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Mapa da música eletrônica brasileira é um ‘documento vivo’; entenda

Estudo da UBC analisa agentes da cena; leia entrevista com Peter Strauss

Time Warp Brasil

Time Warp Brasil (@thiagofmxavier/Divulgação)

Entendido como um “documento vivo”, de acordo com Peter Strauss, da União Brasileira de Compositores, o “Mapa da Música Eletrônica Brasileira” foi anunciado durante um painel na Hot Beats Music Conference, o ponto de encontro de amantes do gênero.

O estudo foi realizado em parceria com a Brazil Music Conference e analisou oportunidades, desafios e os principais agentes da cena. Em entrevista à Billboard Brasil, o Gerente de Relações Internacionais, Distribuição e Licenciamento da UBC explicou que a ideia é expandir o documento e aprofundá-lo, inclusive ao receber o feedbacks da primeira versão.

Leia a seguir:

Billboard Brasil: Como foi voltar as atenções para a música eletrônica e o que mais surpreendeu vocês nesse processo?

Peter Strauss: Para nós, é fundamental entender todos os mercados, que estão cada vez mais plurais e segmentados em diferentes nichos. Não podemos olhar apenas para o Top 100 da Billboard ou do Spotify. A UBC conta com 70 mil titulares apenas entre os brasileiros. Além disso, como representamos uma quantidade significativa de sociedades estrangeiras, também gerenciamos um volume massivo de repertório internacional no Brasil. Por isso, precisamos estar atentos a todos os gêneros.

Eu nem chamaria a música eletrônica de “nicho”, pois seria um exagero. Assim como a palavra “rock” abriga uma vastidão de vertentes, a eletrônica funciona da mesma forma; se usarmos o termo de maneira genérica, as pessoas tendem a pensar apenas em House, mas vai muito além disso.

Representamos sociedades globais onde esse repertório é extremamente importante. Ao mesmo tempo, a música eletrônica traz um dos maiores desafios para o cerne do nosso trabalho, que é a distribuição precisa: repassar o que arrecadamos exatamente para os autores das músicas que tocaram em determinado evento.

Esse rastreamento é muito complexo na música eletrônica por várias razões. Elas vão desde a falta de documentação e registro por parte dos produtores até o fato de um DJ misturar quatro faixas simultaneamente em um set. Teoricamente, o uso dessas músicas deveria ser licenciado previamente, mas em performances ao vivo dependemos de ferramentas de fingerprinting (reconhecimento de áudio por inteligência digital). O sistema ouve o áudio, compara com o banco de dados e identifica a gravação. Porém, se houver três ou quatro músicas sobrepostas e equalizadas ao mesmo tempo, o processo complica bastante.

Nosso objetivo é estreitar parcerias com sociedades internacionais que já lidam com esse repertório há mais tempo e que possuem soluções mais maduras para esses desafios técnicos.

E quais foram os principais insights e visões gerais que vocês extraíram desse mapeamento?

O que mais me impressionou foi a força do repertório brasileiro nesse cenário. Eu tinha a ideia preconcebida de que o consumo de música eletrônica no Brasil era predominantemente de faixas estrangeiras, mas não é bem assim. Embora a presença internacional seja forte, os festivais e o público exigem cada vez mais DJs e produtores nacionais nos palcos.

Isso muda o nosso foco de atuação. Se inicialmente olhávamos para a eletrônica para proteger o repertório estrangeiro que entrava no Brasil, agora também passamos a olhar para a exportação e proteção do repertório brasileiro no exterior.

Outro ponto crucial é a necessidade de conscientização dessa comunidade. Embora seja um público extremamente tecnológico por natureza — pela própria essência da produção musical —, a gestão de direitos, registros e documentações ainda está muito distante do mindset desses artistas. Não é um problema exclusivo da música eletrônica; a burocracia dos direitos autorais é um tema árido em geral, mas é vital que eles entendam a sua importância.

Analisando o comportamento do público, vemos que as pessoas ainda compram muitos ingressos baseadas nos grandes headliners internacionais. Pelos dados mapeados, você acredita em uma mudança de comportamento, com o público apoiando mais os talentos nacionais?

Acredito que isso já está acontecendo. O problema atual talvez não seja a falta de brasileiros nos line-ups, pois a presença deles melhorou bastante. O verdadeiro desafio é o formato dos festivais modernos. Estamos vivendo uma era de megaeventos, o que ocorre também em outros estilos musicais, que movimentam muito dinheiro e impulsionam a economia, o que é excelente.

No entanto, no passado, existiam mais pistas alternativas e festivais menores e focados, que serviam como vitrines para revelar novos nomes. Hoje, abrir espaço para o novo está mais desafiador. Abordamos isso no mapa, mas confesso que não temos uma solução pronta, até porque produzir música ao vivo ficou muito caro no mundo inteiro.

A concorrência também é feroz. Os artistas não competem mais apenas entre si; eles concorrem pela atenção do público contra influenciadores, YouTube e o tempo excessivo que as pessoas passam nas redes sociais. Esse consumo rápido não cria, necessariamente, uma relação duradoura entre o fã e o músico.

Ainda assim, prefiro ver o momento atual como uma fase de transição. Talvez o mercado precise dar um passo atrás, enfrentar essa fadiga de superproduções, para depois se diversificar novamente. Esse movimento é necessário para todo o ecossistema, inclusive para os grandes festivais, que no futuro precisarão de novos artistas para ocupar seus palcos principais.

Na cena eletrônica percebemos ciclos muito claros. Recentemente vivemos um momento extremamente performático, focado em grandes painéis visuais, mas hoje parte do público já torce o nariz para festas onde as pessoas passam o tempo todo filmando as telas com o celular. Diante disso, e vendo iniciativas como a do Rock in Rio resgatando a essência do “Dancing for a better world”, você acha que o retorno à simplicidade e à pista pode ser a próxima tendência?

Com certeza. O mercado do entretenimento sofre com um massacre diário e excessivo de conteúdo, o que naturalmente gera uma saturação e uma reação do público. Já estamos observando esse movimento. É difícil prever a escala que essa reação tomará, mas vejo as pessoas voltando a valorizar o elemento que é central na música: a autenticidade.

A partir de certo momento, o público percebe quando um artista é genuíno e quando ele está apenas surfando uma onda passageira. Os artistas que permanecem no mercado a longo prazo são aqueles que possuem voz própria e são autênticos. Não tenho dúvidas disso.