
Over 30: conheça trajetórias de pessoas trans que mudam estruturas
Chegamos à terceira edição da Over 30. A Billboard Brasil, pelo terceiro ano consecutivo, celebra personalidades trans com mais de 30 anos que se destacam em diversas áreas, porque chegar aos 30 anos é motivo a ser comemorado nesse nosso país que carrega o infame recorde de ser aquele que mais mata pessoas trans no mundo. De novo, o Brasil mantêm o posto, com maioria das vitimas negras ou pardas e transfemininas, segundo o relatório de novembro de 2025 da Trans Murder Monitoring, que traz ainda um aumento significativo no assassinato de ativista ou líderes (de 6%, em 2023, para 14%, em 2025), mostrando que agora mata-se mais quem denuncia ou luta contra a barbárie.
Com curadoria de Neon Cunha, mulher negra, ameríndia e transgênero, referência na luta pelos direitos humanos, a Over 30 destaca ativistas, artistas e profissionais de diferentes setores, que ocupam o mundo e escancaram que pessoas trans não são exceção, são regra, existem enquanto cidadãos e serão respeitados e visibilizados.
Na primeira edição foram 30. Na segunda, somamos 60. Na terceira, 90. E, para além da lista e da belíssima capa de Liniker, temos artistas trans ocupando o miolo da revista. Além da equipe de reportagem. E, mundo afora, artistas trans em todas as cenas, coletivos, produtoras, selos, festas, rodas de slam e casas noturnas. Ainda em universidades, terreiros e igrejas inclusivas.
Que essa edição seja motivo de orgulho. Orgulho de trajetórias que mudam estruturas. Em um ano eleitoral, isso significa lembrar que políticas públicas definem quem tem acesso à segurança, trabalho, saúde e futuro. O Brasil precisa garantir que pessoas trans existam para ocupar todos os espaços que quiserem. Como quiserem.
Amiel Vieira

Conhecido como Dr. Intersexo, se identifica como transmasculine, intersexo e é uma voz central nos debates sobre corpo, saúde e direitos humanos. Com 43 anos, atua há 8 anos no Rio, articulando ativismo e produção crítica de conhecimento. Sua trajetória questiona normas médicas e sociais que historicamente invisibilizam pessoas intersexo e trans. Amiel defende autonomia corporal, acesso à saúde integral e reconhecimento político dessas vivências, já que a todo tempo o poder médico busca apagar a luta de pessoas trans, principalmente intersexo, ampliando o debate público sobre diversidade corporal e cidadania a partir de uma perspectiva ética, informada e transformadora. “Visibilidade trans é o nosso chamado à sociedade para que ela compreenda que, uma vez fora do armário, não voltaremos jamais. A transgeneridade abriga também corpos intersexo cuja autonomia o poder médico quer sempre tirar. Nosso corpo é a nossa bandeira viva. Nossa transição é mostrar a todes quem realmente somos.” (Ma Leri)
Ave Terrena

Aos 34 anos, é uma das principais referências do teatro brasileiro. Paulistana, é dramaturga, diretora, poeta, atriz e curadora, além de professora da Escola Livre de Teatro. “Não é fácil ser uma artista de teatro que se desdobra em múltiplas funções por vocação e necessidade. Ainda mais sendo travesti. Os obstáculos que o preconceito impõe são muitos e brotam de onde a gente menos espera.” Tem 13 textos encenados no Brasil, Portugal e México, 5 dramaturgias, um livro de poesias e é integrante da Pioneer House of Hands Up-SP. Seu trabalho mais recente é a peça “Mural da Memória”, com o grupo LABTD. Como atriz, esteve recentemente em “Antígona Travesti”, de Renata Carvalho, e “Para Onde Voam as Feiticeiras”, de Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral. Integra a comunidade ballroom e vogue music é o que mais toca nos seus fones. Ela indica os seguintes DJs: Maia Caos, Úrsula Zion, EveHive, King de Xangô e Kaim. (Caê Vasconcelos)
Ayô Tupinambá

