De ‘tropa de haters’ a fenômeno: a virada de Jirayauai em Barretos
Em entrevista à Billboard Brasil, Jirayauai fala sobre origem e carreira

JIRAYAUAI (Foto: Divulgação/ONErpm)
Alargador nas orelhas, tatuagens pelo corpo e um som que mistura funk, sertanejo e eletrônico. Foi essa combinação que, no começo, rendeu a Jirayauai algo raro no mundo da música: uma verdadeira torcida contra. “Eu não tinha hater não, eu tinha a tropa dos haters”, lembra o artista, em entrevista à Billboard Brasil, hoje confirmado pelo terceiro ano seguido na Festa de Peão de Barretos, um dos maiores rodeios do país.
A resistência inicial do público sertanejo
Quando o convite para o Barretão chegou pela primeira vez, Jirayauai diz ter ficado maravilhado, com a sensação de sonho realizado. Mas o caminho até ali não foi simples. “É uma cena que tem muito preconceito. Você fala funk e o povo já generaliza, porque tem muita gente que acha que é tudo proibidão, mas o nosso não é assim, o nosso é leve.” Ele lembra a reação de um espectador na primeira apresentação: “Chegou um cara e me viu de chapéu, alargador, tatuagem, e falou assim: ‘Esse trem aí não tem nada a ver com o nosso estilo não’. E quando cheguei lá, toquei com uma batida de sertanejo, o cara falou: ‘Mas esse trem é bom mesmo’.”
Na primeira edição, Jirayauai teve apenas 15 minutos de palco, que acabaram virando quase 40. De lá para cá, o convite se repetiu todos os anos. “Ano passado nós tocamos no principal, no Amanhecer e no Canto. Esse ano a gente está no Amanhecer e no Canto de novo.”
Segundo ele, a rejeição inicial do público sertanejo era de quase 95%. “O funk tem um preconceito, o povo que ouve sertanejo é um povo mais sistemático, mais família. Aí quando fala funk: ‘Não, moça, que que é isso aí?'” A virada veio quando o público entendeu a proposta do show. “Depois que a gente começa a ver que nosso projeto é um projeto leve, que já tem jovem, tem criança, tem família, você vê a família toda reunida, curtindo, dançando… Aí quebra aquele negócio da aparência que você tá pensando que é.”
Da lan house de 15 centavos à produção musical
Antes de qualquer palco, Jirayauai precisou driblar uma origem financeira difícil para conseguir produzir suas primeiras músicas. “Onde eu morava era numa casa emprestada do meu avô. Meu pai tinha que pegar até a energia dele, aquela correria, mal tinha um sofá na sala.” Sem dinheiro para um curso, que na época custava cerca de R$ 1.500, ele recorria à lan house nos dias de folga do avô. “Ele me levava pra lan house. No tempo tinha, era 15, 25 centavos, eu ficava um tempão lá até resolver os pepinos.”
Sem celular, Jirayauai precisava memorizar tudo o que pesquisava. “Eu tinha que decorar, porque não tinha celular. Chegava no show, chegava uma CDJ, e eu pensava: ‘Meu Deus, como que toca um trem desse?” A dificuldade se estendia aos primeiros shows, quando ele viajava horas sem garantia de cachê. “Já dormi em terminal de ônibus. Chegava lá, o cara não tinha cachê nem nada, tinha que voltar a pé, ia de ônibus, dormia na plataforma.”
A pandemia, segundo ele, foi um momento decisivo. “Parou os eventos, parou tudo. Eu falei: ‘Meu Deus do céu, o que que vai acontecer, o que que eu vou fazer? Mas conversando com os amigos, decidi não desistir. Deu super certo.”
O preconceito com a aparência
Para Jirayauai, o alargador e as tatuagens também geram julgamentos precipitados sobre o estilo musical que ele toca. “Já acharam que eu toco rock, que eu sou baterista de banda. Chega um cara de calça jeans, tatuagem, e o povo já pensa: ‘Esse cara faz o quê? Esse cara canta o quê?'” Ele conta que, em uma cidade do interior, o próprio prefeito admitiu não conhecê-lo antes do show. “Ele falou: ‘Me desculpa, mas eu não te conheço, quem me pediu foi essa galera aqui’ – eram os netos dele. ‘Eu quero entender quem é você’.”
Ele faz questão de contar a própria história em sua estética. “Minha avó era índia, a família dela foi escravizada. Eu acho bonito, vou continuar o negócio da história.” Entre os desenhos das tatuagens, ele cita referências afetivas, como personagens de “Dragon Ball Z”, que representam vivências pessoais marcantes.
Depois de anos enfrentando resistência, hoje Jirayauai descreve uma relação de respeito com outros nomes do sertanejo. “Hoje eu tenho boa relação com os cantores. A gente chega, abraça, conversa, pergunta como estão as coisas. Todo mundo doido igual nós.”
Do Monster Bass ao estouro nacional
A virada de chave na carreira de Jirayauai começou ainda antes da fama solo, no projeto Monster Bass, ao lado do DJ Wam Baster, quando o artista deu os primeiros passos como pioneiro do eletrofunk no país. O salto definitivo veio com “Olha O Trem”, hit que já soma mais de 50 milhões de streams e se tornou uma das faixas mais reconhecidas do gênero.
Hoje, o goiano reúne quase 2 milhões de seguidores no Instagram e cerca de 2 milhões de ouvintes mensais no Spotify… Uma trajetória e tanto para quem começou pesquisando música em uma lan house com 15 centavos.
Ouça ‘Cowboy Maluco’, de Jirayauai
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