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Luiza Possi: ‘a boa música sempre vence a ditadura do algoritmo’

Luiza Possi (Divulgação)

A cantora Luiza Possi (Divulgação)

Eu escutava muita música com meu pai [o músico e produtor Líber Gadelha]. Quando ia visitá-lo, uma de nossas atividades preferidas era ouvir música. Escutei muito antes de abrir a boca para cantar. É engraçado porque antes, eu e minha mãe [a cantora e compositora Zizi Possi], ou eu e meu pai, ou com alguma amiga, costumávamos nos reunir para ficar quietos apreciando a música. Era uma atividade. Talvez por isso eu tenha absorvido de fato tudo o que nela tinha.

Os arranjos, até hoje sei de cor. Não era pano de fundo, era atividade principal. Parar. Sentar. Escutar, voltar, escutar de novo, sentir, chorar, sorrir, arrepiar.

A música era a própria finalidade. Não era um mero acompanhamento, era o prato principal. Eu vim dessa era. Uma vez, ganhei do meu pai um aparelho de som que não tinha a tecla “repeat”.

Devolvi porque, para mim, era impossível viver com um aparelho que não repetisse a música automaticamente (pedi desculpas por devolver, claro). Mas, para que servia aquilo?

Todo fim de semana que ia ver meu pai, saía com uma fita cassete gravada do que escutamos naquele fim de semana.

Coisa boa mesmo, de qualidade. Foi com ele que conheci Prince, Michael Jackson, James Taylor, Etta James, Tina Turner, Simply Red, En Vogue… O mais lindo disso é que até hoje escuto os álbuns épicos que aprendi a apreciar e percebo que sei cada acorde, cada nota, cada melisma do cantor. Porque eu não ouvia, eu devorava. E no “repeat”.

Escutei as mesmas coisas por décadas. Tanto que elas ficaram no meu DNA. E, claro, agradeço meu pai pelo bom gosto e influência. Meu pai que também produziu e me apresentou a nata do samba: Alcione, Jorge Aragão, Fundo de Quintal

Meu Deus, ouvi tanto isso!

Luiz Melodia vivia em casa gravando com Mister Líber Gadelha, meu Tiranossauro Rex da Música. Meu Deus, ele produziu Cassiano, um dos maiores cantores brasileiros de soul music! Que tempos maravilhosos foram aqueles…

Já minha mãe, me apresentou Phil Collins, Sade, Sting, Barbra Streisand, Claude Debussy, Stevie Wonder, Take 6. E foi assim que formei meu caráter musical: clássico, refinado e cheio de memórias.
Do Brasil, me lembro que aos 9 anos me apaixonei por João Gilberto. Lia livros sobre ele enquanto escutava sua obra. Foi assim com Alceu Valença, Gonzaguinha, Gonzagão, Dominguinhos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tim Maia.

Eu tenho e pratico até hoje todas as cifras do Djavan transcritas pelo Almir Chediak (que fazia esse trabalho maravilhoso de songbooks).

Djavan, aliás, reinava na minha parada de sucessos pessoais desde que eu “habitava” a barriga da minha mãe e a “acompanhava” aos ensaios dela. Que bênção!

Eu imprimia as letras dos álbuns na máquina de xerox. Lembro bem quando me apaixonei por “Circuladô de Fulô”, do Caetano, e por um álbum da Sandra de Sá. Mas, quando conheci Rita Lee e Marisa Monte, minha vida deu uma guinada. Escutava Rita quando ia dormir –e até dormindo– e Marisa durante o dia.

Eram 12 horas para cada musa. Sei cada respiração, cada fala, toda instrumentação de cada faixa de todos os álbuns. E também fui influenciada pela cultura pop da rádio, onde Mariah Carey, Whitney Houston, Britney Spears, Madonna e boy bands como New Kids on The Block, N’Sync, Backstreet Boys e astros de R&B como TLC e Toni Braxton pareciam morar eternamente ali.

Eu devorava o rádio, sei de cor todos os dials. Era só soar a primeira nota que eu já saía cantando. Meus pais me deram um walkman vermelho que não saía dos meus ouvidos. Ele era meu melhor amigo, quase um pet.

Ali para todas as horas, depois me deram um discman amarelo.

Passei então a ser conhecida como “a menina do discman amarelo de Higienópolis” [bairro da região central de São Paulo]. Eu andava muito sozinha. Meus pais não podiam estar comigo, mas a música virou um irmão.

Eu não vou entrar numa de dizer: “Antes era bom, agora a música é ruim”. De jeito nenhum. Mas antes a música era uma expressão, hoje é via de regra. Ela não pode ter uma longa introdução –caso contrário, o ouvinte pula para a próxima sem dó nem piedade. Ela não pode passar dos 2min45 porque ninguém aguenta escutar a mesma canção por tanto tempo. Ponte? Alteração na melodia? Nem pensar… Ah, sim. Tem que engajar, o assunto tem que ser fácil, a palavra não precisa existir no dicionário, não precisa fazer sentido, só rimar, se precisar acabar com “in” em vez de “inho”.

O “quarto da música” não existe mais. Virou um escritório com um computador, onde você compõe enquanto executa outras tarefas. Palavrão é via de regra e haja joelho para tanto “senta” e “levanta”. Tudo é sampleado, há pouco espaço para instrumentos verdadeiros e a qualidade sonora virou artigo de luxo.
Enfim, mudou. Hoje não existe atenção plena para a música.

O lado bom? Bem, o lado bom é que, quando a música não usa esses subterfúgios e consegue se destacar por ser originalmente boa, ela é UM BÁLSAMO! É BOA DEMAIS! Não tem competição no topo, porque ele hoje é um lugar pouco desejado em termos de qualidade. O topo mesmo que se almeja é o quantitativo. Quantos plays? Quantos views? Quantos streams? A posição que cada artista ocupa nessa coleção de playlists não exatamente reflete na qualidade da música que a pessoa faz. Nova era, novos critérios, novas posições e novos valores.

Mas uma coisa é certa: o bom continua sendo bom mesmo que ninguém mais esteja preocupado com isso, o que é ruim é ruim mesmo que a maioria esteja fazendo. Mas a voz do povo importa muito e grita alto. O algoritmo pode não te mostrar, mas continua lá a um play de você.

Não é porque é novo que é bom, não é porque é velho que é ruim. Música não tem regra. Tem de tudo.
Alguns nichos musicais nunca entraram nas nossas playlists, como por exemplo: louvor. Assim como Jesus nunca entrou no credo da minha família. Eu o descobri aos 40 anos. 40, número que aparece diversas vezes na Bíblia como marco simbólico de amadurecimento e mudança.

Desde que o louvor entrou na minha vida, no meu carro, sozinha, senti uma paz que nunca antes havia sentido. Uma Presença e uma falta de angústia que foi minha companheira por tantos anos. Descobri então quem era Jesus Cristo e, como tudo na minha vida, mergulhei de cabeça. Me apaixonei e, como diz a canção, “uma vez que eu coloquei os meus olhos em ti, nada mais me satisfaz”.

Esse momento é um outro capítulo a ser escrito. Longo, potente e uma divisão histórica para mim em termos de rota.

O que posso dizer agora, é que, sim, esse “tipo de música” me fez compor mais e mais e coube direitinho na minha voz, como o sapato de cristal na Cinderela.

Então para além do álbum “É Só o Amor”, que lanço agora, no qual canto o amor entre relações interpessoais e trago participação do Péricles na nostálgica “Estou Apaixonado”, na sequência vem aí um álbum em que trago o louvor em uma roupagem erudita.

Oremos!