Essa artista multifacetada e cantora tem 33 anos, é travesti afroindígena, nascida no Jardim Ibirapuera, periferia de São Paulo, e criada na Vila Menck, em Osasco. “Se me perguntassem anos atrás se eu me tornaria referência de algo positivo, eu jamais acreditaria”, confessa. Para ela, estar na Over 30, é ser uma referência de sucesso que não teve. “Espero que as pequenas Ayôs espalhadas pelo Brasil se sintam incentivadas, fortalecidas e autorizadas a sonhar.” Apesar de ser um nome respeitado na cena musical, com uma trajetória que transforma vivências pessoais em expressão artística, só em outubro de 2025 lançou seu primeiro álbum, “Exú-Mulher”. A obra que consolida sua identidade artística é uma ode à espiritualidade e propõe uma escuta atravessada por força, liberdade e mulheridade. Ayô é, também, uma das fundadoras do Samba de Ganga, roda de samba composta majoritariamente por pessoas trans, e idealizadora da Samb’Ayô, sua própria roda, ambas com a macumbaria como eixo central de suas canções. (C.V.)
Dandá Costa

Nascida em Limeira, interior de São Paulo, e radicada na capital paulista, Dandá Costa é cantora, compositora e multiartista amefricana e travesti. Em 2019, lançou o disco “OGÓ”. Dandá é fundadora do Pagode da Dandá, primeiro grupo de samba criado por uma travesti no Brasil, idealizou a DESACUENDA, projeto que une vozes trans da música contemporânea, e colabora para a invenção de outras formas de vínculo e coletividade, sempre políticas. Aos 35 anos, já colaborou com artistas como Lido Pimienta, Linn da Quebrada, Alessandra Leão, Fitti, Lenna Bahule, Jadsa, entre outros nomes. Mais do que um ponto de chegada, explica Dandá, estar na Over 30, “é a afirmação do meu compromisso com a memória, a invenção e a expressão artística, minha e de outras transcestrais que vieram antes e ainda estão por vir”. Mesclando música, palavra e performance, fabulando a tradição e tematizando afeto, fé, corpo, raça e gênero para projetar imaginários em terras devastadas, é autora dos livros “Contíguo”, “Céu-tamanho” e “Cavalos Soltos”. (C.V.)
Dani Balbi

Intelectual, militante e parlamentar, entrou para a história ao se tornar a primeira mulher trans eleita deputada estadual do Rio de Janeiro. Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ — onde também foi a primeira professora trans —, articula universidade, movimentos sociais e política institucional. Dramaturga e roteirista, aos 36 anos, faz da vida política um espaço de enfrentamento às desigualdades, com atuação centrada na educação pública, na defesa da população LGBTQIA+ e nos direitos humanos. Na Alerj, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da nova geração. “A maior demanda das pessoas trans é a possibilidade de viver plenamente. Escrever roteiros, dar aulas, manter meu canal sobre cinema no Youtube, ao mesmo tempo em que ocupo o Parlamento, é afirmar que pessoas trans existem em toda a complexidade da vida social. Visibilidade é ocupar todos os lugares que sempre nos pertenceram.” (M.L.)
Digg Franco

Artista, empreendedor social e produtor cultural, nascido em São Paulo, é pós-graduado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC-SP. Atualmente é CEO da Trans_borda, um híbrido de agência, consultoria de diversidade e produtora. “Por meio do meu trabalho, busco contribuir para a valorização de profissionais trans, desafiando o discurso do senso comum que associa esse grupo exclusivamente à vulnerabilidade”, define. Aos 40 anos, ele, que é homem trans, colabora com a ONG Famílias e Resistência e é assessor do Fórum de Comunidades Tradicionais do litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores e presidente de 2018 a 2023 da Casa Chama, ONG de apoio e acolhimento a pessoas trans vulneráveis. A música que move Digg Franco vem direto dos anos 1980. Indie, house, UK garage, electroclash, punk rock e pós-punk. Na noite paulistana, curtia muito a Torre, na Vila Madalena. “Era um local de encontro de intelectuais, estilistas, artistas, gente de estilos e gerações diferentes”, relembra. (C.V.)
Gilmara Cunha

