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Gilberto Gil faz 84 anos entre ‘Tempo Rei’ e adeus a Preta

Ciclo marcou a despedida das grandes turnês e momento de luto familiar

Gilberto Gil

Gilberto Gil (Divulgação)

Gilberto Gil completa 84 anos nesta sexta-feira (26) e, no dia do aniversário, lançará nas plataformas o primeiro volume de “Tempo Rei – Ao Vivo”. O trabalho é um registro fonográfico e audiovisual da turnê que marcou a despedida do artista das grandes excursões.

O último ano foi um ano de adeus nos palcos e na vida pessoal. Com “Tempo Rei”, Gil passou por arenas, estádios e casas de grande porte, em uma temporada que reuniu diferentes gerações em torno de um repertório construído ao longo de mais de seis décadas.

A turnê foi apresentada como a última de grande escala de sua carreira, não como o fim da música em sua trajetória. Durante a turnê, o cantor passou por um momento difícil em sua vida pessoal e perdeu a filha Preta Gil. Ela morreu em julho de 2025, aos 50 anos, durante tratamento contra um câncer colorretal.

Gilberto Gil completa 84 anos

Nascido em Salvador, em 26 de junho de 1942, Gilberto Gil chega aos 84 anos com uma trajetória que atravessa música, política, pensamento cultural e vida familiar. O aniversário de 2026 acontece em um ponto de virada: depois da experiência coletiva de “Tempo Rei”, o artista passa a administrar a própria relação com o palco em outra escala.

O lançamento de “Tempo Rei – Ao Vivo” é o retrato deste ciclo. O primeiro volume reúne oito faixas gravadas em diferentes cidades brasileiras, entre elas “Palco”, “Um Banda Um”, “Tempo Rei”, “Eu Só Quero um Xodó”, “Eu Vim da Bahia”, “Procissão”, “Domingo no Parque” e “Cálice”. A previsão é que o projeto seja dividido em quatro volumes ao longo de 2026.

“Tempo Rei” marcou a despedida dos grandes palcos

Gilberto Gil na turnê Tempo Rei (@pridiabr)/30e)
Gilberto Gil na turnê Tempo Rei (@pridiabr)/30e)

“Tempo Rei” começou em 15 de março de 2025, em Salvador, na Casa de Apostas Arena Fonte Nova, e passou por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Belém. A agenda incluiu espaços como Farmasi Arena, Allianz Parque, Arena BRB Mané Garrincha, Estádio Mineirão, Ligga Arena, Beira-Rio, Centro de Formação Olímpica, Classic Hall e Hangar Convenções e Feiras da Amazônia.

A temporada teve novas datas abertas ao longo do percurso, em resposta à procura por ingressos. Em São Paulo, o Allianz Parque recebeu diferentes etapas da turnê e também foi escolhido para o encerramento, em 28 de março de 2026.

O formato da apresentação ajudou a fixar o sentido de despedida. A banda reuniu músicos de longa relação com Gil e integrantes da família, como Bem Gil, José Gil, João Gil, Nara Gil e Flor Gil. O repertório evitou a lógica de recorte único e procurou condensar fases diferentes: a canção nordestina, a Tropicália, o reggae, o samba, o pop brasileiro, as experiências elétricas e as músicas que se tornaram parte do cancioneiro popular.

O tempo como tema central da obra de Gil

Gilberto Gil recebe os netos Flor Gil e Bento no show de encerramento da turnê Tempo Rei no Allianz Parque em SP. (Lucas Ramos/Brazil News)
Gilberto Gil recebe os netos Flor Gil e Bento no show de encerramento da turnê Tempo Rei no Allianz Parque em SP. (Lucas Ramos/Brazil News)

O título da turnê não foi casual. “Tempo Rei”, canção lançada em 1984, sintetiza uma preocupação recorrente na obra de Gil: a passagem do tempo como mudança, permanência e transformação. A música, escrita como resposta a “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, evita uma leitura simples da finitude. Em vez disso, sustenta uma tensão entre o que se perde e o que segue.

Na turnê, essa ideia ganhou corpo. Gil cantou diante de públicos que acompanharam sua carreira desde os anos 1960 e também de jovens que chegaram a ele por discos, vídeos, família ou plataformas digitais. O palco virou ponto de encontro entre temporalidades: o compositor tropicalista, o artista pop, o músico ligado ao reggae e às matrizes afro-baianas, o ex-ministro da Cultura, o patriarca de uma família musical.

A perda de Preta Gil

Preta e Gilberto Gil
Preta durante show com Gilberto Gil em SP (Leo Franco/AgNews)

A morte de Preta Gil, em 20 de julho de 2025, atravessou o ciclo de “Tempo Rei”. Filha de Gilberto Gil e Sandra Gadelha, Preta construiu carreira própria como cantora, apresentadora e empresária, além de ter se tornado uma figura pública associada à liberdade estética, ao Carnaval, à comunicação direta com o público e à defesa de pautas ligadas à diversidade.

Na história pública da família Gil, Preta ocupava um lugar particular. Era filha, artista, mãe de Francisco Gil, que hoje brilha com os Gilsons, e parte de uma rede familiar em que música, afeto e trabalho se misturam há décadas.

O legado de Gilberto Gil na música brasileira

Desde a Tropicália, Gil trabalhou com a mistura entre canção popular, guitarras, ritmos nordestinos, samba, reggae, matrizes africanas, cultura pop e pensamento político sem transformar essa combinação em fórmula fixa.

Sua discografia também documenta mudanças do país. “Domingo no Parque”, “Aquele Abraço”, “Expresso 2222”, “Refazenda”, “Refavela”, “Realce”, “Drão”, “Andar com Fé”, “Se Eu Quiser Falar com Deus” e “Tempo Rei” pertencem a fases distintas, mas preservam uma característica comum: são canções que lidam com o Brasil sem reduzir o país a cartão-postal.

Gil também levou essa visão para fora do palco. Foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu reconhecimento internacional, incluindo prêmios Grammy e a homenagem de Pessoa do Ano da Academia Latina da Gravação.

Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque
Gil recebe Djavan e Chico Buarque em shows no RJ (Victor Chapetta/AgNews)