Majur: a fé que a tirou do fundo do poço, segundo a própria cantora
Em entrevista, cantora fala sobre depressão, fé e a trilogia 'Gira Mundo'

A cantora Majur (Ladeira/Lucas Marinho/Divulgação)
Majur nasceu no bairro Uruguai, periferia de Salvador, e começou a cantar aos 5 anos no coral da Orquestra Sinfônica da Juventude da cidade. Mulher trans, negra e baiana, ela ganhou visibilidade nacional em 2018, ao subir ao palco com Liniker e os Caramelows, e consolidou seu nome em 2019 com a participação em “AmarElo”, ao lado de Emicida e Pabllo Vittar, faixa indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa.
De lá para cá, lançou os álbuns “Ojunifé” (2021) e “Arrisca” (2023), assinou contrato com a Universal Music e se tornou, em 2021, a primeira mulher trans a estampar a capa da Vogue Noivas no mundo. Em maio de 2025, fechou uma trilogia de seis anos com “Gira Mundo”, disco de 16 faixas em iorubá dedicado aos orixás do candomblé.
Foi sobre esse percurso, e sobre o que ele custou, que Majur conversou com a Billboard Brasil.
O nascimento de uma Ialorixá
Majur conta que a virada começou muito antes de qualquer disco existir. “Desde o dia em que eu iniciei o primeiro álbum, eu já estava me preparando, porque quando eu entrei no candomblé, eu já sabia que futuramente eu seria Ialorixá”, diz. Título dado às mães de santo, Ialorixá é o que ela hoje reconhece como seu destino dentro da religião, embora, segundo ela, ainda fosse “muito nova” para entender isso quando gravou “Ojunifé”.
O próprio nome do disco de estreia, que em iorubá significa “olhos do amor”, nasceu desse momento embrionário. “Naquele momento, era sobre o nascimento da Majur ali, de fato. Eu nasci ali dentro”, afirma. A capa já trazia elementos de ancestralidade, mas as letras falavam de amor próprio e do outro. A primeira faixa, “Agô”, pedia licença aos ancestrais; a segunda, “Ogunté”, era uma canção dedicada a Iemanjá.
Foi também nessa fase que ela passou a perceber o peso simbólico que os fãs colocavam nela. “Os meus fãs sempre identificavam, então é ‘mamãe’, é ‘minha deusa’, e eu ficava um pouco chocada, porque eu sou humana”, conta. “Mas, ao longo do tempo, eu entendi o significado disso na visão do outro: você está sendo algo que eu não consigo ser, ou alcançando um pensamento que eu ainda não consigo alcançar.”
‘Arrisca’ e o fundo do poço
Se “Ojunifé” era sobre nascer, “Arrisca” (2023) veio para falar da vida secular, da Majur mulher, fora do terreiro. “Falei: vou fazer um álbum sobre arriscar, sobre colocar o nosso corpo, a nossa alma e os nossos sonhos para fora”, relembra. Mas o disco também marcou um período de decepções profundas, com empresários e produções que, nas palavras dela, “fizeram miséria”. No meio disso, veio o fim de um relacionamento, e Majur diz ter chegado a um lugar que descreve como “o fundo do poço”.
“Não queria falar sobre isso, porque eu não sou uma pessoa que gosta de colocar as minhas vulnerabilidades para fora. Estar aqui agora contando isso demandou uma maturidade que eu tive que esperar”, diz. Foi nesse período, segundo ela, que percebeu que vivia um quadro de depressão. “A mente vai levando você para uns buracos e, quando você vê, não sabe mais onde está. Você só descobre a depressão quando já está vivendo a depressão.”
Ela relata que nem a família nem os amigos foram suficientes para segurar a dor que sentia naquele momento, e que a virada veio de um lugar mais espiritual:
“Eu escutei sozinha alguém falar comigo. Essa energia veio e falou: eu não trouxe você até aqui para você achar que deve se encerrar nesse exato momento. Isso não existe. A sua vida demanda tantas pessoas esperando por você.” Foi nessa mesma lembrança que ela diz ter revisitado a própria infância, quando ajudava a mãe a vender materiais recicláveis para sobreviver. “Já passei fome, já fiquei o dia inteiro com um único prato de comida. Não fazia sentido achar que um término, uma decepção, iria me levar ao fim de fato.”
Foi o gatilho para um recolhimento real: Majur saiu das redes, foi para sua casa de axé em Salvador e reencontrou amigos. “Eu chorava a cada cinco segundos, entrava em transe de choro do nada. Quem sofre de depressão sabe do que eu estou falando. É assustador, e você não sai de lá sozinha”, diz.
O adeus às palavras e o nascimento de ‘Gira Mundo’
Foi nesse processo de reconexão que Majur decidiu gravar um álbum que não seria escrito por ela, ao menos não em português. “Eu não escreveria esse álbum com as minhas palavras. Eu queria trazer a essência do orixá, algo que só está lá dentro. Pedi permissão, e foi concedida”, conta. Nascia “Gira Mundo”: 16 faixas, cada uma dedicada a um orixá, quase todas cantadas em iorubá, com apenas duas mensagens em português.
A cantora reconhece que o formato assustou parte da equipe e do público antes do lançamento. “Muita gente me perguntou: você teve medo, por ser um álbum que não fala português dentro do Brasil? Mas não era sobre as pessoas. Era sobre mim, sobre o que eu estava sentindo. E, se essas músicas pudessem salvar a vida de outras pessoas também, então, axé”, diz.
Um ano após o lançamento, ela afirma que o disco já reúne cerca de 5 milhões de ouvintes recorrentes, entre eles a cantora Gaby Amarantos, amiga de Majur, que segundo ela relatou não conseguir mais acordar sem ouvir as faixas dedicadas a Oxum e a Oxalá.
“Para mim, que era uma coisa tão particular, de repente virou algo gigantesco. Mas eu não fiz esse álbum para vender candomblé. Eu não comercializei o axé, e acho que isso não deve ser feito”, pontua.
Fim da trilogia, início de outra coisa
Com “Gira Mundo”, Majur considera fechado um ciclo de seis anos dividido em corpo (“Ojunifé”), alma (“Arrisca”) e espírito (“Gira Mundo”). “Agora eu posso fazer absolutamente o que eu quiser. Estou seguindo o meu coração”, diz.
Ela recorre a um verso da cantora britânica Jessie J, de quem é fã desde a adolescência, sobre a importância de permanecer fiel a si mesma, e resume: “Por mais que as adversidades da vida aconteçam, vai ter alguma coisa que vai te lembrar de onde você começou.”
A julgar pelo que ela adianta sobre o próximo álbum (mais confessional, com incursões por funk, forró e amapiano, e uma parceria com a angolana Titica), essa lembrança não veio para ficar parada.
Confira a entrevista de Majur para a Billboard Brasil
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