressionado e nós também. A sensação que eu tive foi: cara, todo mundo tem que ver isso. Com esse show, vamos poder passar essa emoção para outras pessoas. Eu estou sempre com o ouvido atento para qualquer coisa que me agrada e foi muito legal trabalhar com orquestra nesse projeto. Tanto que uma das músicas que fizemos no estúdio Sonastério é inédita e vai entrar no disco novo do L7NNON. Ela já vai contar com a orquestra e o coral gravados para esse projeto e será eternizada no álbum. Já somou muito com a gente; é inspirador viver isso.
Teve algum desafio em equilibrar a liberdade da produção urbana com a disciplina técnica da orquestra?
Papatinho: O único desafio foi certificar que tudo estava alinhado. Tivemos que alinhar o que eu já tinha nas faixas com o arranjador e com o maestro. Foi preciso juntar nossas forças para uma coisa única. Cada um é especialista em uma parte e somamos isso à direção do Rafael, às rimas do L7NNON e ao meu beat. O maestro direcionava o pessoal da orquestra enquanto o arranjador editava e me mandava tudo para aprovar. Foi um processo muito divertido, que é o que eu mais amo fazer na vida. Não foi um peso, mas sim uma etapa maneira da minha caminhada.
O que significa ocupar um espaço como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro com o seu trabalho e essa mistura?
Papatinho: Falo agora pelo movimento rap: é uma conquista muito grande e única. Eu comecei no underground, na Lapa, fazendo música na rua. Era um nicho muito fechado que cresceu e desbravou bolhas. Hoje a cena é outra. Estar lá com o L7NNON, que é um artista especial e começou a caminhada dele comigo na Papatunes, torna tudo mais especial. Não estamos levando apenas dois nomes; estamos levando a cultura, o movimento hip hop e a junção de tribos para dentro do Teatro Municipal, dando oportunidade para as pessoas verem isso de perto.
Rafaello, como foi feita a escolha do repertório e a ideia de trazer o Papatinho e o L7NNON como convidados?
Rafaello: Esse show é uma oportunidade de conectar dois mundos que não se falavam. Tem um livro que eu amo, do Zuenir Ventura, chamado “Cidade Partida”, que mostra como a favela vive de um lado e o asfalto do outro no Rio de Janeiro. Eu moro em São Conrado, colado na Rocinha, e vivo junto disso. Para mim, a beleza e o direito ao acesso não têm CEP. Construímos uma simbiose de valores e pensamento artístico. Queria mostrar que o L7NNON e o Papatinho escreveram uma história que explica a vida deles: momentos de dificuldade, superação e muita criatividade.
Abrimos o show com o momento em que o L7NNON grita para o mundo o artista que ele é, com o Papatinho como mente pensante e músculo criativo. O L7NNON tem músicas de mensagem em que ele é um profeta, mas também fala de amor. Muita gente acha que a galera do hip hop não pode falar sobre relações humanas, como se tudo fosse baseado em superficialidade. Não é isso. É bonito. O show conta essa história através da Orquestra Novo Traço, mostrando que existe outra sonoridade sem ignorar a inteligência do público. Quando o ingresso esgota em 15 minutos, a galera prova que sacou a ideia.
Existe liberdade para o improviso ali ou na orquestra tem que estar tudo alinhado?
Papatinho: Pela orquestra não sei, mas eu e o L7NNON podemos improvisar bastante. Muita música nossa, como “A Braba”, nasceu de um improviso. Com certeza faremos coisas na hora, no momento da emoção do show.
Rafaello: O que me deixa feliz é que eles não se intimidam. Uma orquestra sinfônica, por natureza, é intimidatória, com todos de preto esperando você fazer algo. Nós quebramos isso para fazer desses mundos um só. É um trabalho difícil porque o músico de orquestra toca partitura, ele não está habituado a improvisar. Mas eu estou no meio desses dois mundos juntando tudo. Você só improvisa na frente de uma orquestra se tiver muita segurança, e esses caras dominaram a cena. Vai ser lindão.
Como surgiu a Orquestra Novo Traço e como foi convencer os músicos a entrarem nessa dinâmica disruptiva?
Rafaello: Surgiu da vontade de mostrar que a música de orquestra não foi feita para apontar o dedo para as pessoas. É música popular orquestrada. O Papatinho e o L7NNON são alguns dos maiores comunicadores do Brasil e temos um papel social de levar essa arte para o povo. O Teatro Municipal é público, está no nome dele. Ele é para qualquer pessoa abrir a porta e entrar. A orquestra é o tempero extra. Imagine um chef de cozinha que chega em um podrão de rua maravilhoso e diz: se você colocar esse tempero, ele terá um aroma diferente que as pessoas ainda não sabem que gostam.
Eu viro um escudo para a música urbana. Falo para os intelectuais: baixem a guarda, esses caras estão falando com milhões de pessoas. O Papatinho não precisa falar; você escuta um beat dele e ele toca no coração, te leva para os anos 90. O L7NNON é incontrolável, vai querer soltar um poema. Pela primeira vez na vida, a família dele vai vê-lo tocar em um show! Quebramos o preconceito no amor e no talento. Temos um coral quase 100% formado por músicos cristãos que se abriram para o nosso som, e arranjadores como o Itamar Assiere, um dos maiores do país, falando de rap e trap de coração aberto.
Teve alguma faixa que superou as expectativas quando ganhou o arranjo da orquestra?
Papatinho: A faixa do álbum do L7NNON que eu mencionei. Era tudo uma ideia, uma letra maneira, e quando juntou com a orquestra e o coral, ela cresceu demais. Tivemos essa sensação na filmagem e estamos ansiosos pelo resultado dessa faixa inédita.
Rafaello: Eles têm repertório, teríamos música para três horas de show. Senti isso com “Pichadão no Baile”. Aquela batida me levou para a adolescência. É o que chamamos de latência emocional. O Papatinho falou que o L7NNON chegou no estúdio e disse que era o projeto mais incrível da vida; quando estivemos no Municipal, disse que era o maior show da vida. O cara foi gravar em Los Angeles, passou madrugadas com o Diplo, fechou música para filme em Hollywood e videogame… e nós vivenciamos tudo isso para contar essa história.
A escolha de lançar “Celebrando a Vida” primeiro foi um consenso?
Rafaello: Foi. “Celebrando a Vida” emocionou demais na gravação. Construímos uma verdadeira Disneylândia da música: coral ensaiando embaixo, músicos em cima, arranjadores pensando. De repente, o coral começou a cantar. Parou todo mundo. Virou uma oração, gente se abraçando e chorando. Falamos: cara, temos que reproduzir isso aqui primeiro.
Qual legado fica desse projeto?
Papatinho: Tudo o que eu faço, penso no legado. Não estou preocupado com o cheque, mas com a minha discografia. Daqui a 30 anos, quero que olhem para trás e vejam quem foi o Papatinho. Esse show é mais um check na minha história, representando o movimento hip hop.
Rafaello: O legado musical é abrir fronteiras e colocar a orquestra à disposição da música brasileira. O legado social é o acesso. Se eu estivesse preocupado com dinheiro, não cobraria R$ 2,50 a entrada. O nosso discurso é coerente com a prática. Quem é milionário pôde comprar, mas como o espaço é limitado, vamos transmitir ao vivo no YouTube. Queremos criar uma comunidade. No show, vamos fazer as “Bachianas Brasileiras nº 9”, de Heitor Villa-Lobos. É uma homenagem ao Brasil para mostrar que Heitor Villa-Lobos se funde com o beat que você ouve no fone.
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