Alok relembra passado em Londres: ‘Limpava chão enquanto DJs tocavam’
DJ retornou a Brixton com a turnê 'Rave the World' e recordou as dificuldades

Alok em show no Réveillon em Copacabana (Roberto Filho/Brazil News)
O retorno de Alok a Londres, em junho, colocou o DJ diante de duas fases opostas de sua trajetória. Ele desembarcou na cidade para apresentar a estreia mundial da turnê “Rave the World” na O2 Academy Brixton, uma das principais casas de shows da capital britânica. Dezesseis anos antes, porém, circulava pelas mesmas ruas trabalhando como assistente de barman.
Em entrevista à BBC Brasil, Alok recordou o período em que vivia longe do glamour da fama: “Naquele momento, eu limpava o chão enquanto o DJ tocava, recolhia as bitucas de cigarro da rua enquanto as pessoas ficavam na fila.”
O passado de Alok em Londres começou em 2010. Ele e o irmão, Bhaskar, haviam lançado músicas em plataformas voltadas à cena eletrônica e decidiram se mudar para a Inglaterra, atraídos pelas possibilidades do mercado europeu. A tentativa de viver da música, no entanto, não avançou como esperavam.
Sem conseguir se sustentar como DJ, Alok passou a trabalhar como auxiliar dos bartenders organizando o bar. A experiência durou quase dois anos, até que ele desistiu do plano e retornou.
“Muitos brasileiros vêm para cá com um sonho, acabam ralando muito, mas eu não dei conta e voltei para o Brasil.”
Pais de Alok incentivaram mudança musical
O trabalho fora da música repetia, em parte, a história dos pais do artista. Antes de se tornarem nomes importantes do psytrance brasileiro, Ekanta e Swarup também exerceram outras atividades para pagar as contas. Foi durante um período trabalhando como faxineira em uma casa noturna de Orlando, nos Estados Unidos, que Ekanta teve contato com a música eletrônica.
Alok cresceu acompanhando os pais em festas e comunidades alternativas. Durante a infância, morou em cidades como Orlando e Amsterdã, além de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Ele passou a viver de maneira mais convencional apenas na adolescência, quando a família se estabeleceu em Brasília.
Depois do retorno de Londres, Alok chegou a considerar a retomada do curso de Relações Internacionais. O pai, no entanto, recomendou que ele abandonasse a faculdade e insistisse na carreira artística.
A mudança decisiva veio quando o DJ se afastou do psytrance produzido pelos pais e passou a investir em vertentes mais melódicas da house music. O novo caminho abriu espaço para remixes de artistas como Snoop Dogg e Barão Vermelho e ampliou seu público para além do circuito underground.
“Tentei dar mais uma chance, larguei o psytrance, que vinha deles, e foi a melhor coisa que fiz.”
‘Hear Me Now’ mudou a carreira de Alok
O salto comercial aconteceu em 2016, com o lançamento de “Hear Me Now”, parceria com Bruno Martini e Zeeba. A faixa se aproximou da marca de 1 bilhão de reproduções no Spotify e foi apontada pela própria plataforma como a música de artistas brasileiros mais ouvida no exterior durante sua primeira década de operação no país.
O sucesso levou Alok às rádios, aos grandes festivais e às principais listas internacionais de música eletrônica. A projeção, contudo, foi acompanhada por um período de depressão.
O DJ contou à BBC Brasil que decidiu procurar a aldeia do povo Yawanawá, no Acre, depois de assistir a um vídeo de indígenas cantando. A viagem transformou sua relação com a música. “Eu fazia música profissional, ocupava o top dez das paradas, e eles faziam música para curar.”
A aproximação deu origem ao álbum “O Futuro É Ancestral”, criado com artistas e lideranças de diferentes povos indígenas. O projeto também envolveu o registro de mais de uma centena de cantos, como forma de colaborar com a preservação de tradições transmitidas principalmente pela oralidade.
A experiência levou o DJ a ampliar sua atuação em temas ambientais e na defesa dos direitos indígenas. Alok também participou de mobilizações contra o marco temporal e passou a apoiar iniciativas destinadas a dar visibilidade às próprias lideranças, em vez de falar em nome delas.
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