Sold out, quarta edição do C6 Fest comprova o valor de uma boa curadoria
Festival atraiu 30 mil pessoas ao longo de quatro dias com ingressos esgotados

Com um show de encerramento espetacular de Robert Plant, o C6 Fest se despediu de São Paulo no domingo (24) depois de quatro dias de programação em que a música ocupou o lugar mais importante, muito antes de ativações, brindes e experiências. Com público total de 30 mil pessoas, o festival se firmou como uma curadoria madura e com poucas distrações fora dos palcos.
Quando surgiu, em 2023, o C6 Fest já dava sinais de que poderia suprir a lacuna deixada pelo festival que formou a base de seu DNA, o Free Jazz Festival (que depois viraria Tim Festival). Criado pela mesma produtora do Free Jazz, a Dueto Produções, com alguns dos mesmos curadores, como Hermano Vianna e Ronaldo Lemos, o C6 Fest foi pensado para entregar um mix de novidades e lendas da música, tudo regido sob o manto da sofisticação.

Já integrado ao calendário anual de festivais brasileiros, o C6 Fest amadureceu sua curadoria mirando na força de um conjunto de nomes fortes em seus nichos, sem a necessidade de headliners gigantescos – exceto por Robert Plant e o trio The XX, artistas que certamente puxaram as vendas de ingressos.
Pela primeira vez em sua curta existência, o festival teve ingressos esgotados e conseguiu manter seus dois maiores palcos – a Tenda Metlife e a Arena Heineken – lotados desde cedo. Quinta (22) e sexta (23), os dias focados em jazz, também foram concorridos, com atrações de altíssimo nível, como o Branford Marsalis Quartet, a Hermeto Pascoal Big Band (com seus 21 integrantes) e a banda americana Knower, que fez uma mistura deliciosa de pop, free jazz, funk e música eletrônica.

Sábado (23) e domingo (24), os dias mais voltados para música eletrônica, indie rock e pop, foram recheados de atrações fora do óbvio: dos brasileiros Nação Zumbi, Mano Brown, BaianaSystem e Samuel de Saboia a atrações com timing acertado, como o americano Cameron Winter (vocalista de uma das bandas mais comentadas de 2025, a Geese), o inglês Benjamin Clementine, a ganesa-americana Amaarae, a francesa Oklou e o duo eletrônico Magdalena Bay.

O que saltou aos ouvidos do público foi a consistência de um line-up que talvez fosse desconhecido para muitos, mas que já havia conquistado a confiança da público, que embarcou na escalação.

Também vimos nomes consagrados no domingo, como Beirut, que fez um show belíssimo, com direito a uma versão de “Leãozinho”, de Caetano Veloso, e a sueca Lykke Li, que não deixou faltar o hino “Follow Rivers” e ainda acrescentou uma cover de “Sozinho” (Peninha) num bom português. No sábado, o line-up da Tenda Metlife fez com que boa parte do público, mais ávido por novidades, não arredasse o pé dali, com uma sequência de música refinada: começando com a banda americana Horsegirl, o inglês Baxter Dury (com seu indie dançante), o furacão Wolf Alice e a melancolia lírica de Matt Berninger, vocalista do The National.

Gigantes: The XX e Robert Plant
O palco Heineken concentrou dois grandes shows de encerramento. No sábado, o trio britânico The XX superlotou a parte externa do Auditório Ibirapuera, com sua melancolia indie temperada por beats dançantes. Os fãs, com o repertório afiado, cantaram junto, em faixas como “Angels”, “Say Something Loving”, e “Loud Places”, de Jamie XX – quase mais alto do que o sistema de som do palco, que em vários momentos deixou a desejar em volume e equalização, ponto a ser revisto para 2027.

Outro momento que entrou para a história do festival, e de muitos fãs de música, foi o show de Robert Plant com seu projeto Saving Grace. Ao lado da cantora Suzi Dian, que também tocou acordeon e baixo, Plant fez um dos melhores shows vistos por aqui nos últimos anos. Quem conhece o gosto do eterno vocalista do Led Zeppelin por música étnica e por rock’n’roll cru e potente já estava preparado para uma sequência poderosa, mas a entrega foi além. Ele trouxe releituras de clássicos do Led, como “Ramble On”, “Rock’n’Roll” e “Black Dog”, devidamente repaginadas em versões folk, cantou covers de Neil Young e Moby Grape e, humildemente, se apresentou: “Me chamo Robert e sou da Inglaterra”. Destaque para sua parceira de palco: Suzi Dian lembrava uma Stevie Nicks, sem se acovardar diante dos duelos vocais, totalmente entrosada com Plant.

Para quem manteve uma reserva de energia, o Pacubra serviu no sábado e no domingo como uma válvula de escape para gastar a onda antes de voltar para casa, com programação cuidadosa de DJs que incluiu Jude Paulla, Aline Rocha e Nyack b2b com Pathy de Jesus.

Chegando aos detalhes da produção que funcionaram: ponto positivo para o piso plástico colocado em quase toda a extensão dos palcos externos no sábado, o que salvou o festival de se tornar um campo de lama depois da chuva forte, que só deu trégua mais para o fim da noite. Pontos a serem repensados: o som baixo (especialmente no palco Heineken) e um reforço no número de caixas volantes. Pontos para não mexer: a cenografia discreta e padronizada dos restaurantes, bares e das poucas ativações de marcas. Quando o prato principal é a música, todo o resto vira firula desnecessária.
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