Como brasileiro ‘convenceu’ Bruce Dickinson a orquestrar sua balada mais famosa
Antonio Teoli relembra como ganhou a confiança de Bruce Dickinson

Antonio Teoli (Arquivo Pessoal)
Poucas músicas da carreira de Bruce Dickinson carregam tanto peso quanto “Tears of the Dragon”. Qualquer fã que ouve o dedilhado clássico do começo da canção já a reconhece de pronto. Lançada em 1994, a faixa se tornou maior do que o próprio álbum “Balls to Picasso”. Ela atravessou o período em que o cantor esteve fora do Iron Maiden, sobreviveu ao retorno da banda e segue nos repertórios solo. Quando o britânico resolveu lançar “More Balls to Picasso”, reimaginando o disco original com novas gravações, a ideia para “Tears of the Dragon” foi dar um toque orquestral. E é aí que um brasileiro entra na história.
A sugestão não partiu de Bruce, partiu de Antonio Teoli, compositor paulistano que hoje mora em Los Angeles e é um pioneiro da composição profissional para videogames no Brasil. Responsável por centenas de trilhas para games ao longo de mais de duas décadas de carreira, ele costuma escrever música orquestral e viu uma oportunidade ousada de criar uma nova atmosfera para o clássico.
“Eu lembro exatamente da conversa. A gente já estava trabalhando em outras músicas do projeto e eu falei: ‘Bruce, acho que a gente tem que fazer uma orquestra em ‘Tears of the Dragon”. Ele respondeu na hora: ‘Let’s fucking go’ [Vamos nessa, p****]. E foi isso. Ele simplesmente me deu carta branca. Não teve uma lista de exigências, não teve medo de mexer na música. Ele confiou completamente.”
A confiança, porém, não surgiu de um dia para o outro. Ela começou a ser construída muitos anos antes — e de um jeito improvável.
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Um casamento e uma amizade
Se alguém dissesse a Antonio Teoli, há quinze anos, que uma conversa rápida durante um casamento acabaria levando à amizade com Bruce Dickinson, provavelmente ele daria risada. Foi no casamento de Felipe Andreoli, baixista do Angra, que ele conheceu Brendan Duff, produtor de Bruce.
Na época, o encontro não parecia ter qualquer consequência. “É muito louco como a vida dá voltas. Eu conheci o Brendan porque uma amiga era muito próxima da esposa do Felipe Andreoli. Eu nem conhecia o Felipe direito, mas fui ao casamento. Conversei um pouco com o Brendan, coisa rápida, e acabou ali.”
Os dois perderam contato. Anos depois, porém, acabaram morando no mesmo país. “Quando eu me mudei para Los Angeles, em 2018, a gente começou a se encontrar mais. O Brendan também estava vivendo nos Estados Unidos. A amizade cresceu muito”. Foi durante uma dessas visitas que a história mudou de rumo.
“Um dia ele falou: ‘Estou indo gravar um artista, mas não posso dizer quem é’. Eu respondi brincando: ‘Não é o Bruce Dickinson, né?’. Ele olhou para mim e falou: ‘É’.”
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Brendan apresentou os dois pouco tempo depois, mas, na primeira conversa o assunto passou longe do Iron Maiden, uma paixão de Antonio. Teoli mostrou ao cantor um de seus projetos mais pessoais: gravações realizadas com músicos indígenas na Amazônia.
“Eu mostrei uma foto minha abraçando os indígenas depois das gravações e expliquei o projeto. O Bruce ficou fascinado. Perguntou o que era aquilo, queria saber como tinha sido, começou a fazer um monte de perguntas. Foi uma conversa muito legal.” Pouco depois veio o primeiro convite profissional.
Antes de “Tears of the Dragon”, as percussões
Quando entrou no projeto de reimaginação de “Balls to Picasso”, sua participação inicial era bem modesta. “Começou com uma música chamada ‘Gods of War’. O Brendan falou: ‘Vamos colocar umas percussões aqui’. Eu gravei algumas ideias, mandei de volta e o Bruce gostou muito. A música começou a ganhar outra dimensão. Não porque ela não fosse boa antes — ela já era excelente —, mas aquelas camadas novas abriram possibilidades. Daí começou uma conversa sobre outras faixas. Aos poucos fui entrando cada vez mais no projeto.”