Da Favela da Maré, no Rio de Janeiro, constrói uma trajetória marcada pela defesa inegociável da vida e da dignidade. Mulher trans e defensora dos direitos humanos, ela transformou a experiência coletiva das favelas em ação política organizada. Em 2006, fundou a Conexão G, organização que atua na luta por políticas públicas de direitos humanos, saúde, educação e segurança voltadas à população LGBTI+ que vive nas periferias. À frente do grupo, como coordenadora geral, Gilmara também integra espaços estratégicos de participação social: é membra do Fórum LGBT do Rio de Janeiro e do Conselho Nacional de Juventude, onde leva as vozes historicamente silenciadas das favelas para o centro do debate público. Seu trabalho, enraizado no território e guiado pela justiça social, foi reconhecido pela Alerj, que lhe concedeu a Medalha Tiradentes pelos serviços prestados às comunidades fluminenses. Gilmara constrói pontes entre políticas públicas e vivências periféricas, defendendo uma agenda que articula direitos humanos, justiça social e o enfrentamento das desigualdades atravessadas por gênero, sexualidade, raça e classe. (M.L.)
Gretta Sttar

Ícone da noite paulistana, Gretta Sttar, aos 70 anos, atravessa quase cinco décadas de carreira como uma das artistas transformistas mais influentes do país. Nascida em Santos (SP), encontrou em São Paulo seu primeiro território de reinvenção e, nos anos 1970, mergulhou no circuito noturno, tornando-se filha artística de Tanya Starr. Em 1979, venceu o Miss Universo Gay e passou a circular pelo Brasil e pelo Leste Asiático com performances marcadas por humor, elegância e presença magnética. De volta ao país, brilhou em casas como Homo Sapiens, Nostro Mondo, Freedom, Tunnel e Blue Space — onde protagonizou o gesto histórico de revelar publicamente viver com HIV, transformando sua trajetória em cuidado e acolhimento. Atuou na organização da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, defendeu os direitos de mulheres transexuais e travestis e colaborou com iniciativas como Casa Florescer e Transcidadania. No cinema, esteve em “Os Sapatos de Aristeu”, “Quem Tem Medo de Cris Negão?” e “Greta”. Hoje, se divide entre apresentações em casas noturnas e a maquiagem. (M.L.)
Isa Silva

Em julho de 2025, acompanhando sua transição, sua marca autoral passou a se chamar Isa Silva, reforçando, mais do que nunca, o compromisso com ancestralidade, inclusão e sustentabilidade. Um dos principais nomes da moda brasileira, a estilista baiana traz para sua marca uma forte essência da cultura do país. Inspirada por uma visão e vivência afroindígena, a empresária — que também atua como influenciadora no segmento da moda, consultora e palestrante — imprime no próprio nome o DNA da marca e, acima de tudo, suas referências baianas. Aos 35 anos e com mais de uma década de carreira, consolidou-se no mercado paulistano. Com o lema “Acredite no seu axé”, tornou-se símbolo de identidade, coragem e pertencimento para pessoas pretas e trans. À frente de uma marca democrática, com roupas sem gênero e pensadas para todos os tipos de corpos, conquistou as passarelas da São Paulo Fashion Week com desfiles que transbordam brasilidade e resgatam histórias antes esquecidas ou desconhecidas por diferentes públicos. Sua atuação fortalece debates sobre representatividade na moda. (C.V.)
Jaqueline Gomes de Jesus

Um dos mais importantes nomes acadêmicos do país, nasceu em Brasília e se radicou no Rio. Foi a primeira mulher trans a ser agraciada com a Medalha Chiquinha Gonzaga, por indicação da vereadora Marielle Franco, e com o diploma Bertha Lutz do Senado Federal. Aos 46 anos, é ativista de direitos humanos, da população negra e trans. É professora de Psicologia do IFRJ e de Programas de Pós-Graduação da Fiocruz, da UFRRJ e da USP e doutora em Psicologia Social do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, na qual atuou como a primeira gestora do Sistema de Cotas para Negras e Negros. É, ainda, pós-doutora pela Escola Superior de Ciências Sociais e História da FGV. “É fascinante ser reconhecida em uma revista que trabalha com as artes. Muita gente vai poder conhecer um pouco do que eu faço.” Autora e organizadora de “Transfeminismo: Teorias e Práticas” (Metanoia Editora, 2014), o primeiro livro em português sobre o tema, já foi premiada em Harvard e MIT. Nos seus fones, “Coração Pirata”, do Roupa Nova, nunca para de tocar. “Fala muito sobre mim, da minha trajetória, ascensão, ocupação de espaços”, conta. (C.V.)
Kyem Ferreiro

