Lucy Alves de volta pro aconchego em novo DVD: ‘Tinha que ser aqui’
Cantora escolhe sua casa, a Paraíba, para gravação

Lucy Alves (Max Brito)
Janeiro não é o período mais chuvoso em João Pessoa. Talvez por isso quem estava na Praia de Tambaú não pôde prever o que aconteceu no dia 14 de janeiro de 2026: do céu desabou um temporal daqueles que costumam esvaziar praças. Mesmo com o refrescar da pele, o calor de um reencontro tão aguardado fez com que o público paraibano não arredasse o pé. Pelo contrário. Quanto mais água caía, mais o chão tremia ao som do forró. E, no palco, no centro de tudo, Lucy Alves usava sua sanfona como um escudo, um instrumento encantado que protegia o povo em um espetáculo de cerca de três horas, grande parte debaixo de chuva.
A água caindo virou uma metáfora, um batismo que purificou o retorno da cantora, compositora e multi-instrumentista às suas raízes e inaugurou sua fase mais madura. Mais que um registro de carreira, a gravação do seu primeiro DVD, “Lucy Alves ao Vivo em João Pessoa”, que chega às plataformas digitais no dia 11 de junho, foi uma celebração à música nordestina e à cultura popular.

Após fixar residência no Rio de Janeiro por conta de seus trabalhos em novelas, como “Velho Chico” (2016), “Travessia” (2022) e “Renascer” (2024), Lucy sentiu a necessidade de voltar à Paraíba. “Eu estava com saudade da minha terra, que é um lugar especial pra mim”, conta. “E quis fazer esse DVD nessa minha nova fase de vida, por tudo o que aprendi e acumulei. Até como forma de gratidão por tudo o que a minha terra e a minha gente sempre me deram, sabe? Tinha que ser aqui. É onde fico mais à vontade. E o melhor lugar pra fazer um trabalho novo é a casa da gente.”
No palco, a paraibana é uma força da natureza e entrega apresentações de “lavar a alma”, como considerou sobre o audiovisual. Mas, longe dos holofotes, fica clara uma dualidade que molda sua personalidade: “Existe uma timidez que eu mesma tento entender, acolher e criar mecanismos para usar minha potência musical sem que isso me atrapalhe”. Ela conta que, aos poucos, foi descobrindo que o palco é o lugar onde mais se sente à vontade. “Aí, quando eu desço, me recolho, boto o meu capuzinho e fico quietinha. Mas o palco é onde eu acho que nós, artistas, conseguimos colocar para fora toda a potência que a gente tem”, completa.
Ainda na infância, Lucy usava os instrumentos como seus interlocutores. “Eles me ajudaram desde sempre, porque não era só eu. Quem toca um instrumento nunca está sozinho, né? Sempre tem uma companhia”, brinca. “Por muito tempo da minha vida eu ficava sozinha no meu quarto tocando, isso me bastava. Falava com o instrumento e falava através do instrumento.”
Criada por uma família muito musical (o pai toca violão de sete cordas e os tios-avós, sanfona), ela ganhou força e segurança ao tocar ao lado das irmãs. Motivada pelos pais, que notaram uma aptidão das filhas para a música, Lucy aprendeu a tocar violino e teve uma grande vivência com músicos de orquestra. “A Paraíba é muito conhecida pela qualidade dos músicos sinfônicos”, explica. Ao mesmo tempo, cresceu cercada pela tradição do forró. “A minha infância inteira, por mais que eu tenha nascido em João Pessoa, foi no sertão. Todas as férias eram no sítio da família, andando a cavalo e tocando forró. Isso também era uma tradição muito forte.” Ao assumir a sanfona em um grupo aos 14 anos, ela descobriu sua paixão pelo instrumento.
Quando o clássico encontra a raiz
A vivência entre os dois mundos trouxe grande versatilidade. Lucy Alves domina cerca de dez instrumentos e é formada em viola clássica pela Universidade Federal da Paraíba. Sua sonoridade costura uma precisão técnica da música barroca com o calor da música de raiz. Essa bagagem a leva a um lugar único no cenário atual, onde cada vez mais o próprio brasileiro redescobre o país. Ela considera que o forró vive um ótimo momento. “Eu acho que a gente começa a olhar para dentro para descobrir e entender de verdade quem é o Brasil. E aí começamos a entender que a beleza está na diversidade. No Nordeste, por exemplo, são nove estados diferentes, não é uma coisa só. E eu acho que, no mundo todo, agora as pessoas estão tendo interesse de olhar para a própria comunidade. Aqui estamos num momento muito lindo de identificação do nosso povo”, explica. “Fico muito feliz que as novas gerações também estão se interessando e querendo beber da fonte.”

Lucy ressalta que é importante valorizar, reconhecer e homenagear quem veio antes, mas que também é possível misturar a tradição com o frescor da renovação. “Trazer o novo não é esquecer o passado.” Por isso, em seu DVD, os convidados são nomes de diferentes gerações, como Dorgival Dantas, Xande de Pilares, Priscila Senna, Joyce Alane, Luizinho Calixto, Mariah Yohana, Iza Mara e Fernando Perrotti.
O repertório passa pelos maiores sucessos de sua carreira, com os álbuns “Gato do Mato” (2024) e “Perigosíssima” (2022), além de clássicos, medleys e releituras de outros compositores. Há também inéditas como “Rodopiei”, “Saudade do Sertão”, em parceria com Elba Ramalho, e “Sertanejo”, com Poetiza.
Essa consciência cultural é ainda mais forte no período junino. Para Lucy, é essencial saber de onde veio para entender onde quer chegar. “É por isso que eu acho tão importante ir às festas de São João, que cresceram muito e hoje estão em grandes palcos, são muitas bandas, e geram muito emprego. Tem gente que espera o ano inteiro por essa época para ganhar seu dinheirinho, para cantar seu forró, é o caso do povo do triângulo pé de serra. Esse povo é quem sustenta a cultura, né? E um povo sem cultura não existe. Temos que lembrar disso. Não dá para cortar a parcela que cabe à cultura.”
São João é um território sagrado de memórias afetivas para a cantora, desde reuniões no sítio até a mesa farta da casa da avó. É uma celebração que conversa a tradição e a história.
Por isso, como ela mesmo diz, “da Paraíba para o mundo”, mas com os pés fincados na terra.
Ouça ‘Lucy Alves Ao Vivo Em João Pessoa’
[Esta matéria faz parte da 23ª edição da Billboard Brasil. Compre a sua revista aqui.]
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