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Como brasileiro foi chamado pra tocar no Gojira: ‘Foram 10h para aprender tudo’

Luigi Paraventi assume posto por três shows após problema de visto do titular

Luigi Paraventi (Reprodução Instagram)

Luigi Paraventi (Reprodução Instagram)

Às oito horas da noite de uma segunda-feira, o celular de Luigi Paraventi mostrou uma notificação do Instagram. Do outro lado da conversa estava Mario Duplantier, baterista do Gojira, seu ‘web amigo’ e uma das maiores referências da bateria no metal contemporâneo. Depois de confirmar onde o brasileiro estava, o francês foi direto ao assunto: precisava de alguém para substituí-lo em três shows nos Estados Unidos.

“A primeira resposta, pra mim mesmo, veio como um não”, disse Luigi, à Billboard Brasil, antes do Upheaval Festival, em Grand Rapids (EUA). Aos 21 anos, ele teria pouco mais de um dia para aprender 13 músicas de um repertório conhecido pela complexidade técnica, embarcar para os Estados Unidos e ensaiar com uma banda que nunca havia encontrado pessoalmente. O “não”, porém, durou apenas alguns instantes. Logo veio o planejamento: mapear as músicas durante a madrugada, passar o dia seguinte inteiro no estúdio, seguir direto para o aeroporto e chegar a tempo do ensaio.

Foi exatamente o que aconteceu. Depois de cerca de dez horas de preparação intensa, Luigi desembarcou nos Estados Unidos, ensaiou por aproximadamente duas horas e subiu ao palco para ocupar, pela primeira vez na história do Gojira, o lugar de Mario Duplantier. A confiança depositada pelo próprio baterista francês, que já acompanhava seus vídeos nas redes sociais, foi determinante para aceitar aquele que ele define como o maior desafio da carreira. Ao fim do primeiro show, ouviu do técnico de bateria de Mario: “Cara, deu certo”. Primeira missão, das três no total, cumprida.

Em entrevista à Billboard Brasil, Luigi, que é baterista oficial do Paleface Swiss, banda suíça, relembra a ligação que mudou sua vida, explica como conseguiu aprender o repertório em tempo recorde, fala sobre a amizade construída virtualmente com Mario e o orgulho de representar o Brasil em uma das maiores bandas de metal do mundo.

Com quanto tempo de antecedência você soube que iria substituir o Mario?

Cara, foi tudo muito rápido. Aconteceu na segunda-feira à noite, por volta de 20h. O Mario me colocou num grupo com ele e o empresário do Gojira, pelo Instagram, e perguntou onde eu estava. Contei que estava no Brasil, eu moro em São Paulo, e ele falou: “Eu preciso de uma pessoa para me substituir em três shows”. Bem direto ao ponto. Eu falei: “Cara, maravilha. Quando vai ser isso?”. Eu imaginei que ele fosse falar algo do tipo “semana que vem”. Mas ele respondeu: “Nesta quinta, sexta e sábado”.

Na hora foi um susto. Eu pensei: “Cara, será? Talvez não”. A princípio, eu disse não para mim mesmo. Achei que não conseguiria fazer isso com tão pouco tempo. Mas, ao mesmo tempo em que pensei em falar não, a resposta foi sim. Pensei: “Cara, eu vou enfrentar esse desafio”.

E qual era o cronograma e o tempo pra aprender a setlist?

Segunda à noite foi o convite, e o voo era terça-feira de noite. Comecei a fazer as contas: “Tenho que sair para o aeroporto às cinco. Agora são oito da noite. Então tenho hoje para mapear as músicas antes de dormir, acordar muito cedo e tocar tudo”. Foi exatamente o que eu fiz.

Fiquei na segunda-feira, das nove da noite até umas duas da manhã, só mapeando as músicas. Eu tenho o costume de aprender as músicas escrevendo. Gosto de fazer as partituras, anotar os grooves, parte por parte. Tenho essa questão da leitura, que me ajuda muito. No dia seguinte, acordei às sete da manhã. Fui para o estúdio e fiquei até as quatro da tarde sem parar de tocar. Depois peguei meus equipamentos, fui para o aeroporto, embarquei no primeiro voo e cheguei aos Estados Unidos pela manhã, onde já fui direto para o ensaio. A gente ensaiou por cerca de duas horas. Passamos as músicas, deu tudo certo, ficamos confortáveis, viajamos e ontem fizemos o primeiro show.