Uma das principais lideranças transmasculinas e negras do Brasil. Nascido em MT, transformou a própria vivência em ação política. Aos 34 anos, coordena o núcleo paulista do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT-SP) e é um dos idealizadores da Marcha Transmasculina, a primeira e maior mobilização transmasculina do mundo. Sua atuação combina militância, formação técnica e incidência institucional. Analista de projetos, articula dados e organização coletiva para disputar políticas públicas. “O Mês da Visibilidade Trans é feito de legado e responsabilidade coletiva. Nada do que sou foi construído sozinho. Sou resultado de afetos que me sustentaram quando eu ainda não me sustentava, de quem acreditou em mim quando eu duvidava e de quem lutou antes de eu existir. Existir é disputar o futuro, pois somos o sonho que nossos ancestrais ousaram imaginar possível, e disputar o futuro é sonhar com quem está por vir.” (M.L.)
Luh Maza

Roteirista, diretora e atriz, transita com fluidez pela televisão, pelo cinema, pelo teatro e pela publicidade, sempre guiada por uma criação autoral atenta às tensões do presente. Sua relação com o teatro começou cedo. Aos 16, publicou seu primeiro texto teatral, “Três Tempos”. Desde então, escreveu mais de dez peças, todas encenadas sob sua própria direção no Rio, em São Paulo e em Portugal. Cinco deles integraram a coleção Primeiras Obras (Imprensa Oficial, 2009), indicada ao Prêmio Jabuti, e depois foram reunidos no livro “Teatro” (Chiado Editora, Lisboa, 2015), publicado em diversos países da Europa e da África. Reconhecida como uma das roteiristas da série “Sessão de Terapia”, acaba de concluir, aos 39 anos, a adaptação do romance “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, para série de TV. “Listas e premiações são símbolos para celebrar. Representações do fractal da multidão. Eu sou porque muitas pessoas trans são! Trabalhar com a criação do imaginário coletivo é semear e transformar nossos sonhos em realidade. É preciso transicionar o mundo, não de gênero, mas do ódio e do medo para a alteridade e o amor. Que vivamos mais. E cada vez melhor! Celebro meus transcestrais de antes, de agora e os que virão depois de nós.” (M.L.)
Lume Watanabe

Lume Watanabe articula espiritualidade, pesquisa acadêmica e memória social. Mãe de santo e mestranda em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), aos 32 anos, atua simultaneamente no terreiro e na universidade, dedicando-se à valorização dos saberes tradicionais e “TRANScestrais” nas religiões de matriz africana. Sua trajetória evidencia o compromisso com a ancestralidade, cuidado comunitário e produção de conhecimento crítico. Entre o sagrado e o acadêmico, Lume constrói pontes entre história, religiosidade e resistência, reafirmando o terreiro como espaço legítimo de saber, política e preservação cultural. (M.L.)
Magô Tonhon

Nascida em Presidente Prudente, interior de SP, é maquiadora, educadora de beleza, pensadora e mestra em Filosofia pela USP. Desde 2016, atua como consultora em diversidade, treinando equipes das principais empresas do Brasil. Mora na capital paulista há 10 anos. Aos 47 anos, é co-fundadora da #LGBeauTé, iniciativa de Beleza Cidadã contra a feiúra produzida pela normatividade. Recebeu o Prêmio #BeYou, no TransBaile, pela autenticidade, coragem e impacto de sua atuação. “Ter tido meu trabalho reconhecido pelo TransBaile me trouxe um alerta para não subestimar nunca mais o poder de impacto de fazer da beleza uma arma contra a feiúra que a norma produziu e produz”, explica. Criadora criativa, Magô já produziu conteúdos de beleza junto com grandes marcas, como Avon, Mac Cosmetics e NIVEA. Como maquiadora, já trabalhou com importantes nomes como MEL e Jup do Bairro, e assinou beauté de clipes de Liniker, Urias e muitas mais. Sem música, Magô diz que não estaria viva. “Só no ano passado foram mais de 96 mil minutos de música rolando no Spotify. Em sua maior parte música popular brasileira”, crava. (C.V.)
Malka Julieta

