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Michael Jackson faria 68 anos hoje: por que o Rei do Pop ainda domina as paradas

Mais de 40 anos depois de 'Billie Jean', catálogo do cantor segue influente

Michael Jackson em cena do clipe "Billie Jean" (Reprodução)

Michael Jackson em cena do clipe "Billie Jean" (Reprodução)

Se estivesse vivo, Michael Jackson completaria 68 anos neste sábado (29). Mesmo dezessete anos depois de sua morte, o cantor continua ocupando um espaço que poucos artistas conseguem preservar depois de décadas: uma grande relevância no presente.

Na parada Billboard Global 200 desta semana, “Billie Jean”, lançada originalmente em 1983, aparece na 11ª posição. No mesmo chart, o artista também aparece com outras cinco faixas: “Beat It”, em 34º lugar; “Chicago”, em 105º; “Don’t Stop ’Til You Get Enough”, em 121º; “Human Nature”, em 175º; e “Smooth Criminal”, em 186º.

É um tipo de longevidade difícil de reproduzir. Não se trata apenas de um álbum clássico voltando às paradas em uma data comemorativa, mas de um repertório inteiro funcionando simultaneamente em diferentes pontos do mercado.

O fenômeno ganhou força em 2026 após a chegada aos cinemas de “Michael”, cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. O filme estreou em abril acompanhado de um álbum com 13 músicas que percorrem diferentes momentos da carreira de Jackson, do Jackson 5 aos trabalhos solo. Entre elas estão “Billie Jean”, “Human Nature”, “Don’t Stop ’Til You Get Enough” e “Thriller”.

Mas seria simplista atribuir o atual interesse exclusivamente ao filme. O que aconteceu em 2026 apenas tornou visível algo que já estava estabelecido: Michael Jackson permanece profundamente incorporado à linguagem da música pop.

+Leia mais: Madonna e Michael Jackson dividem o top 10 da Billboard 200 após 25 anos

Do Jackson 5 ao fenômeno solo

A longevidade de Michael começa antes mesmo de sua transformação no Rei do Pop. Ainda criança, ele já era o centro das atenções no Jackson 5, grupo formado com os irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon.

Canções como “I Want You Back”, “ABC”, “Ben” e “The Love You Save” apresentaram ao público uma criança com domínio vocal e presença de palco incomuns para a idade. “ABC”, lançada em 1970, chegou ao topo da Billboard Hot 100 e se tornou um dos maiores sucessos do grupo.

A passagem para a carreira solo não significou um rompimento imediato com aquela formação. Michael construiu gradualmente uma identidade própria até chegar a “Off the Wall”, de 1979, álbum que antecipou a dimensão que sua carreira alcançaria nos anos seguintes.

O disco combinava disco, funk, soul e pop e já apresentava uma característica que acompanharia o cantor pelo restante da carreira: a capacidade de transformar diferentes referências musicais em uma linguagem acessível a públicos muito amplos.

“Thriller” ainda é um manual do pop

Talvez o melhor exemplo da capacidade de Jackson de transformar música em acontecimento seja “Thriller”. O álbum não se tornou somente um dos trabalhos mais bem-sucedidos da história da música, mas estabeleceu uma espécie de novo modelo para o álbum pop: uma sucessão de singles fortes, videoclipes tratados como eventos, grandes performances e uma identidade visual capaz de ultrapassar os limites do mercado fonográfico.

O legado de “Thriller” não está apenas nos números. O projeto consolidou uma lógica que seria repetida por gerações de artistas: cada lançamento precisava ter uma música forte, uma imagem marcante e uma performance capaz de sobreviver fora do disco.

“Billie Jean” é um dos melhores exemplos dessa fórmula. A linha de baixo repetitiva, a produção precisa, a voz de Jackson e a coreografia apresentada em diferentes performances – com destaque para a clássica apresentação no show “Motown 25” abaixo – fizeram da faixa uma peça reconhecível mesmo para quem não acompanhou sua carreira em tempo real.

O videoclipe também teve importância histórica para a presença de artistas negros na MTV. A entrada de “Billie Jean” na programação da emissora ajudou a ampliar o espaço ocupado por artistas negros em um canal que ainda tinha forte orientação para o rock.

Um catálogo que atravessou diferentes décadas

“Thriller” ampliou essa fórmula em escala mundial, mas não resume a trajetória de Jackson. Depois do álbum, o cantor passou por transformações constantes, tanto musicais quanto visuais.

Em “Bad”, de 1987, Jackson apresentou uma persona mais agressiva e adulta, acompanhada por uma nova sequência de sucessos. A faixa-título, “The Way You Make Me Feel”, “Man in the Mirror”, “Dirty Diana” e “Smooth Criminal” ajudaram a transformar o álbum em outro fenômeno comercial.

