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O pop ácido de Isa Buzzi e a revolução do coração partido

Isa Buzzi (Gabriel René/Divulgação)

Isa Buzzi (Gabriel René/Divulgação)

Eu estava tranquila em casa criando uma criança obcecada por uma batata que já havia sido princesa e que agora queria dominar o mundo com a ajuda de youtubers raptados. Nossa rotina era pura fantasia cercada pela ansiedade de novos posts e de músicas que viravam a febre da semana. De uma hora pra outra, porém, minha filha apareceu com uma melhor amiga. Uma moça que trazia todo santo dia para a roda conversas sobre relacionamentos, amizades, começos e finais, sentimentos reais, bons e ruins, a vida crua, sem filtro. Tudo sob uma base pop grudenta e muito bem produzida. A trilha sonora da ida diária para a escola mudou radicalmente. Em poucos dias, eu já conhecia de cor letras inteiras que cantava a plenos pulmões. E era amiga íntima da amiga da minha filha. O nome dela: Isa Buzzi.  

Isa Buzzi é uma cantora e compositora de 23 anos. Mas não só. É uma jovem que é a cara do seu tempo. É criadora de conteúdo nata, que começou de forma totalmente independente no interior de SC e hoje é seguida por quase 2,5 milhões nas redes sociais. Sendo mais de 1 milhão no Youtube, 778 mil no TikTok e 684 mil no Instagram. Depois de conquistar uma legião de fãs com dezenas de singles que foram formando sua identidade artística, Isa acaba de lançar seu primeiro álbum, “Clube dos Corações Partidos”, que ela classifica como um álbum “sem medo”: “Sem medo de falar o que eu sinto, sem medo de falar o que eu penso, sem medo de explorar estilos musicais diferentes”.

Concebido para ser ouvido, lido e assistido, o disco leva o selo de “interativo”, o que não dá conta do que esse projeto realmente significa. A websérie vertical, que leva o mesmo nome, já está no ar desde novembro de 2025 no YouTube e quem a acompanhava teve que seguir os capítulos à risca para não tomar um spoiler com o lançamento do álbum. O livro, que vai aprofundar a história dessa relação que começa, se desenvolve e acaba, deve sair no 2º semestre. 

Eu aproveitei a ocasião para pedir uma entrevista e, com a desculpa de divulgar o álbum recém-lançado, me aproximar, conversar e conhecer melhor a primeira artista adulta da discoteca da minha filha que não foi apresentada por mim.

Isa se descobriu musicista em Schroeder, uma cidade catarinense de 20 mil habitantes, “onde ser artista não era uma opção”, como ela mesma diz. “Eu nasci no interior do interior do interior, morava do lado de galinha, vaquinha. Para estudar eu ia para outra cidade, para ir ao hospital era outra cidade. A gente não via ser artista como possibilidade.”

A música, no entanto, insistia. “Toda quinta-feira meus pais me colocavam no carro e dirigiam duas horas para eu fazer aula de canto e piano. Eu amava desde criança.” Mas, para a geração conectada, o distante não é tão distante assim e, aos 15 anos, Isa começou a postar covers no YouTube de artistas como Ariana Grande, Camila Cabello e Jão, o seu grande ídolo. Aos 17 anos, ela decidiu que queria fazer música profissionalmente — sem ter ideia de como isso funcionava. “Meus primeiros clipes eu gravei na sala da minha casa, com o celular da minha mãe. Eu montava cenário, costurava roupa com ela. Era o que dava pra fazer.”

Nessa época, Isa lançou de maneira independente seu primeiro EP, que levava seu nome (“Isa Buzzi” – 2019) e trazia 3 faixas: “Garoto Prepotência”, “Vamos Só Viver” “Toda Vez”. O pop com influências soul ainda era tímido, mas já se via ali a capacidade que a compositora tem de se mostrar sensível e empoderada ao mesmo tempo. “Minhas músicas falam de sentimentos que a gente tem medo de admitir. Todas vêm de histórias minhas ou de pessoas próximas. Às vezes eu vivia uma situação e queria muito ouvir uma música sobre aquilo — e não existia. Então eu escrevia”, conta.

Em 2022, aos 20 anos, tomou uma decisão radical: mudar-se sozinha para São Paulo. “A gente tem aquela cabeça de: vou para São Paulo e minha vida vai mudar. E não mudou. Foi muito mais difícil. As portas estavam fechadas.” Foi nesse período que ela começou a cantar e tocar seu ukulelê na rua, no metrô e aos domingos na Paulista. “Os meninos que hoje tocam na minha banda tocavam comigo na Paulista. Meu empresário também estava lá. A gente começou assim, muito independente, muito raiz.”

Pergunto quando ela percebeu que tinha virado a chave. Ela não titubeia: “Em 2023, quando lancei ‘Direitos Autorais’, comecei a ver várias meninas usando sombra azul no TikTok, igual no clipe. Mas a primeira vez que bateu de verdade foi no meu primeiro show em São Paulo, em 2024. Eu cheguei e vi um monte de gente de All Star, sombra azul, faixinha… eu chorei igual criança. Minha mãe estava comigo e chorou também.”

“Direitos Autorais”, faixa que fala sobre o ex que arrumou uma nova namorada que é cópia da anterior, foi um estouro. Com 3,1 milhões de streams, 5 milhões de views no clipe oficial do YouTube e 40 milhões de plays na plataforma, a faixa rendeu o Prêmio Multishow categoria Brasil para a cantora. Neste mesmo ano, Isa assinou com uma gravadora, a Deck Discos.

