Como RJ atraiu olhares da maior conferência de música eletrônica do mundo
Hot Beats Music Conference reúne profissionais do ADE; entenda

Hot Beats Music Conference 2025 (Divulgação)
Entre os dias 21 e 24 de maio, o Rio de Janeiro sedia a Hot Beats Music Conference, reunindo mais de cem palestrantes nacionais e internacionais em duas salas simultâneas de conteúdo, além de workshops técnicos voltados para o mercado da música.
A edição deste ano do evento marca a ampliação de sua presença internacional, que no ano anterior realizou o projeto “Casa Brasil” durante o Amsterdam Dance Event (ADE), na Holanda, a maior conferência de música eletrônica do mundo.
A aproximação com o mercado estrangeiro e a mudança de percepção sobre o tamanho da indústria brasileira são pontos centrais do atual momento do setor. Em entrevista à Billboard Brasil, Rafael Nazareth, um dos organizadores do evento, o cenário da música eletrônica passou por transformações estruturais:
“A gente está vendo com muito bons olhos. Há mais de 20 anos a gente vem tentando, todo ano, falar para as pessoas que tudo o que é grande, é grande. E agora eu acho que as pessoas estão levando mais a sério ainda, até porque os números estão dizendo isso e mostrando como isso mexe com a economia do Brasil e do mundo já há um tempo.”
O organizador aponta que a dinâmica de contratações mudou, com o Brasil deixando de ser apenas um polo importador de atrações:
“Antigamente, eram só artistas internacionais vindo para cá; todos os maiores artistas vieram. Agora, eu acho que os artistas brasileiros também estão indo para lá, e não de qualquer maneira, mas sim como headliners de grandes eventos internacionais. O Brasil está no melhor momento hoje em dia, e isso não é dito só por gente, mas também pelos próprios gringos. O mercado internacional já sabe que o brasileiro está chegando no mesmo nível.”
A programação de 2026 da HBMC aborda tópicos que vão de inteligência artificial e royalties a saúde mental e a inserção da música urbana, como o rap, o funk e o trap, nos debates da conferência. De acordo com Rafael, conciliar a grade técnica com a vinda dos palestrantes exige uma operação complexa:
“A curadoria sempre é uma coisa complexa. A gente já vem evoluindo isso… A ‘Roda de DJs’ tem três anos agora, mas ela começa em 2017 na Aimec. A gente vinha fazendo esses eventos integrados com a escola até o momento em que ficou muito grande e decidimos separar. Então, já fazemos isso há algum tempo. Mas essa curadoria, especificamente, foi a mais difícil porque tivemos muitas pessoas internacionais.”
O volume de profissionais envolvidos impactou diretamente a produção do encontro:
“Tivemos essa parceria com o ADE, que nos ajudou a curar alguns painéis, além de outros convidados internacionais e todos os nacionais, somando mais de 150 palestrantes. Temos mais de 80 quartos de hotéis reservados aqui. Então, a logística junto com a curadoria foi muito complexa, porque é muita gente vindo em vários horários e dias diferentes. Foi difícil escolher e, depois, conseguir organizar tudo isso”.
Rafael também comenta sobre a abertura da conferência para estilos que vão além das vertentes tradicionais da, segundo ele, música eletrônica pura (como house e techno), e contextualiza a proposta de expansão do público:
“Aqui a gente pôde fazer justamente uma coisa que saísse um pouco da bolha. Antigamente, as pessoas achavam que música eletrônica era só o mais tradicional: house, techno, trance, e por aí vai. Nós trouxemos vários outros gêneros. Tem gente que não acredita, mas trouxemos sons urbanos também; montamos painéis de rap e de trap. A gente acha que a família é grande e junta todo mundo, não separa.”
O foco institucional permanece ligado à formação profissional e ao desenvolvimento econômico regional:
“A conferência nasceu para juntar a cena, fortalecer, instruir e educar uma estrutura. Obviamente tentamos abraçar todo mundo. É um desafio juntar todos, mas a gente acha que o movimento fica muito maior, mais relevante e todo mundo se ajuda mais.”
A conferência de 2026 conta com representantes oficiais do ADE, como Wiecher Troost (Head de Programação), Galecta e Dare Balogun, além de executivos e artistas de marcas como Beatport, Tomorrowland Brasil e Rock in Rio. A aproximação com a organização holandesa se consolidou a partir de ações em Amsterdã. Rafael detalha o processo de negociação:
“Olha, não foi muito fácil, porque eles já pensavam em vir ao Brasil há um tempo e muitas pessoas já os tinham abordado com convites anteriormente. No ano passado, nós fomos para Amsterdã e fizemos a nossa ‘Casa Brasil’ lá ADE. Entramos lá e fizemos oficialmente, ainda de forma pequena, mas acabou sendo grande pelo que a gente esperava. Eles viram que nós éramos as pessoas que chegaram lá fazendo acontecer. Convidamos eles para irem lá, tivemos alguns contatos, e eles foram. Foi bem legal.”
“Tivemos uma boa conversa, mostramos o que estávamos fazendo e eles se entusiasmaram. Viram que era uma coisa maior do que pensavam. Ficamos trocando e-mails durante algum tempo — foi aquele ‘namoro’ por um tempinho — até que eles decidiram: ‘Não, a gente vai’. Inicialmente, eles viriam com uma comitiva menor, mas depois ampliaram bastante o time. Vieram os heads todos para cá.”
A diferença de tempo de estrada entre os dois eventos é vista pelo organizador como um referencial de mercado:
“Inclusive, eles estão fazendo 30 anos este ano e a gente está fazendo três. A gente é um bebezinho ainda, tem coisas em que estamos engatinhando e vemos eles como o nosso pai ou nossa mãe ali. Mas o legal é sempre se inspirar em alguém, e eles são a maior referência mundial. Todo mundo se encontra lá; o epicentro da música eletrônica acontece em Amsterdã durante esses dias. Então a gente se inspira muito.”
Rafael conclui apontando as expectativas para a continuidade do projeto: “Coincidiu com o bom momento do mercado brasileiro, então eles falaram: ‘Não, a gente tem que ir’. E acharam que o momento certo era com a gente aqui. A gente conversou, eles estão muito felizes e eu acho que vai ser uma parceria de longa data.”
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