Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Demi Lovato aos 34: de Mitchie Torres à artista que ela se tornou

Do Disney Channel ao pop adulto, como a cantora se reinventou

Demi Lovato

Demi Lovato (Chris Polk)

Aos 34 anos, Demi Lovato está de volta ao lugar onde tudo começou. Ou quase. Poucos dias antes de seu aniversário, celebrado nesta quinta-feira (20), a cantora reapareceu como Mitchie Torres em “Camp Rock 3”, dezoito anos depois de interpretar pela primeira vez a adolescente que queria ser cantora no filme do Disney Channel. A diferença é que desta vez, Lovato não precisa mais provar que é uma artista; ela passou boa parte das últimas duas décadas fazendo exatamente isso.

O retorno acontece em um momento curioso de sua trajetória. “Camp Rock 3” estreou em 13 de agosto no Disney Channel e chegou ao Disney+ no dia seguinte, apresentando a franquia para uma nova geração. Lovato não apenas retomou o papel de Mitchie como também participou do projeto como produtora executiva, ao lado dos Jonas Brothers.

É uma espécie de volta ao ponto de partida, mas sem a necessidade de apagar o caminho percorrido após ele. Quando “Camp Rock” estreou, em 2008, Lovato tinha 15 anos. A personagem Mitchie Torres era uma adolescente insegura que escondia sua paixão pela música e precisava encontrar coragem para subir ao palco.

Na vida real, a cantora faria algo parecido, só que em escala muito maior. Ainda em 2008, lançou “Don’t Forget”, seu primeiro álbum de estúdio, construído em torno de uma mistura de pop e rock. O disco estreou em segundo lugar na Billboard 200, deixando claro que a carreira musical não seria apenas uma extensão de sua passagem pelo Disney Channel.

De estrela adolescente a potência vocal

A partir dali, Lovato passou a construir uma discografia que funcionava também como um registro de suas transformações. “Here We Go Again”, lançado em 2009, chegou ao topo da Billboard 200. Dois anos depois, “Unbroken” trouxe uma nova fase, marcada por uma aproximação ainda maior com o pop contemporâneo.

Foi nesse período que surgiu “Skyscraper”, uma das músicas mais importantes de sua carreira. A faixa estabeleceu uma relação particular entre a cantora e seu público, baseada não apenas em sua capacidade vocal, mas também na percepção de que suas canções poderiam funcionar como uma extensão de experiências pessoais.

Em “Demi”, de 2013, Lovato aprofundou sua identidade pop. O álbum estreou em terceiro lugar na Billboard 200, enquanto “Heart Attack” alcançou a décima posição da Billboard Hot 100 e se tornou um dos grandes sucessos de sua carreira.

Dois anos depois, “Confident” ampliou ainda mais essa persona. O álbum chegou ao segundo lugar da Billboard 200 e apresentou uma artista mais interessada em controlar a própria imagem do que em permanecer associada à antiga estrela adolescente.

Então veio “Sorry Not Sorry”. Lançada em 2017, a música transformou confiança em linguagem pop e chegou ao sexto lugar da Billboard Hot 100. Mais do que um hit, a faixa ajudou a consolidar uma Demi Lovato que já não precisava negociar sua identidade com a expectativa criada em torno de sua passagem pela Disney.

Quando a vida virou parte da obra

A história de Lovato também foi acompanhada por uma exposição pública incomum até mesmo para os padrões da música pop. Quanto maior sua fama, mais sua vida pessoal passou a ser incorporada ao discurso em torno de sua carreira.

Esse é um dos aspectos mais complexos de sua trajetória. Para uma geração acostumada a acompanhar artistas pelas redes sociais, Demi cresceu diante das câmeras e, ao mesmo tempo, precisou construir fronteiras entre a pessoa pública e a pessoa que existia longe dela.

Essa tensão atravessou diferentes momentos de sua discografia. Em 2021, “Dancing with the Devil… the Art of Starting Over” chegou ao segundo lugar da Billboard 200 e transformou a ideia de recomeço em parte explícita do projeto artístico.

