Grandes bandas de metal estão no fim. Quem serão seus substitutos?
Festivais apelam para a música pop em virtude do fim dos astros do rock pesado

Bruce Dickinson, vocalista da banda Iron Maiden, em um show em Cingapura em 2013 (picture alliance/ANN / The Straits Time)
Na segunda quinzena de outubro, o Iron Maiden desembarca no país para apresentações por duas capitais – a saber, São Paulo e Curitiba. O sexteto inglês traz na bagagem a turnê “Run for your Lives”, na qual relê o repertório de mais de cinco décadas de existência (sim, bodas de prata de rock).
O Deep Purple, outra lenda do rock pesado, chega no mês de dezembro para uma única performance em São Paulo. O setlist traz canções de “Splat!”, seu mais recente trabalho, que será lançado no início de julho, além de clássicos como “Smoke on the Water” e “Highway Star”, criados há 50 anos.
As duas bandas carregam o epíteto de “dinossauros do rock”, que mostra sua durabilidade e disposição para cair na estrada, ainda que seus integrantes há muito tenham passado da idade de serem rebeldes. Steve Harris, baixista e líder do Iron, completou 70 anos em março deste ano, e Ian Gillan, vocalista do Deep Purple, faz 81 no início de agosto (só para ter uma ideia, Beethoven e Tom Jobim, nomes que você certamente associa a “música antiga” tinham respectivamente 57 e 67 anos quando passaram para o plano superior).
O amor por esses vovozinhos de calça justa e guitarras distorcidas não para por aí. O AC/DC do vocalista Brian Johnson, de 78 anos, lotou o estádio do Morumbis, em São Paulo, nos meses de fevereiro e março, e o Guns N’Roses de Axl Rose, de 64 anos, liderou as atrações do festival Monsters of Rock, realizado em abril, e passou por outras oito cidades, entre elas Cariacica (ES) e Campo Grande (MS), além de Belém (PA) e São Luís (MA).
![Grandes bandas de metal estão no fim. Quem serão seus substitutos? 2 AC/DC no Brasil - MorumBIS, SP [24/02] (crédito: Rafael Cusato - Brazil News)](https://billboard-com-br.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/2026/02/24220231/AC-DC-no-Brasil-MorumBIS-SP-24-2-Rafael-Cusato-Brazil-News_ok7.webp)
O lado complicado desse culto é que ele raramente se estende para as bandas das últimas gerações. Ghost e Volbeat, por exemplo, que são reverenciados nos festivais de rock pesado mundo afora, teriam grande dificuldade em emplacar por aqui, pelo menos como atração principal (e olha que estamos falando de grupos com mais de duas décadas de estrada). Nesse quesito, o rock pesado tem perdido espaço para o pop atual. Que se tornou hegemônico nos line-ups de alguns dos maiores festivais do país, entre eles o Rock in Rio, que já abriu espaço para o sertanejo e neste ano traz K-pop.

Mas há motivos históricos para esse fenômeno. Quando criou o Rock in Rio, no início dos anos 1980, o empresário Roberto Medina conseguiu colocar o país na rota dos shows internacionais – antigamente, éramos visitados por artistas em fase de decadência ou alguns golpes de sorte, como foi a vinda do Genesis, nos anos 1970, e Van Halen, na década seguinte. O RIR não apenas credenciou o país para eventos desse porte como também mostrou para as companhias de disco que o “tal de roque enrow” era rentável financeiramente. Além disso, ajudou a formar um novo time de profissionais. Muitos empresários e até jornalistas musicais deram seu pontapé inicial na profissão por conta do Rock in Rio.
Embora o evento tenha sido marcado pela pluralidade musical, ele entrou para o folclore do showbiz como a festa dos “metaleiros”, termo jocoso para classificar o fã de heavy metal. Iron Maiden, Ozzy Osbourne, AC/DC, Whitesnake e Scorpions foram as principais atrações de 1985. Mas não foram as únicas, como Medina contou numa entrevista para a Billboard Brasil em 2023, na ocasião do festival The Town.
“Existe uma grande lenda de que o primeiro Rock in Rio foi um festival essencialmente dedicado ao rock. Mas tinha o jazz de George Benson e Al Jarreau, o folk de James Taylor, a new wave de Go-Go’s e B’52’s”, pontua. “Eu sabia que, para atingir um público de 1,5 milhão de pessoas, era necessário que fosse um projeto transversal em idade e estilo de música. Ou seja, sempre existiu essa diversidade musical. Mas muita coisa mudou em 38 anos. As grandes bandas envelheceram, o que torna mais difícil trazer os sujeitos para cá”, conclui.
Medina possui um método de trabalho que pode ser chamado de pragmático: ele sabe que a movimentação da bilheteria é fundamental para manter a sanidade dos negócios. Ou seja, a prioridade é fechar a conta e satisfazer o público. A edição de 2026 traz em sua linha mais pesada grupos que reciclam o rock de arena dos anos 1970 (Foo Fighters) e híbridos de heavy metal com música eletrônica ou hardcore (Bring me the Horizon e Avenged Sevenfold). O filé das atrações, contudo, serão nomes do K-pop e eletrônica, além de princesas pop como Demi Lovato.