Foram aproximadamente dez horas totais para aprender as músicas até ter o primeiro ensaio e o contato com os caras. Foi tudo muito, muito rápido.

O Mario teve problemas com visto. Você já tinha isso resolvido?

Sim, por causa do Paleface Swiss. A gente fez uma turnê pelos Estados Unidos, agora em abril. E na época a banda providenciou tudo para mim, então graças a eles eu tive essa possibilidade.

E você já era um cara que ouvia bastante Gojira?

Cara, eu arrisco dizer que, se não é a minha banda favorita de metal, é uma das favoritas. Sempre fui muito apaixonado por metal desde muito cedo. Algumas bandas sempre chamaram muito a minha atenção: Sepultura, Slipknot… E, obviamente, o Gojira talvez tenha sido a que mais me chamou a atenção por causa do baterista, o Mario. Como baterista, eu admiro muito a banda. Muito mesmo. Minha trajetória sempre se misturou com essa influência: escutando as músicas, tirando as músicas, gravando covers. É uma banda que eu toco para me divertir. Às vezes estou no estúdio, coloco no fone e fico tocando. Nunca tive ideia do que o futuro poderia trazer, mas sempre existiu uma relação emocional muito forte. É uma banda pela qual sou apaixonado.

Luigi Paraventi (Foto: Rafael Dolinski)
Luigi Paraventi (Foto: Rafael Dolinski)

Mas tirar um repertório inteiro e tocar um show deve ter sido um desafio do mesmo jeito.

Quando o Mario me ligou, a primeira sensação que eu tive falando com ele é que ele estava muito tranquilo com a situação. E uma coisa que me deixou muito grato e muito feliz é que, até o último momento, ele falou: “Esse é o cara que eu quero”. E foi o cara que eles chamaram. Então tive a felicidade de receber um convite de um herói. Um cara que me deu essa oportunidade de uma forma muito humilde e muito generosa. Ele abriu essa possibilidade para mim. Confiou muito em mim.

Ao mesmo tempo em que ele dizia: “Vai dar tudo certo”, eu pensava: “Olha, ao mesmo tempo em que eu estou muito grato, você está me deixando com muita raiva. Pô, se fosse semana que vem… Mas amanhã? Como assim? Dez horas para tirar treze músicas?” (risos).

E vocês já se conheciam? 

Desde o ano passado eu comecei, com mais frequência, a compartilhar vídeos tocando bateria. De um jeito mais orgânico, mais cru. Eu começava olhando para a câmera como uma forma de humanizar a coisa, de olhar no olho de quem estava assistindo, de criar uma conexão mais pessoal. Eu gravei Gojira inúmeras vezes, e o Mario começou a assistir, compartilhar, comentar e me seguir. Então a gente criou uma relação virtual, mas nunca tinha se encontrado pessoalmente.

Web amigos? (risos)

Exatamente. Uma web amizade. (risos)

Mas nem amizade propriamente dita, porque a gente não conversava. Mas deu para perceber que, no caso dele, isso ficou. Ele realmente me conhecia, a ponto de fazer esse convite. Além disso, algumas conexões do mercado também nos aproximavam. Tínhamos amigos em comum, músicos que comentavam sobre mim, e recentemente entrei para a Tama, que é a mesma marca de bateria que ele usa. Algumas coisas foram nos conectando, mesmo com toda a distância.

E como foi o primeiro show? Imagino que, para um baterista, seja impossível acertar tudo logo de cara.

Cara, vou dizer que foi impossível ter sido melhor. Foi maravilhoso. Uma sensação indescritível. A banda me deixou muito à vontade, muito feliz e muito confortável. O setlist é incrível e, como fã da banda, eu me emocionei inúmeras vezes. Cheguei a chorar tocando. Em alguns momentos eu fechava os olhos e parecia que estava ouvindo o disco em casa. “Silvera”, obviamente, é uma música icônica e foi maravilhosa de tocar. “Amazonia” também tem um peso muito especial para mim. Mas talvez a minha favorita do repertório seja “The Gift of Guilt”. O riff inicial daquela música me emociona muito. E ela encerra o show.

Quando acabou, o drum tech da banda olhou para mim e falou: “Cara, deu certo. Você conseguiu”. Naquele momento eu só fechei os olhos e pensei: “Caraca…”. Um dia antes, eu mesmo não acreditava que aquilo seria possível. Agora ainda temos mais dois shows. Quero manter o foco e a responsabilidade. O trabalho ainda não terminou.

