O Brasil sempre foi latino, só faltava assumir

Bad Bunny (Reprodução YouTube)
Enquanto a latinidade chega ao mainstream cultural, o Brasil é confrontado com uma identidade que nunca deixou de ser sua.
Nas últimas duas décadas, os brasileiros foram perguntados sobre a sua percepção de identidade através da pesquisa The Americas and the World (As Américas e o Mundo). Nesses levantamentos, 79% dos entrevistados afirmaram se identificar como brasileiros antes de qualquer outra coisa, seguidos de 10% que se identificaram como “cidadãos do mundo” e, por último, apenas 4% que se enxergaram enquanto “latinos”.

A título de comparação, essa mesma pesquisa foi aplicada em outros países da América Latina, onde o resultado foi bem diferente. Ainda que a identidade nacional prevaleça em todos eles, países como Argentina e Colômbia chegam a quase 60% de entrevistados se identificando como latinos, enquanto o Chile, com o menor percentual, beira os 40%.
Por outro lado, fora do país, em termos de percepção, somos vistos como latinos em maioria. Basta sair da América Latina, principalmente nos Estados Unidos para perceber que estamos enquadrados nessa categorização. É fato que nossos idiomas são muito similares, assim como nossos costumes e referências culturais, estéticas e históricas. E é aqui que se revela uma contradição interessante: o Brasil está dentro da América Latina geográfica e historicamente, mas até recentemente acreditou estar culturalmente à parte dessa identidade coletiva
O que mudou para que essa percepção comece a se transformar?
A autossuficiência que nos isolou
O Brasil é um dos raros mercados musicais do mundo que sempre conseguiu viver de si mesmo. Somos mais de 200 milhões de pessoas que consomem música nacional muito acima da média global, girando em torno de 77% contra 33% no restante do mundo, de acordo com o último levantamento da Luminate de 2025. Nossos vizinhos argentinos, por exemplo, consomem em média 45% de música nacional.
Isso quer dizer que nunca houve a necessidade de que artistas brasileiros exportassem seu trabalho para sustentar sua carreira, algo que quase não se repete em outros países da América Latina. Vamos usar a Colômbia como exemplo, celeiro de estrelas como Shakira, J Balvin, Karol G e Maluma. Em 2023, a indústria fonográfica colombiana movimentou US$ 74 milhões em território nacional. No mesmo ano, artistas colombianos capturaram cerca de US$ 100 milhões em royalties só nos Estados Unidos, superando o valor total de toda a indústria de música gravada colombiana.
País de origem → EUA → Brasil
Contrariando a lógica, a música latina em espanhol percorre um caminho incomum para chegar ao mainstream no Brasil. Antes de chegar aqui, ela precisa estourar nos Estados Unidos, já que historicamente consumimos bastante da cultura que é exportada de lá. Exemplos claros do funcionamento dessa estrutura são grandes artistas que tiveram sucesso por aqui, como Menudo, Ricky Martin, Shakira, RBD, J Balvin e o próprio Bad Bunny, que acaba de cantar para dois estádios lotados no Brasil.
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Até os anos 2010, não havia acesso a um catálogo global de músicas como temos hoje pelas plataformas de streaming, e isso reduzia as possibilidades de descobrir novas sonoridades, culturas e artistas, sobretudo para quem não tinha meios de sair do país. Portanto, a música que era tocada para o grande público estava muito mais concentrada em poucos nomes, destacados pela TV, rádios, imprensa e gravadoras.
Hoje, mais de uma década após o advento das plataformas de streaming e da descentralização da produção de conteúdo – que está na mão de qualquer pessoa que tenha um celular com câmera –, um brasileiro descobre uma faixa de Dembow no TikTok e, segundos depois, está ouvindo a discografia inteira do artista no streaming.
O que mudou de lá pra cá, então, é que a validação não vem mais só de Nova York ou Londres, mas também de São Paulo, Medellín, San Juan, Abuja, Manila, ou qualquer outro lugar do mundo.
Bad Bunny e o ponto de inflexão
Em sua arrebatadora primeira vinda ao Brasil, o porto-riquenho fez algo substancialmente diferente de seus antecessores. No lugar do inglês, prevaleceu o espanhol, sempre. Na cenografia, a representação do seu país de origem. Bad Bunny não traduziu a sua identidade para o Brasil, trouxe Porto Rico como ele é, e o Brasil respondeu em conexão direta, diferente do que acontecia no passado com outros artistas.
Bastaram os primeiros cinco segundos de “La MuDANZA”, faixa de salsa que abriu o show, para que todos começassem a dançar. Durante o espetáculo, brasileiros cantavam seus sucessos em espanhol em alto e bom som.
+Leia mais: Bad Bunny em SP: o encontro do maior astro global com a maior plateia do mundo
Nos corredores do mercado da música, se repete ainda hoje que o espanhol é um obstáculo para a entrada de artistas hispânicos no Brasil. Proponho um paralelo: se apenas 5% dos brasileiros falam inglês, como é que podemos consumir tanta música anglófona nas últimas décadas? Me parece mais apropriado pensar que nunca foi realmente sobre entender cada palavra, mas sobre influência cultural, o que reforça a trajetória País de Origem -> EUA -> Brasil mencionada acima.
Português e Espanhol dividem a mesma raiz linguística, compartilham ritmo e sonoridade. Isso faz com que, na média, seja muito mais intuitivo que um brasileiro aprenda a cantar um reggaeton como “Gasolina”, do Daddy Yankee, do que um rock britânico como “Somebody Told Me”, do The Killers. Traduzindo para termos mais atuais, é mais fácil aprender e cantar Bad Bunny que Sabrina Carpenter, também porque o ouvido brasileiro entende a música latina antes mesmo de entender a letra.
Nós costumeiramente nos colocamos à margem da América Latina porque acreditamos ser autossuficientes e distantes culturalmente – duas ideias cada vez mais difíceis de sustentar. Juntos, somos a região que mais cresce dentro da indústria musical, 22,5% em 2025 comparados a 8,3% na Europa e 2,1% nos Estados Unidos e Canadá.
Esse movimento não está restrito à música. Entramos no Grammy, no Oscars, somos berço das maiores estrelas de todos os tempos do futebol e temos, modéstia à parte, o público mais caloroso e apaixonado do mundo. Encontramos muito mais semelhanças que diferenças.
+Leia mais: Brasil é mercado estratégico para a música latina; entenda por quê

Ser latino agora é mainstream
A latinidade saiu da margem em direção ao centro da atenção de quem antes ditava as nossas tendências e gostos. Um show inteiro em espanhol pela primeira vez no intervalo do Super Bowl. Shakira vem ao Brasil fazer o que promete ser o maior show da sua carreira na praia de Copacabana. Um bloco de reggaeton com 30 mil pessoas no carnaval de São Paulo. Milhares de posts e comentários nas redes fazendo referência ao ser latino e à latinidade. Se estamos no centro, não somos mais um nicho, mas o motor do crescimento.
Quando nos juntamos no carnaval e gritamos “Gasolina” nas ruas ou quando aprendemos as letras do Bad Bunny e cantamos juntos no show, a identidade deixa de ser um conceito e se torna prática. Sentimos na pele as nossas inúmeras semelhanças falarem mais alto e não devemos ter medo de perder a nossa identidade por isso.
Afinal, ser latino não significa perder a brasilidade. Significa reconhecer semelhanças que sempre estiveram ali.
Pedro Kurtz, Diretor de Conteúdo e Operações para as Américas da Deezer
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