Esse caminho fazia sentido para alguém cuja carreira sempre esteve muito mais ligada à música orquestral do que ao rock propriamente dito.
Embora seja fã de Bruce Dickinson desde a adolescência e tenha trabalhado diversas vezes com artistas do metal — incluindo arranjos para o Angra, como em novas orquestrações para o show especial do Bangers Open Air —, Teoli construiu sua reputação escrevendo trilhas para videogames.
Segundo ele, cerca de 90% de seu trabalho está nesse universo. “Eu componho desde os 16 anos. A maior parte da minha carreira foi escrevendo música para games. Já trabalhei para Nintendo, Sony, Marvel, Dragon Ball… Hoje já são quase 500 jogos. Minha formação sempre foi muito voltada para música orquestral.” Foi justamente essa experiência que ele levou para “Tears of the Dragon”.
“Não queria colocar uma orquestra, queria contar uma história
Ao receber a missão, Teoli decidiu que não faria um arranjo tradicional. “Eu não queria simplesmente colocar uma orquestra tocando junto da música. Isso qualquer pessoa consegue fazer. O que eu queria era que a orquestra acompanhasse exatamente a história que o Bruce estava contando.”
“Quando você trabalha com videogame, aprende que música existe para servir à narrativa. Ela precisa acompanhar emoção, personagem, tensão. Eu trouxe exatamente essa mentalidade para ‘Tears of the Dragon’. Se a voz do Bruce cresce, a orquestra cresce junto. Se ele canta de maneira mais íntima, eu diminuo tudo. Tem momentos em que praticamente tiro a orquestra inteira porque quem precisa falar é a voz. Em outros trechos, eu escolhi determinadas harmonias porque a letra sugeria determinadas imagens. Eu queria que o arranjo respirasse junto com a interpretação dele.”
Antes de escrever qualquer nota, porém, ele resolveu estudar a performance original, numa espécie de ritual solitário Abriu uma garrafa de vinho e teve acesso às vozes isoladas de Bruce Dickinson cantando o clássico. Ele admite que o nervosismo foi grande.
“Nos três primeiros dias, eu fiquei completamente travado. Eu pensava o tempo inteiro: ‘Como é que eu vou mexer numa música dessas?’.”
A maior decisão veio justamente na parte mais reconhecível da música, a introdução. Foi justamente ali que Teoli resolveu arriscar.
“A última parte que eu escrevi foi a introdução. Eu falei para mim mesmo: ‘Aqui eu quero colocar minha marca’. Escrevi uma abertura totalmente nova antes do violão entrar. Ela tem uma pegada bem cinematográfica, quase lembrando aqueles filmes clássicos, meio James Bond. Quando mandei, pensei: ‘Eles não vão aprovar isso’. O dedilhado é tão icônico que achei que eu tinha ido longe demais. Mas eles adoraram.”
Para completar o projeto, ainda houve a gravação de um clipe no Brasil, com uma orquestra. Antonio, que não costuma reger as orquestras com quem grava por cuidar de outros detalhes da produção, ganhou papel entre os protagonistas do vídeo, com a batuta na mão.
“O retorno foi muito positivo. Quando saiu o videoclipe, acho que essa nova versão ficou ainda mais forte. O vídeo deu uma identidade para o arranjo e ajudou as pessoas a entenderem melhor essa releitura. E fazia muito tempo que eu não regia uma orquestra daquele jeito. Foi muito especial.”
O amigo Bruce
Hoje, a parceria profissional acabou se transformando também em amizade. “Quando o Bruce está em Los Angeles, às vezes ele passa aqui em casa para tomar um café. Claro que ele é um cara muito ocupado. Eu jamais vou ficar enchendo o WhatsApp dele. Mas a gente conversa, se encontra quando dá.”
Para quem começou a carreira compondo músicas para videogames em uma época em que essa profissão praticamente não existia no Brasil, a cena ainda parece improvável. Mas talvez faça sentido. Afinal, depois de quase 500 jogos, Antonio Teoli passou boa parte da vida usando música para contar histórias. Em “Tears of the Dragon”, encontrou uma forma de fazer isso, dando nova dimensão ao que Bruce Dickinson havia escrito três décadas antes.

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