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O protagonismo feminino no rap brasileiro

As mulheres no hip-hop chegaram sem pedir licença

Eliane Dias fala sobre rap brasileiro

Eliane Dias (Divulgação)

Desde o surgimento do rap, a mulher marca sua presença com as precursoras Dina Di e Negra Li, no entanto, só muito recentemente as mulheres vêm assumindo o protagonismo na cena musical, confundindo alguns, empoderando outras, de uma forma a ser estudada, porque tem que ter uma certa sacada, uma magia e muita coragem para furar a bolha do machismo, racismo, homofobia e misoginia.

Não tem como falar da ascensão feminina no mundo do rap sem fazer esta observação: os homens transitam com mais tranquilidade, possuem mais intimidade e segurança em todos os espaços, inclusive no hip-hop.

Ter mulheres rimando alterou a forma de fazer música, mudou toda uma estrutura, deu forma, cor e perfume e, claro, é mais rico; as mulheres do rap tiveram que estudar bem mais, seja na academia ou de forma empírica; não dava para só rimar contando suas dores do dia a dia.

Entre tantas coisas boas em ter as mulheres na cena do rap, do trap, uma das coisas mais incríveis que se pode ter é que até um passado recente tínhamos uma ou no máximo duas cantoras negras em cena e hoje as cantoras são presenças esperadas nos line-ups dos festivais e estão no topo dos streams.

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O hip-hop nos festivais traz um estilo rico, com narrativas cheias de estilo, mostrando que é possível alimentar toda uma cadeia produtiva. Artistas como Duquesa, Tasha & Tracie, Tassia Reis, Bia Ferreira, Soffia, Budah, Ebony e AJULLIACOSTA estão longe de serem clichês, não são estereotipadas, são plurais, hip-hop diverso, rico. Elas trazem delicadeza e força para o rap, para o boom bap clássico, o trap, o drill, o R&B, o afrobeats e o funk, vêm com uma fusão rica e fluida.

As mulheres no hip-hop chegaram sem pedir licença: elas que fazem “malote”, são independentes e alimentam toda uma cadeia produtiva, pois trabalham no entorno, empregam mais mulheres, investem bem mais para além do estúdio e do audiovisual; elas são potências com sorriso no rosto. Eu amo.

Seja qual for o preço (talvez solidão, talvez uma extensa carga de trabalho, talvez não tenham tempo para ter filhos) que irão pagar por este avanço social/musical, ainda assim sairá mais em conta que o preço anterior, da indiferença, do silenciamento, da falta de lugar de fala, de engolir o choro.

Na cena atual do hip-hop brasileiro, a moda e a direção criativa não são mero adorno estético ou estratégia comercial passiva — são ferramentas de narrativa política, de identidade e afirmação econômica.

Se no passado o visual do rap era predominantemente ditado por códigos masculinos — não cabia às mulheres, que eram invisíveis, que se mantinham distantes — preferíamos assim, a nova geração de rappers brasileiras transformou a própria imagem em um manifesto visual de autonomia.

Tasha & Tracie — “Diretoria (2021)” – As irmãs gêmeas paulistas uniram o som da quebrada com referências de alta moda e ostentação consciente. Duquesa — “TAURUS” (2023) / “Taurus, Vol. 2” (2024) — se consolidou como uma das maiores forças do trap brasileiro, mostrando um domínio técnico impressionante no vocal e na métrica.

Júlia Costa — “Brutas Amam, Choram e Sentem Raiva” (2023) — versátil e autêntica na cena, traz e explora a complexidade das emoções das mulheres negras.

Vale lembrar que, além das artistas que gerenciam a si mesmas, o fortalecimento do rap feminino no Brasil deve muito às empresárias, empresárias-executivas e estrategistas dos bastidores.

Somos as responsáveis por transformar o talento e a rima das artistas em contratos de grande porte, turnês sustentáveis, presença em festivais e marcas consolidadas, proteção jurídica, orientação financeira, prevenção de gravidez, investimento e todas as pautas que se fazem necessárias. Existem assuntos que são dolorosos, complexos; existem pesos enormes que as mulheres no hip-hop, devido à sua origem, carregam inconscientemente, e cabe às empresárias fazer o máximo para aliviar esta carga.

O tempo passou, passou e ficou insustentável fingir que as mulheres no hip-hop não existiam. Este é um caminho sem volta; não tem como “desver”, “desler”, desistir delas que chegaram para contribuir com o todo, com todas.

Eliane Dias é diretora executiva (Boogie Naipe e Booking Boogie Naipe), advogada, gestora de carreira de artistas (Mano Brown, Racionais, Duquesa…), diretora criativa do troféu Raça Negra, curadora da exposição “Racionais o 5° Elemento”.

Veja a publicação de Eliane Dias sobre o rap feminino