Aos 41 anos, vê a carreira em crescimento exponencial. Travesti do ABC Paulista, é produtora musical, sound designer, cantora, DJ e engenheira de áudio. Seu trabalho está presente em diversos gêneros musicais. Com bagagem única, furou a bolha da cena LGBT+ e atua com diversos artistas, tanto entre consagrados quanto na cena novíssima. Na MPB, colaborou com nomes como Céu, Tulipa Ruiz e Marina Lima. No pop, trabalhou com Linn da Quebrada, Jup do Bairro, entre outros. No funk tem trabalhos com Katy da Voz e as Abusadas e muito mais. E, no rap, assinou a masterização de faixas para Rap Plus Size, Djonga, Cris SNJ e Kamal. “Estar no Over 30 significa muito para mim, pois valida uma construção feita com amor e calma ao longo dos últimos anos”, comemora. “É um reconhecimento fundamental, pois meu ofício é focado nos bastidores, dentro de estúdios.” Seu primeiro álbum, “Chão”, foi lançado em 2025 com muitas participações, como Brisa Flow, Badsista e Deize Tigrona. Malka foi primeira pessoa trans a tocar na Sala São Paulo, em um concerto com João Bosco. Concorreu três vezes ao WME de Melhor Produtora Musical e emplacou músicas em séries da Netflix e trilhas de novelas da TV Globo. (C.V.)
Marina Mathey

É atriz, cantora, diretora e roteirista. Começou no teatro em 2006, em Americana (SP), sua cidade natal, e atua na capital paulista desde 2010. Aos 32 anos, é formada pela Escola de Arte Dramática, da USP, e desenvolve seus trabalhos transitando entre as linguagens da performance, música, audiovisual, dança e teatro. Foi a primeira travesti a ganhar o Prêmio Bibi Ferreira, em 2022, como Melhor Atriz Coadjuvante em Musical, pelo seu trabalho em “Brenda Lee e o Palácio das Princesas”. “Começar 2026 com esta notícia [a Over 30] é para mim um presente e uma resposta muito bela e simbólica para o caminho que venho traçando há tantos anos”, comemora. “Sempre fui muito movida pelo desejo, pela necessidade de descobrir o que existe para além, desde que eu era só uma travinha de 12 anos inquieta por querer ser alguém.” Em 2025, Marina estrelou o espetáculo “João” (Cia. Da Revista), trabalho que lhe rendeu a indicação de Melhor Atriz no Prêmio Shell, Prêmio Bibi Ferreira e no DID. Em 2024, lançou o álbum “Boneca Pau Brasil”, produzido por Amanda Magalhães. No audiovisual, como atriz, integra os elencos das séries “3%” (Netflix), “Pico da Neblina” (HBOmax), “Unidade Básica” (Universal Channel), “Aqueles Dias” (TV Cultura), “Todxs Nós” (HBO) e “Feras” (MTV) e dos longas “Cordialmente Teus” (Aimar Labaki) e “Sequestro Relâmpago” (Tata Amaral). (C.V.)
Maxi Weber Lira

Maquiadora e referência no mercado da beleza, construiu uma trajetória marcada por talento, longevidade e constante reinvenção. Aos 53 anos, consolidou sua carreira atuando nos universos da moda, da publicidade e da produção artística. Diretora de Beleza do CDC e mentora da Maxi Beauty Academy, já soma mais de 300 capas editoriais e diversos prêmios no setor, transformando a maquiagem em linguagem, profissão e potência criativa. Sua história acompanha transformações estéticas e sociais, afirmando a presença de corpos dissidentes em um mercado historicamente excludente. Reconhecida nacional e internacionalmente, Maxi integrou momentos icônicos da moda brasileira, como ao maquiar a top model Naomi Campbell, em destaque na São Paulo Fashion Week. Mais do que imprimir beleza, ela abre caminhos, inspira novas gerações e reafirma a maquiagem como ferramenta de expressão, autonomia e afirmação. (M.L.)
Michelle Brea

Michelle Brea, 45 anos, é formada em Sistemas de Informação e atua como gestora de Tecnologia da Informação, construindo uma trajetória marcada por transições profissionais e reinvenção. Gaúcha, iniciou a carreira na área de tecnologia e, ao longo do caminho, teve uma passagem de cinco anos pela polícia — experiência que ampliou sua leitura crítica sobre Estado, poder e instituições. Depois desse período, retornou ao setor tecnológico, consolidando-se como engenheira sênior de aplicações até assumir a gestão em TI. Sua trajetória evidencia percursos não lineares e a combinação entre conhecimento técnico, disciplina institucional e reflexão sobre identidade, mudança e reconstrução profissional. No YouTube e no Instagram, mantém o perfil astravadavida, onde atua de forma didática, paciente e corajosa em debates e na produção de conteúdo e militância informativa e combativa. (M.L.)
Nicolas Magalhães