O Gojira tem uma ligação muito forte com o Brasil. Tem “Amazonia”, já fez shows memoráveis por aqui. É legal também entrar como brasileiro e fortalecer essa ligação. Eles comentaram alguma coisa sobre isso?

Não especificamente. A maior brincadeira foi em relação aos nomes: Mario e Luigi (risos). Foi a melhor coincidência possível. Acho que para a banda foi muito divertido brincar com isso. Mas, ao mesmo tempo, o fato de ser brasileiro tem um peso enorme para mim. Eu sou muito feliz e muito orgulhoso de ser brasileiro. Tocar com o Paleface Swiss já tinha aberto uma porta muito importante para representar o Brasil em grandes turnês e grandes palcos pelo mundo.

Eu não encaro isso como uma conquista só minha. Longe disso. Fico muito honrado, muito grato e muito orgulhoso de poder representar o meu país. Sempre tenho o costume de tocar usando um short da seleção brasileira. Fiz isso ontem, vou fazer hoje de novo e amanhã também, porque carrego isso com muito orgulho.

Para a banda, talvez essa conexão com o Brasil venha pela “Amazonia”. Para mim, ela é muito maior. É uma relação emocional muito forte.


O Brasil parece ter uma tradição muito forte de bateristas reconhecidos internacionalmente, desde Iggor Cavalera até Eloy Casagrande. Você acha que o baterista brasileiro tem alguma característica que chama atenção lá fora?

Eu acredito muito que o brasileiro tenha uma combinação de musicalidade e mentalidade esportiva. A música faz parte da nossa vida desde que a gente nasce. Mas também acho que o brasileiro tem uma mentalidade esportiva muito forte. Não falo de competição. Falo de trabalhar duro, dar o sangue, valorizar cada passo. Durante boa parte da minha vida pratiquei karatê. Sou apaixonado por arte marcial. No esporte você aprende disciplina, aprende a treinar constantemente e a querer melhorar todos os dias. Eu acredito que isso faz toda a diferença.

Não é à toa que você tem um dos maiores exemplos de dedicação e musicalidade no meu grande herói da bateria, o Eloy Casagrande. Ele é um exemplo disso: um cara disciplinado, estudioso até hoje e que representa o Brasil muito bem.

Me conta um pouco sobre o Paleface Swiss. É uma banda que acompanho e que tem um dos sons mais insanos que ouvi nos últimos tempos. Como foi essa entrada e como tem sido tocar com eles?

O Paleface foi uma surpresa muito boa na minha vida. Como eu falei, comecei a fazer esses vídeos mais orgânicos justamente para me conectar com músicos e conseguir uma banda. Sempre foi o meu objetivo tocar em uma grande banda do exterior e sair do país carregando essa bandeira. Sempre tive esse sonho de rodar o mundo tocando. Graças a esses vídeos, o Marc Zelli, vocalista da banda, acompanhava o meu trabalho. No começo deste ano ele entrou em contato comigo para dizer que o baterista estava saindo da banda. Na época eu ainda estava na universidade, cursando marketing. Sempre mantive uma faculdade em paralelo à carreira musical para ter uma segurança. MAs graças a essas conversas, conseguimos viabilizar tudo. Esse convite me trouxe muitas oportunidades, a chance de estar cercado por músicos que admiro muito. Na semana que vem já volto para a turnê. Vamos tocar no Wacken, Summer Breeze e outros grandes festivais, estou ansioso e já temos planos para turnês e entrar em estúdio.


Aqui no Brasil você foi baterista do Command6 e tocou com a Jessica Falchi e a Odeon. 

O Command6 foi a primeira banda de metal em que toquei na vida. O Bruno Luiz (guitarrista0 é um dos melhores guitarristas com quem já toquei, disparado. É um cara muito querido. Sou muito grato a ele porque foi quem me apresentou o metal e me deu a oportunidade de tocar esse estilo pela primeira vez. O Command6 foi um presente, porque abriu muitas portas para mim e me apresentou um universo enorme de músicas. Com a Odeon passei o ano de 2025 com eles e foi muito legal, tive a felicidade de gravar o novo disco da banda. Com a Falchi também, tive a felicidade de gravar o disco de estreia da carreira instrumental dela. Ela é uma guitarrista fenomenal. Estar com todos eles é sempre muito bom.