O sucesso foi o primeiro de uma série que fez Isa mudar de patamar. Na sequência vieram “Vilã” (2023), letra que mostrava a reação da vítima de uma mentira, com 3,3 milhões de streams e 4,6 milhões de views no clipe oficial no YT, e “Obcecada” (2024), sobre uma amizade tóxica, com 2,3 milhões de streams e 5,8 milhões de views no clipe oficial no YT. Essa faixa chegou ao Top 5 nacional das canções mais ouvidas no YouTube Shorts por mais de 3 meses acumulando mais de 130 milhões de execuções na plataforma.

Aliás, é aqui que mora um fenômeno muito interessante: a divulgação orgânica dentro do YouTube. Minha filha conheceu Isa Buzzi ao ouvir “Direitos Autorais” na trilha sonora de um “edit” da Turma da Batatinha. Um “edit” é um vídeo curto feito por fãs, que mistura cenas, fotos estáticas e música para criar uma nova narrativa do objeto homenageado. O fã usou a música da Isa e a creditou. Minha filha gostou da música, viu o nome da Isa no crédito, foi ao canal dela para conhecê-la melhor e por lá ficou.  

O público que a abraçou é majoritariamente adolescente — algo que ela não planejou, mas aprendeu a entender. “Eu nunca mirei no público jovem. A música chegou neles. E eu ganhei isso. Não existe público mais especial. Eles sentem tudo na flor da pele. Eles te contam a história deles, o porquê gostam da música. É um amor diferente.”

Com o tempo, veio também a consciência da responsabilidade. “Eu cuido muito da forma como falo as coisas, mas não deixo de ser sincera. Eles vão viver sentimentos ruins, confusões, inveja, amores que não dão certo. E onde eles vão buscar respostas? No que consomem. Às vezes, recebo mensagem tipo: ‘Eu não percebia que minha amizade era tóxica até ouvir ‘Obcecada’. É muito louco como eles se descobrem a partir das músicas.”

O álbum, aliás, é o resultado de anos de experimentação. “Se você ouvir minhas músicas de 2019… não ouça”, ela ri. “Não tinha nada a ver comigo. Fui amadurecendo junto com meu público. Os singles foram importantes para eu descobrir minha sonoridade. Dentro desse catálogo de single, você vai encontrar um pop leve, aí depois ele vai para um pop mais brasileiro. E aí, lá em 2023, vai começar a encontrar o pop rock e a letra um pouco mais ácida. Então foi rolando uma construção, e eu acho que agora com o ‘Clube dos Corações Partidos’ veio eu de verdade assim sem filtro, sabe? Sem medo. Inclusive, ele é um álbum super indie. É muito louco, porque eu me considero uma artista pop, mas ele é um álbum super indie rock.”

Quando o álbum foi lançado, dia 20 de março, três singles já estavam na pista e tinham conquistado o público. “Coração Blindado” (3,8 milhões de views no clipe oficial no YT), “Contrato” (1 milhão de views), “Amor Fatal” (1,2 milhão de views). A faixa “Nanana” ganhou uma trend divertida de transição que levou buzzers correrem para a interagir com a música nas redes sociais. Isa estimula reagindo às postagens.

A música que fecha o álbum, a própria ‘Clube dos Corações Partidos’, aliás, Isa cita como a mais difícil a ser composta, porque fala de esperança. “Eu não sou a pessoa mais paz e amor do mundo. A música ia para lugares que não eram minha cara. Quando chegamos na versão final, eu chorava muito.”

A ideia de transformar o álbum em uma experiência multimídia nasceu ainda em 2022. “Eu cresci no teatro. Minha mãe fazia peças e me levava junto. Sempre gostei de atuar, sempre gostei de escrever. A gente queria que o álbum fosse uma história que as pessoas pudessem sentir e ver. Mas não tínhamos estrutura. Levou quatro anos para conseguir apoio e sair de um jeito legal.”

Hoje, Isa se envolve em absolutamente tudo. “Como comecei independente, eu fazia tudo: costurava roupa, pensava maquiagem, organizava locação, escrevia roteiro. Quando chegaram pessoas para somar, foi ótimo, mas tudo ainda precisa ter um pouco de mim. Não é tortura. Eu amo.”

A nova turnê segue essa lógica maximalista. “Vai ser rock and roll na veia. Uma pegada anos 80, bem planejada, com atos, história. É imersiva, conectada com a série e o livro. É como se tudo que eles viram desde 2025 se materializasse em 3D na frente deles.”

E os sonhos? Ela ri antes de responder. “Muitos. Fazer turnês maiores. Um show em estádio. Feats com artistas que eu amo — o Jão, principalmente. Levar meu trabalho para fora. Eu já fiz show em Portugal, mas queria muito fazer nos Estados Unidos. No fim, tudo se resume a potencializar o que já vivo e levar essa mensagem para mais gente.”

No fim das contas, eu pude dar um abraço, olhar nos olhos e confirmar que aquela moça que invade a nossa casa todos os dias é exatamente o que parece ser: autêntica, intensa, muito inteligente, sensível e forte. Suas letras, que minha filha canta sem pudor, abriram conversas que talvez eu, sozinha, levasse anos para conseguir puxar. Sobre amor, sobre gente, sobre medo, sobre limites, sobre o que dói e o que cura. Isa não só virou trilha sonora da nossa rotina, virou ponte. Uma ponte muito gostosa de cantar, aliás.   

Veja a agenda de shows “Clube dos Corações Partidos, a turnê”, aqui.