DJ, modelo e performer, constrói sua trajetória a partir da cena cultural de Brasília, articulando música, moda e presença como linguagem estética e política. Com pouco mais de 30 anos, ocupa espaços historicamente excludentes ao tensionar padrões e ampliar representações no Distrito Federal. Nascido em Planaltina, saiu de casa aos 13 anos, antes mesmo de sua identidade de gênero estar em debate. Hoje, além de DJ, atua como modelo profissional e tatuador. Desde 2019, Nicolas vem se consolidando como um dos destaques da cena pop e funk brasileira. Residente da Victoria Haus, casa noturna referência na capital, já levou seus sets para estados como Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná. Com uma sonoridade marcada pelo funk e por ritmos contemporâneos, constrói apresentações potentes e carismáticas, dividindo palco com artistas como Pabllo Vittar, Valesca Popozuda, Lexa, Tati Zaqui e MC Pipokinha. Nicolas também marcou presença em grandes eventos, como a Parada LGBTQIAPN+ de Brasília em 2019 e o Bloco das Montadas em 2023. (M.L.)
Pri Bertucci

Aos 47 anos, é educadore, pesquisadore, criou o Instituto SSEX BBOX, projeto que se propõe a discutir diversidade de gênero e justiça social desde 2009 em São Francisco (EUA), São Paulo, Berlim (Alemanha) e Barcelona (Espanha). Também é produtore da Marcha do Orgulho Trans da cidade de São Paulo e pioneire do Sistema ILE (linguagem neutra em português). Especialista em diversidade há mais de 20 anos, Pri Bertucci é, ainda, CEO da consultoria DIVERSITY BBOX, que atua com cursos sobre o universo LGBTQIAP+ e suas interseccionalidades. Como palestrante, educadore e pesquisadore de renome internacional, tem um compromisso profundo com o fomento do pertencimento e da compreensão por meio das fronteiras culturais e pessoais. Venceu os Prêmios TikTok 2022 (com o SSEX BBOX) e Fundação Brasil 2020. Foi indicade para o Outie Awards “Global LGBTQ+ Advocate of the Year” durante o Out & Equal Summit 2022, o maior evento LGBTQIA+ do mundo. Em 2023, criou o primeiro tradutor de linguagem neutra e a primeira AI não-binária do mundo. (C.V)
Puma Camillê

A união improvável entre a capoeira e a cultura ballroom é o que move Puma Camillê, 31 anos. A artista trans, negra e multidisciplinar nasceu em Campinas (SP), mas foi em Salvador que despontou. Sua obra transforma o corpo em território político, onde o ritmo ancestral do berimbau encontra a precisão estética do vogue. Seu trabalho é a criação de uma tecnologia trancestral que tem como objetivo construir um mundo utópico, em que os padrões binários não existem. Foi com esse olhar que ela idealizou o movimento “Capoeira para Todes”. Em 2023, ela realizou uma performance no Club Renaissance, em Salvador, que contou com a presença de Beyoncé e um beat criado exclusivamente para a artista por Kevin JZ, ícone da ballroom nova-iorquina. Na ocasião, Puma subiu ao palco ao som de berimbaus e cantos em kimbundu, ao lado da renomada mestra de capoeira Angola e doutora em Gênero e Raça pela UFBA Janja Araújo. Junto à DJ Tecnoplanta, produziu e gravou uma obra que ganhará o mundo em março, trazendo a essência dessa união, musical e cultural, que move sua carreira. (C.V.)
Rainha Mattos