Mas há outros fatores. O rock, ao contrário de outros gêneros mais fugazes, é feito da construção do relacionamento entre o artista e o público. E, ao contrário da bola da vez, que por vezes é esquecida no ano seguinte, a turma das guitarras tem um público cativo. É um dos motivos da escalação do festival de Medina encontrar guarida entre nós, brasileiros.
“Ele amadureceu junto com o público que o criou. Bandas como AC/DC ou Iron Maiden construíram décadas de vínculo emocional com gerações inteiras, e esse vínculo não envelhece, ele se aprofunda. O Guns N’ Roses que trouxemos para a Arena Opus em outubro de 2025 reuniu cerca de 28 mil pessoas numa noite só, num formato open air, e a demanda por ingressos foi muito além do que esperávamos. O pop contemporâneo ocupa outro espaço, mais veloz, mais fragmentado. Mas, quando se fala em mobilizar um estádio com força coletiva, com aquela energia que faz o chão tremer, o rock ainda tem um idioma próprio que ninguém substitui”, atesta Lucas Zaffari, CEO da Opus Entretenimento.
Paulo Baron, um dos principais empresários do ramo de show no país, tem o mesmo pensamento de Zaffari. “A consolidação da marca no rock e no pop são diferentes”, diz ele. “Estamos falando de bandas que por anos trabalharam na consolidação e implantação de fãs”, explica. Baron, aliás, tem lugar de fala nesse quesito. A principal atração da edição de 2026 do Bangers Open Air, festival símbolo do gênero, foi justamente um de seus contratados – o grupo paulistano de heavy metal Angra, cuja apresentação contou com músicos das mais diferentes formações do combo de rock pesado. “Por certo é fruto de um projeto de consolidação que começou 20, 30 anos atrás”, arremata.

Histórias chegando ao fim
Este conto de amor, contudo, está condenado a passar por um período de turbulência. As grandes bandas estão no fim de suas trajetórias ou perto da aposentadoria. Kiss e Whitesnake, por exemplo, penduraram as chuteiras, e Iron Maiden, AC/DC e Deep Purple podem estar em seus últimos momentos. E até agora não há sinais de que terão substitutos à altura de sua grandeza. “As bandas clássicas têm mais alguns anos, mas é fato que o mundo nas últimas décadas vem produzindo muito mais lixo pop descartável para consumo imediato e deixando o rock fora do mainstream”, decreta José Muniz Neto, da Mercury Concerts, empresa que, entre outras atrações, faz o Monsters of Rock. “A renovação não acontece porque, com algumas exceções, as grandes bandas dos anos 1970 e algumas do início dos 1980 se perpetuaram por décadas, sendo capazes de manter o impacto diante das mudanças de tecnologia e mercadológicas, graças à qualidade musical e principalmente da entrega ao vivo. Tem um pouco de ressurgimento do new metal, System of a Down e Korn, mas ainda sim não são bandas que são muito ativas e ainda vivem do sucesso de um ou dois discos”, prossegue – por coincidência, as duas bandas vieram recentemente ao Brasil.
Tanto Monsters of Rock quanto seu “rival”, o Bangers Open Air, possuem o mérito de incluir nomes de gerações mais novas em meio a artistas consagrados. O primeiro tinha Dirty Rock e Jayler, grupos mais puxados para o hard rock, e Halestorm, hard rock oitentista capitaneado pela cantora e guitarrista Lzzy Hale (que fez sua estreia no Brasil no Rock in Rio na década passada), “ensanduichados” entre nomes como o virtuoso de guitarra Yngwie Malmsteen e o adocicado quarteto de hard rock Extreme. O Bangers, por sua vez, tinha o Lucifer, furioso grupo comandado pela cantora alemã Johanna Platow, e o Crazy Lixx, que emula o hard rock farofa dos anos 1980, reforçando a nata do rock pesado do primeiro escalão. É uma estratégia utilizada, com sucesso, nos principais festivais ao redor do mundo: coloca-se um grupo não tão conhecido em meio aos medalhões para conquistar o público aos poucos e ter força para se tornar headliner num futuro próximo.

A durabilidade dos veteranos do rock pesado tem muito a ver ainda com a maneira que se adaptaram às mudanças do mercado. Nomes com 50, 60 anos de vida começaram na época do LP, passaram para o CD e possuem alta rotação nas plataformas de streaming. Em cada mutação da tecnologia, eles estão ali para angariar um novo público. Mas o fator qualidade ainda é o mais importante na hora de conquistar um novo agregado ou manter o admirador de primeira hora apaixonado. “Não tínhamos ideia do que estávamos fazendo, não conseguiríamos definir nosso público nem se quiséssemos. A música conecta porque ela é muito bonita, uma beleza nem sempre perfeita, mas uma beleza universal e atemporal”, sapeca Don Airey, tecladista do Deep Purple, em entrevista à Billboard Brasil em 2025, quando tocaram no festival Best of Blues and Rock. Oxalá algumas das atrações de hoje, seja em qual festival toquem, atinjam essa durabilidade.
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