O videoclipe de “Bad”, dirigido por Martin Scorsese, também mostrou que Jackson havia incorporado o cinema à construção de seus projetos musicais. Seus vídeos deixaram de ser apenas complementos para os singles e passaram a funcionar como curta-metragens.

Poucos anos depois, “Black or White” apresentou outra transformação. Lançada em 1991 como primeiro single de “Dangerous”, a faixa combinava pop, rock e elementos de hard rock (com participação de Slash dos Guns ‘N’Roses) e se tornou mais um número um da Billboard Hot 100.

O videoclipe, que utilizava efeitos digitais para realizar uma sequência de transformações entre diferentes rostos, também se tornou parte fundamental do impacto da música. Jackson já não dependia apenas de uma canção para provocar repercussão: cada lançamento podia funcionar como um evento multimídia.

Michael Jackson e o Brasil

É impossível falar da permanência de Michael Jackson sem mencionar a relação do artista com o Brasil. O país ocupa um lugar particularmente importante em sua história por causa de “They Don’t Care About Us”.

Lançada em 1996 no álbum “HIStory”, a música ganhou um dos videoclipes mais conhecidos da carreira de Jackson em gravações realizadas no Rio de Janeiro e em Salvador. Dirigido por Spike Lee, o vídeo colocou o artista ao lado do grupo baiano Olodum e transformou cenários brasileiros em parte da identidade visual da faixa.

A escolha do Brasil não foi apenas uma questão estética: “They Don’t Care About Us” é uma das músicas mais diretamente políticas do catálogo de Jackson, com uma letra que aborda racismo, violência e desigualdade.

A versão gravada no Pelourinho em Salvador, e no Morro Dona Marta no Rio de Janeiro, também ajudou a aproximar a obra do cantor de uma realidade social brasileira. Décadas depois, o clipe continua sendo uma das imagens mais reconhecíveis de Jackson no país.

Michael não apenas acompanhou o pop; ele mudou sua linguagem

Parte da explicação para o fenômeno está no fato de que Jackson não construiu sua carreira somente como cantor. Sua contribuição atravessou música, dança, moda, televisão, cinema e performance.

“ABC” já mostrava, ainda nos anos 1970, sua capacidade de transformar uma apresentação musical em espetáculo. Décadas depois, “Bad”, “Black or White” e “They Don’t Care About Us” demonstravam que essa linguagem havia se tornado muito maior do que a música.

O impacto também foi musical. Em “Off the Wall” e “Thriller”, Jackson aproximou soul, disco, funk, R&B e rock dentro de uma mesma linguagem pop. A parceria com Quincy Jones colocou ao seu redor músicos e compositores de diferentes universos, contribuindo para um som simultaneamente sofisticado e acessível.

A influência desses discos atravessou as décadas seguintes. Justin Timberlake, Bruno Mars, Beyoncé, The Weeknd e Lady Gaga estão entre os artistas associados à herança de Jackson em diversos aspectos, que vão da performance ao canto e à construção de uma persona pop. No hip-hop, sua obra também foi incorporada por meio de samples e interpolações, como em trabalhos de Jay-Z e Kendrick Lamar.

No K-pop, a influência se tornou ainda mais visual. Coreografias, figurinos e referências de Jackson continuam aparecendo nas performances de grupos e integrantes do gênero, mostrando que sua linguagem corporal permanece tão reconhecível quanto suas canções.

O que explica a permanência?

Michael Jackson morreu em 2009, mas sua obra não ficou presa somente naquele momento. Ao contrário de artistas cujo repertório depende fortemente de um contexto histórico específico, suas músicas continuam funcionando porque foram construídas sobre elementos que o pop ainda utiliza: batidas dançantes, refrões imediatos, produção detalhada, coreografias memoráveis e imagens facilmente reconhecíveis.

Mais importante, seu catálogo oferece diferentes portas de entrada. Quem chega por “ABC” encontra o prodígio infantil do Jackson 5. Quem chega por “Off the Wall” encontra o artista que ajudou a redefinir a disco music. “Bad” apresenta uma nova persona. “Black or White” aponta para os anos 1990. “They Don’t Care About Us” mostra um Michael mais político e conectado ao Brasil.

É possível ouvir essas músicas hoje sem precisar conhecer a década em que foram lançadas para entender por que funcionam. Essa capacidade de atravessar gerações talvez seja uma das maiores explicações para a permanência do cantor.

Essa também é a diferença entre nostalgia e legado: nostalgia depende da lembrança de uma época; legado sobrevive mesmo quando a geração que criou aquela época deixa de ser a principal consumidora da obra.

Em 2026, Michael Jackson voltou às paradas, aos cinemas e às conversas sobre cultura pop. Mas a permanência do cantor não começou com o filme “Michael” e tampouco deve terminar quando a repercussão da cinebiografia diminuir.

Aos 68 anos, ele continuaria sendo uma figura do presente porque boa parte do pop contemporâneo ainda fala uma linguagem que Jackson ajudou a inventar.

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