Mas reduzir Lovato a uma narrativa de superação seria uma maneira pequena de contar uma carreira muito maior. Existe uma diferença entre reconhecer que acontecimentos pessoais atravessaram sua música e fazer deles a única lente para compreender seu trabalho.

O direito de mudar de ideia

“Holy Fvck”, lançado em 2022, levou Lovato novamente em direção ao rock. A escolha poderia parecer uma tentativa de recuperar a sonoridade de seus primeiros anos, mas o movimento fazia mais sentido dentro de uma carreira marcada pela recusa em permanecer em um único lugar.

No ano seguinte, o álbum de remixes e versões alternativas “Revamped” reorganizou parte de seu repertório em versões mais próximas do rock. A artista não estava simplesmente repetindo o passado; ela estava reinterpretando músicas que já faziam parte de sua história.

Esse talvez seja um dos elementos mais interessantes da carreira de Lovato: ela nunca pareceu especialmente interessada em encontrar uma identidade definitiva. Seu percurso é feito de correções de rota, mudanças de sonoridade e diferentes versões de si mesma.

Uma relação que atravessa gerações

No Brasil, essa conexão ganhou dimensões ainda maiores. Em 2022, Lovato foi uma das atrações do Palco Mundo do Rock in Rio. A cantora entregou um show cativante com uma banda totalmente feminina, focado na era rock/pop-punk/emo do álbum “Holy Fvck”, além de versões mais pesadas de seus sucessos antigos. A apresentação foi considerada pela crítica um dos melhores e mais enérgicos shows daquela primeira semana de festival.

Na mesma passagem pelo país, também realizou uma apresentação solo em São Paulo. A recepção ajudou a mostrar que, para além da geração que cresceu com “Camp Rock”, existe um público que acompanhou suas diferentes fases e continuou com ela à medida que sua música mudou.

A relação com o Brasil também ajuda a entender por que sua trajetória não pode ser resumida à nostalgia da Disney. Para muitos fãs, a artista que chegou ao país para cantar seus maiores sucessos já era muito diferente daquela adolescente apresentada ao público em 2008.

Uma nova Demi para uma nova fase

Em 2025, Lovato lançou “It’s Not That Deep”, seu nono álbum de estúdio. O trabalho estreou em nono lugar na Billboard 200 e representou mais uma mudança de direção, afastando-se da sonoridade rock que havia dominado sua fase anterior.

Depois de quase duas décadas de carreira, Lovato já acumulou repertório suficiente para entender que não precisa escolher entre as diferentes artistas que foi ao longo do caminho.

Em 2026, ela levou essa fase para a estrada com a “It’s Not That Deep Tour”. A turnê também ajuda a explicar o momento atual: menos interessada em provar que consegue ocupar determinado espaço e mais confortável em escolher qual espaço quer ocupar – inclusive retornar. A cantora volta para mais uma participação no Rock in Rio este ano e também para shows extras em São Paulo.

De volta a “Camp Rock”, sem voltar no tempo

O mais interessante em ver Demi Lovato novamente como Mitchie Torres é justamente perceber tudo o que aconteceu desde então. Em 2008, Mitchie queria encontrar sua voz. Aos 34, Demi já passou tempo suficiente construindo a própria para saber que não existe apenas uma maneira de usá-la.

“Camp Rock 3” funciona agora como uma espécie de espelho. Para quem cresceu acompanhando Lovato, a presença da cantora no filme recupera uma imagem quase congelada no tempo. Para a própria artista, a personagem já não representa um ponto de chegada.

Mitchie foi uma porta de entrada; depois dela vieram nove álbuns, dezenas de hits, diferentes fases musicais, filmes, documentários, turnês e uma carreira construída muito além do universo que a apresentou ao público.

A garota que subiu ao palco de “Camp Rock” para provar que tinha uma voz passou quase vinte anos descobrindo o que fazer com ela. Hoje, no aniversário de 34 anos, a questão já não é encontrar essa voz. É escolher, entre todas as que ela já experimentou, qual delas quer usar a seguir.

+Leia mais: Demi Lovato retorna como Mitchie Torres em ‘Camp Rock 3’

Demi Lovato
Demi Lovato nos bastidores de Camp Rock 3 (Reprodução/Instagram)

Ouça Demi Lovato