Kid Abelha suspende o tempo e prova que o pop perfeito não envelhece

Paula Toller no show do Kid Abelha em São Paulo (Iwi Onodera/Brazil News)
O reencontro do Kid Abelha com o público paulistano só precisou do primeiro acorde para justificar sua grandeza. No último sábado (27), o Nubank Parque foi palco de uma celebração monumental que provou que, mesmo após um longo hiato, as engrenagens pop de Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato continuam girando em perfeita sincronia. Mais do que um mero exercício de nostalgia, a noite foi um testemunho vivo da imortalidade do repertório do trio.
Sem preliminares, as luzes se acenderam e os primeiros versos de “Lágrimas e Chuva” ecoaram pelo estádio. O resultado? Um coro imenso, imediato e arrebatador. A partir dali, ficou claro que o jogo estava ganho. Não tinha como ser diferente: o show inteiro será de hits e de músicas que levam o público para um lugar afetivo e de conforto. E que ganha contornos ainda mais robustos com a afiadíssima banda de apoio e a presença marcante dos metais.
Essa parede sonora na verdade ganhou o suporte de um time de peso: Gustavo Camardella (guitarra, violão e vocais), Adal Fonseca (bateria), Pedro Dias (baixo e vocais) e Gê Fonseca (teclados e vocais), além dos metais precisos de Jeferson Victor (trompete) e Moises Barbosa (trombone). No centro de tudo, Paula Toller (voz), George Israel (no sax, violão e bandolim) e Bruno Fortunato (na guitarra) estavam impecáveis e transbordavam uma cumplicidade nítida, visivelmente felizes por estarem dividindo aquele palco novamente. Paula, inclusive, passou o show inteiro dizendo que estava impressionada com o estádio lotado e receptivo, confessando que nem em sonho a banda imaginava aquilo — e, no fim, cravou que devem voltar à cidade.
A força da “band leader” e o espelho das gerações
É impossível falar de Kid Abelha sem falar do magnetismo de Paula Toller. No palco, ela reitera o seu papel histórico como uma das primeiras — e mais importantes — band leaders do rock/pop nacional. Para as mulheres na plateia, a presença de Paula vai muito além dos vocais e da estética irretocável: ela representa uma figura de referência em poder, beleza, altivez e fala. Paula continua linda como sempre foi. Quando ela assume o microfone, é um espelho de emancipação que atravessa décadas. Não à toa o coro no estádio ecoava com força feminina.
Após cantar “Amanhã é 23”, Paula senta no banquinho e aparece sem o casaco do primeiro figurino (uma peça futurista, vermelha e brilhante), arrancando assobios do estádio inteiro. Dali, emendou “Nada Por Mim”, canção que compôs com Herbert Vianna e que Marina Lima gravou com enorme sucesso em 1985 — o Kid Abelha a registraria logo depois, no icônico disco ao vivo de 1986. Após a apresentação da faixa, Paula mandou o recado: “Marina Lima, se você estiver aí, muito obrigada por ter lançado essa música”. Marina não só estava presente como postou a declaração em seus stories.

Imagens sob a água, homenagens e as ironias do pop
Após uma hora de show, o Kid Abelha saiu de cena e deixou o palco para a banda de apoio brilhar, mostrando a importância vital daqueles arranjos ao vivo, principalmente o sopro. Na volta, Paula surgiu com um macacão dourado de alcinha colado para cantar “Eu Tive Um Sonho”, clássico do álbum “Iê Iê Iê”, da fase mais sexy da banda. Enquanto o estádio berrava “Não deixe de cruzar o seu olhar com o meu; Eu vou jogar meu corpo em cima do seu” , imagens sensuais de um casal embaixo d’água tomaram o telão. Ponto para a direção de arte de Gringo Cardia, que levou para o show imagens diversificadas e cheias de referências (assim como a própria música da banda): ora estáticas, ora em vídeo, bem pop e coloridas, respeitando o clima de cada faixa sem nunca tirar o foco do palco.
O show também teve espaço para a memória e o afeto. A música “Maio” foi dedicada a Benja Borja, o primeiro baterista da banda, que morreu em 2021 aos 60 anos. Paula relembrou com carinho que ele adorava essa música e que eles se divertiram muito juntos, transformando o momento em um tributo delicado.
O grande trunfo do repertório do Kid Abelha, no entanto, reside na elasticidade de suas letras. Apesar de algumas referências datadas, as letras ainda são capazes de causar muita identificação. Eu, aos 52 anos, canto tranquilamente “A vida que me ensinaram como uma vida normal tinha trabalho, dinheiro, família, filhos e tal…” com a mesma verdade que cantava aos 11. Envelheceram bem, por isso arrebatam novas gerações.
Essa ambiguidade temporal ficou escancarada na abertura do bis. A banda voltou e abriu com “Como Eu Quero”, aquela música que a gente insiste em berrar como uma declaração de amor sabendo que, na verdade, narra uma relação extremamente tóxica e controladora. Quem se importa?
O final apoteótico com “Pintura Íntima”, com uma só voz gritando “fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada”, mostrou que o público estava disposto a pular muito mais ainda e esticar aquele baile de gala até onde Paula Toller e companhia quisessem levar. O Kid Abelha provou que o tempo pode passar, mas eles continuam impressos de forma definitiva no DNA do pop brasileiro.
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