Como nasceu um dos maiores clássicos do rock brasileiro
'Cabeça Dinossauro' dos Titãs, faz quarenta anos e ganha reedição em vinil

O octeto paulistano Titãs (Divulgação)
Quando os Titãs lançaram “Cabeça Dinossauro”, no dia 25 de junho de 1986, o Brasil passava por um breve período de otimismo. O Plano Cruzado, lançado no dia 28 de fevereiro daquele ano, tinha como objetivo acabar com a inflação, com a criação de uma nova moeda e o congelamento de preços. O país tinha seu primeiro presidente civil depois de 21 anos (José Sarney, que assumiu o posto do falecido Tancredo Neves) e até mesmo a censura, cujo símbolo mór era a profissional Solange Hernandez, parecia ter dado uma trégua.
O terceiro disco do octeto paulistano era então um balde de água fria no otimismo autóctone. Uma coleção de treze músicas… Músicas, não. Protestos virulentos contra instituições como a igreja e a polícia; críticas à economia, ao funcionalismo público e observações ácidas sobre família e comportamento humano. Mas pra quê tanta fúria num momento em que o país estava dando mostras de recuperação e progresso.
Infelizmente, os Titãs estavam certos. Pouco depois das eleições de 1986, o Brasil mergulhou em outra crise econômica e social, que demorou quase uma década para ser resolvida –a saber, o Plano Real, implementado em 1994. Mas até lá, “Cabeça Dinossauro” –que está sendo relançado pela série Clássicos em Vinil, da Polysom– já tinha entrado para a história como clássico absoluto. Em 1997, por exemplo, foi eleito O Melhor Disco de Pop/Rock Brasileiro em Todos os Tempos numa votação da revista SHOWBIZZ, batendo clássicos como “Acabou Chorare”, do grupo Novos Baianos.
Quando entraram no estúdio para gravar o disco que mudou os rumos de sua carreira, os Titãs estavam passando por períodos de incerteza e turbulência. Primeiro porque em outubro de 1985, o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes foram presos por posse e tráfico de heroína. Arnaldo chegou a ficar 28 dias preso, experiência que marcou os integrantes do grupo. Segundo, os dois primeiros trabalhos do conjunto –o auto intitulado álbum de estreia e “Televisão”, de 1985– não tinham vendido o esperado. Era necessário um produtor, digamos, “de peso”. O escolhido foi Liminha, ex-baixista dos Mutantes, e que trazia no currículo trabalhos com Gilberto Gil, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso, entre outros. O encontro inicial foi longe de ser pacífico.
“Havia uma lenda de que ele mexia muito nos discos e descaracterizava o som das bandas”, revelou o guitarrista Marcelo Frommer (1961-2001) numa entrevista para a SHOWBIZZ. “Tanto que uma vez eu o vi fazer umas alterações numa música e saí gritando: ‘Ele mexe nas músicas, ele mexe!’.” O produtor, por sua vez, estranhou o visual do grupo em pleno verão carioca. “Ele disse: ‘Vocês são estranhos’”, lembra o cantor Branco Mello, na mesma entrevista.
O estranhamento inicial, contudo, deu origem a uma das melhores parcerias de uma banda com um produtor –os dois fizeram, entre outros discos, “Jesus Não tem Dentes no País dos Banguelas”, de 1987, “O Blesq Blom”, de 1989, e o “Acústico MTV”, de 1987. Embora os Titãs já estivessem experimentando músicas mais pesadas (vide “Massacre”, do disco “Televisão”), foi “Cabeça” quem gerou uma sonoridade “gorda” –o que são o baixo de Nando Reis e a bateria de Charles Gavin neste disco?– e experimentos musicais. A faixa-título, por exemplo, saiu de uma fita de gravações de música Xingu, “O Quê” tinha ritmos e batidas eletrônicas e “A Face do Destruidor” era uma pauleira de 34 segundos. Embora fosse uma bateria de protestos, as canções do grupo invadiram as rádios com força – o reggae “Família”, o funk “Bichos Escrotos” (com palavrão censurado e tudo), e os gritos primais de “AA UU” foram extremamente populares em seu tempo. E o perrengue passado pelo grupo rendeu canções furiosas como “Polícia” e “Estado Violência”.
Atualmente os Titãs, hoje reduzido ao trio Sérgio Britto (teclado e vocais), Tony Bellotto (guitarra e vocais) e Branco Mello (baixo e vocais) estão excursionando com o repertório do disco. Embora seja lindo, o único lamento é saber que, quatro décadas depois de seu lançamento, a situação descrita social e econômica pelos Titãs pouco mudou…
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