Você pode não conhecer o nome Andréia Matos, mas certamente já ouviu falar da Rainha Matos. Aos 35 anos, a jornalista, que saiu de Teresina, no Piauí, para conquistar o mundo, é um dos principais nomes da comunicação, mantendo um perfil com 2,3 milhões de seguidores no Instagram. “Não tem famoso que esconda algo de mim” é o bordão da influenciadora que estuda Jornalismo na PUC-SP. Para ela, estar na Over 30 é se sentir visível. “Vejo que estou fazendo a diferença, como jornalista e mulher trans”, comemora. “A expectativa de vida de uma mulher trans é de 35 anos e eu passei dessa faixa, estou viva. É muito representativo estar na lista, visto o cenário de transfobia que a gente vive”. Apaixonada por doramas, Rainha Matos confessa o som que não sai do seus fones de ouvido: “A música que me move atualmente é a coreana. Eu adoro ‘Tell Me It’s Not a Dream’, do 10CM. Ela é o tema de ‘Rainha das Lágrimas’, da Netflix”, conta, entregando seu lado romântico. (C.V.)
Rafaela Kennedy
A artista visual amazônica constrói uma obra que desloca imaginários hegemônicos e reescreve histórias que a colonização tentou silenciar. Aos 31 anos, ela compreende a fotografia como ferramenta e é vice-presidenta da ATM (Associação TRANSmoras), fundada em Campinas (SP), que conecta redes artivistas, impulsiona talentos e promove justiça socioambiental. Travesti de ascendência indígena e negra, Rafaela enaltece corpos historicamente marginalizados, criando novos repertórios visuais que rompem com estereótipos e ampliam os limites da representação. Em 2025, estreou “Proteção” no Museu Afro Brasil, em São Paulo, série fotográfica em que seu corpo travesti recebe a bênção de sua mãe pentecostal. Sua trajetória inclui participação no 38º Panorama de Arte Brasileira (MAM-SP, 2024), além das exposições “Invenção dos Reinos” (Oficina Brennand, 2023), “REBOJO” (Londres, 2023) e “Um Espelho na História” (Galeria Almeida & Dale, 2022). Premiada com o Woman Artist Residency Award na feira Zona Maco, no México, sua pesquisa articula memória, crise ambiental e a criação de espaços para corpos dissidentes. (M.L.)
Sara Wagner York

Travesti, avó, PcD e Doutora em Educação (UERJ) cuja trajetória intelectual e pública se consolida na articulação entre educação, mídia, saúde e direitos humanos. Aos 50 anos, realiza estágio pós-doutoral na Unesp/Fapesp, além de ser psicanalista vinculada a articulações nacionais comprometidas com a escuta periférica. Com formação plural — Letras, Pedagogia, Jornalismo e Biomedicina —, construiu uma produção marcada pela interdisciplinaridade, pelo rigor crítico e pela ética do cuidado. Foi professora visitante em instituições como Vanderbilt, Ohio State e University of Pittsburgh, além de aplaudida de pé na Harvard University de Boston em 2025. Pioneira, tornou-se a primeira travesti a ancorar jornalismo no Brasil, com mais de 250 horas (TV Brasil247). Integra grupos de trabalho no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. “Essa visibilidade espetacular em janeiro é uma denúncia. Se é preciso um mês para ver pessoas trans, é porque o resto do ano é marcado pelo apagamento. Visibilidade trans está para além de fazer ver — é sobre corrigir o nosso olhar. O problema nunca foi a imagem refletida, mas quem decidiu o enquadramento e seu recorte”, alerta Sara. (M.L.)
DJ Tayan

É artista não binárie, beatmaker e produtore musical que emerge da cena cultural de São Paulo com uma pesquisa sonora atravessada por identidade, território e política. Trans masculino/não-binárie e cria da quebrada de Taipas, na Grande São Paulo, constrói um repertório potente influenciado por artistas pretos e LGBTQIAP+ do cenário nacional. Seu som atravessa o rap, o funk e a Música Popular Periférica Brasileira, criando batidas que convocam o corpo e a pista a serem espaço de afirmação. Aos 33 anos, Tayan desenvolve uma trajetória marcada pela experimentação e pela presença dissidente na música eletrônica e urbana. Entre estúdios, projetos autorais e performances, utiliza a produção musical como ferramenta de pertencimento e criação de novos imaginários, contribuindo ativamente para a construção de espaços mais diversos, inclusivos e politicamente engajados na cena contemporânea. (M.L.)
Valéria Barcellos

Atriz, cantora, curadora, escritora, palestrante e performer. É difícil definir a riqueza do trabalho de Valéria Barcellos. Aos 46 anos, a multiartista nascida em Santo Ângelo (RS) e moradora de São Paulo, usa sua arte e performances para evidenciar e territorializar corpos trans e negros nos espaços que ocupa. Integrou o elenco da novela “Terra e Paixão” e do reality “Masked Singer”, ambos da TV Globo. Já foi indicada ao Prêmio APTR, do teatro, em 2025, com “A Palavra que Resta”. “Que felicidade ser celebrada por essa revista tão importante”, comemorou ao saber que estava na Over 30. “Eu, há tanto tempo na arte, estar viva e ainda ser lembrada e celebrada.” Valéria foi homenageada por duas vezes no Festival de Cinema de Gramado, recebeu também os prêmios Nosso Orgulho, por seu livro “Transradioativa”, e Mulher Cidadã, maior honraria às mulheres no RS. Em 2024, lançou o álbum “Saraval”. Em 2026, interpretará Geni na montagem de “A Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, com direção de Jorge Farjalla. (C.V.)
Vicenta Perrotta

