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Quer arruinar uma carreira de sucesso? Paul Di’Anno dá as dicas

Documentário sobre o ex-vocalista do Iron Maiden é destaque do In-Edit

Paul DiAnno divulgacao

O cantor Paul Di'Anno (Divulgação)

Paul Di’Anno (1958-2024), vocalista dos dois primeiros discos de estúdio do grupo inglês Iron Maiden –e, para muitos, o grande cantor da história da banda– é um dos melhores exemplos de como jogar pela janela uma carreira que parecia promissora.

Explicando melhor: dono de uma poderosa voz roufenha e carisma para dar e vender no palco, ele viveu intensamente o universo do rock pesado (entenda como quiser) até ser defenestrado do conjunto, no dia 10 de setembro de 1981. Por ironia do destino, seu substituto, o vocalista Bruce Dickinson, foi o elemento principal na escalada do Iron Maiden ao sucesso. Seu registro vocal poderoso, quase ope

Iron Maiden Paul Natkin Divulgacao
O grupo inglês Iron Maiden (Paul Natkin/ Divulgação)

rístico, marcou discos como “The Number of the Beast”, de 1982, “Piece of Mind”, de 1983, e “Powerslave”, de 1984.

 

A trajetória de Paul, em especial seu talento incomum para jogar as chances que a vida lhe dá pela janela, é o ponto principal de “Di’Anno: Iron Maiden’s Lost Singer”, um dos destaques da In-Edit Brasil, mostra dedicada a documentários musicais (confira aqui os dias e horários de exibição). O cineasta, Wes Orshoski, nutre uma grande simpatia pelos anjos caídos do showbiz. Na década passada, realizou um retrato belo e tristonho de Lemmy Kilmister (1945-2015), líder do Motorhead. A produção mostrava o quanto o Deus do rock pesado era na verdade um sujeito solitário e atormentado por alguns dos fantasmas de seu passado –o grande amor de sua vida, por exemplo, morreu de overdose de heroína.

A grande diferença entre Lemmy e Paul Di’Anno, contudo, é que não existe absolutamente nada de cativante em Mr. Di’Anno, a não ser a qualidade como cantor –que perdida após anos de abuso, em especial de um certo pó branco. O roqueiro britânico era um sujeito incapaz de cumprir compromissos, mal humorado e que brigou com todas as pessoas que tentaram lhe ajudar. Um dos mais prejudicados é Stjepan Juras, um fã da Croácia, que trouxe seu ídolo para o país a fim de que ele tivesse um tratamento médico mais adequado –Di’Anno tinha sérios problemas no joelho e de circulação. A forma que o roqueiro encontrou para agradecer o carinho foi passar o tempo todo reclamando de Juras e desrespeitar todas as etapas exigidas para sua recuperação.

“Iron Maiden’s Lost Singer” tem ainda um quinhão de momentos constrangedores. Um deles foi o encontro de Di’Anno com Steve Harris, baixista e líder do combo inglês, durante uma passagem do grupo pela Croácia. Harris mantém a postura simpática, mas é nítido o seu desconforto perante a situação. Em outro, Di’Anno, na sua derradeira passagem pelo Brasil, descobre que o hotel onde ficaria hospedado em Fortaleza não comportava sua cadeira de rodas –e ele espera por uma solução em frente à estalagem, com direito a fãs do Iron Maiden fazendo uma tietagem básica.

Nos momentos finais do documentário de Orshoski, Di’Anno, claro, apela para o velho clichê de que não se arrepende das escolhas que fez. A confissão, contudo, soa vazia. O Di’Anno retratado na tela e nas malcriações com amigos e companheiros de banda soa como alguém frustrado e que tem certeza absoluta de que jogou sua vida fora. 

 

RUIM DE RELAÇÕES PÚBLICAS, MAS BOM DE CANTO

 

Paul Di’Anno tem laços estreitos com o Brasil. O ex-vocalista do Iron Maiden dizia que descendia de brasileiros, torcia para o Corinthians e tem dois filhos nascidos no país –eles moram em São Paulo e suas identidades são mantidas em segredo.

A popularidade do vocalista no país se estende também para sua discografia. A Hellion, gravadora independente dedicada ao universo heavy metal, tem quatro discos do cantor de voz roufenha em seu catálogo. Vamos a eles:

 

Wrathchild: The Anthology” (2012)

Uma bela introdução ao trabalho de Paul Di’Anno e sua voz singular. Traz canções do Iron Maiden, claro, além de covers de Van Halen, Megadeth e até incursões pelo funk –as releituras metal/funk de “Living in America”, de James Brown, e “Play that Funky Music”, de Wild Cherry. 

“Hell Over Waltrop: Live in Germany” (2020)

Gravado ao vivo na cidade alemã, ele traz uma ou outra coisa da carreira solo do vocalista, mas o principal está nas rendições de alguns clássicos do Iron Maiden –em especial os que não fazem mais parte do repertório de concertos da banda. “Murders in the Rue Morgue”, “Remember Tomorrow” são o destaque. A versão de “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, ilustra a conexão do cantor inglês com o punk rock.

 

Paul Di’Anno’s Warhorse with Madiraca and Pupi (2024)

O derradeiro disco do cantor inglês foi gravado na Croácia, onde passou por um longo período. É um material inédito e de ótima qualidade, gravado com os guitarristas Madiraca e Pupi. Em alguns momentos, ele chega a lembrar o vocalista dos tempos gloriosos do Iron Maiden.

“In Memory of Paul Di’Anno” (2025)

Uma coletânea de faixas gravadas ao lado da Architects of Chaoz, banda que acompanhou nas suas temporadas européias. Boa parte do repertório saiu de “Hell Over Waltrop”.