Como é que os Rolling Stones nos enganaram por tanto tempo?
Novo disco do grupo inglês mostra que seu talento vai além do rock'n'roll

Em seu disco homônimo de 1976, os Rolling Stones diziam “é apenas rock’n’roll, mas eu gosto”. (“It’s Only Rock’n’Roll But I Like It”) . A canção foi encarada como uma resposta do então quinteto –hoje reduzido ao vocalista Mick Jagger e aos guitarristas Ron Wood e Keith Richards– às críticas de que eles estavam se repetindo. Sinto trazer verdades inconvenientes para o público e para a crítica, mas Mick Jagger, esse pândego, nos enganou. O grupo nascido 64 anos atrás na cidade de Londres tem muito mais bala na agulha do que “apenas” rock’n’roll. É um combinado de blues, soul, funk, disco, country music e, claro, rock.
Uma das provas cabais da diversidade de Jagger, Richards e Wood é “Foreign Languages”, que chega às plataformas de streaming no dia 10 de julho. Vigésimo quinto disco de estúdio do conjunto, ele é também um atestado de resiliência deles depois de duas perdas significativas. O baixista Bill Wyman se aposentou em 1993 e o baterista Charlie Watts, responsável pela pulsação que marcou as composições dos ingleses, morreu em 2021.
O combo, por outro lado, recebeu injeções de adrenalina musical com a inclusão do baixista Darryl Jones e do baterista Steve Jordan (esse último, integrante da banda solo de Keith Richards) e, principalmente, com o produtor Andrew Watt. Ex-colaborador de Lady Gaga, Miley Cyrus e Justin Bieber, entre outros, nos últimos tempos ele tem se dedicado a alguns dos medalhões do universo do rock. Iggy Pop, Ozzy Osbourne (1948-2025) e Paul McCartney são alguns dos nomes que receberam um tratamento moderno do produtor.
“Foreign Languages” é a segunda colaboração de Andrew Watt com os Rolling Stones –a primeira foi “Hackney Diamonds”, de 2023. E se por um lado ele peca por tirar todas as impurezas das guitarras de Wood e Richards (uma heresia para quem ama “Exile on Main Street”, de 1972, onde a “sujeira” de Richards e do então guitarrista Mick Taylor fazia toda a diferença), ele traz uma sonoridade mais encorpada e pesada. Isso foi evidente em faixas como “Mr. Charm” e “Divine Intervention” (com participação de Robert Smith, do Cure, na guitarra!!!), perfeitas para ecoarem em estádios.
Os Rolling Stones “raiz”, no entanto, também se faz presente no álbum. O elemento blues de “Rough and Twisted”, “In the Stars” com um riff de guitarra tipicamente “stoniano”, e a acelerada “Hit me in the Head”. A última traz uma das derradeiras participações de Charlie Watts na bateria –ela estava sendo trabalhada há pelo menos seis anos. Outro destaque é “Jealous Lover”. Tem teclados de Stevie Winwood, lenda do rhythm’n’blues britânico, e os vocais falsete de Jagger –e para quem gosta de canções do repertório do grupo como “Fool to Cry”, “Miss You” e “Emotional Rescue”, sabe que é uma das qualidades do vocalista. Já a voz cultivada em scotch de Richards faz com que “Some of Us” seja uma audição saborosa.
Mais maravilhas? Paul McCartney faz a linha de baixo –complicadíssima, por sinal– de “Covered in You” e o conjunto presta uma homenagem a Amy Winehouse na cover de “You Know I’m Not Good”. “Foreign Language”, sim, é uma prova de como os Rolling Stones nos enganaram esse tempo todo. Mas o sentimento é muito mais o de “me engana que eu gosto” do que “quero o meu dinheiro de volta”.
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