Professora, estilista e pesquisadora, é fundadora do Ateliê TRANSmoras e atua na Unicamp, onde desenvolve trabalhos transdisciplinares entre moda, educação, memória e direitos humanos. Aos 46 anos, atuando no Brasil, com forte inserção em Campinas (SP) e articulações no contexto latino-americano, tem construído uma trajetória dedicada à formação, criação de obras têxteis e à valorização de corpos dissidentes. Seu trabalho na moda é atravessado por pesquisas acadêmicas, práticas pedagógicas e compromisso político, utilizando a semiótica do vestir como linguagem disruptiva de identidade e autonomia. Além disso, Vicenta busca pensar o ateliê como espaço de acolhimento, produção de conhecimento e resistência. (M.L.)
Victória Principal

Uma das maiores referências da cena drag brasileira, ao lado de nomes como Nany People e Silvetty Montilla, que aliás a batizou, Victória Principal começou sua carreira no início dos anos 1990, após vender flores por um período dentro de casas noturnas. Logo ela se tornou um dos maiores nomes do estilo “caricata”, representando a comédia e o exagero cômico. Em 2018, foi homenageada na Feirinha Cultural LGBT+ de São Paulo. Chegou a participar de diversos programas na televisão, como o extinto “Ridículos”, da TV Record, e “Casos de Família”, do SBT. Continua ativa, com performances e participações especiais em peças de teatro drag e presença no Instagram (@victoriaprincipaldrag). (C.V.)
Viviane Vergueiro

Pesquisadora, consultora e analista, com atuação nas áreas de gênero, transfeminismos, identidade de gênero e economia. Desenvolve sua tese de doutorado sobre modelagem de dados relacionada a identidades trans, travestis, não binárias e não ocidentais no PPGNEIM/UFBA. Atua como especialista na SEI-Bahia e como coordenadora de projetos na Akahatá. Integra o grupo CuS (Cultura e Sexualidade) da UFBA, o LABTRANS-UFRB —(co)Laboratório Humano de Estudos, Pesquisa e Extensão Transdisciplinares em Integralidade do Cuidado em Saúde e Nutrição, Gênero e Sexualidades— e o ODARA-IFRJ (Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade). É graduada em Ciências Econômicas pela Unicamp, em 2006. Ocupa espaços estratégicos para garantir que pessoas trans sejam protagonistas no financiamento e na formulação de suas próprias agendas políticas. Nos últimos anos, colaborou com diferentes redes no desenvolvimento de iniciativas voltadas à identidade de gênero, diversidade corporal e sexualidade, com foco em áreas como educação e saúde. (M.L.)
Ymoirá Micall

Natural de Guarulhos (SP), atua há mais de 20 anos nas artes cênicas como atriz profissional, com trajetória marcada por criações autorais, pesquisa de linguagem e direção de movimento. Aos 33 anos, desenvolve trabalhos em dramaturgia, laboratórios de criação cênica, direção de palco e orientação artística. E é, ainda, fundadora da Cia. Sacana de Teatro e Dança, criada em 2020 e composta por artistas negros e LGBTQIAP+ residentes da cidade de São Paulo. Apesar da trajetória de duas décadas, Ymoirá confessa que, até poucos anos atrás, não pensava que poderia se tornar referência. “Meu plano, desde sempre, era ser vista, reconhecida, estar movendo vida e arte em todos os lugares que fosse possível, dentro e fora da mídia”, conta. Entre suas obras autorais, estão: “Fracassadas BR” (2023), indicada ao Prêmio Shell; “Terra Brasilis Top Trans Pindorâmica” (2023), publicada pela 9ª Mostra de Dramaturgia do Centro Cultural São Paulo; e “Distrito T – Cap. 1” (2022), premiada pelo 30º Festival Mix Brasil na categoria Dramática. Criada em vivências de terreiros, Ymoirá tem uma relação afetiva com a música: “Me ajudou a evidenciar meu interesse por produção musical, discotecagem e composição”, conta. (C.V.)