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Ferrugem fala de charts, ‘Sentimento’ e turnê com Péricles

Em entrevista à Billboard Brasil, cantor comenta a presença do pagode no Hot 100

Ferrugem: 'Sentimento' (Thais Marques/Divulgação)

Ferrugem: 'Sentimento' (Thais Marques/Divulgação)

Em um momento em que o pagode luta por espaço nos rankings dominados por outros gêneros, Ferrugem segue firme levantando a bandeira do gênero nos charts. Neste momento, ele sustenta presença dupla no Billboard Brasil Hot 100. Ele vê “Arrependidaço” (25º) crescer além do que previa, enquanto “Apaguei Pra Todos” (61º), de 2024, demonstra uma longevidade rara para os termos do mercado, com 66 semanas seguidas na lista. 

Ao comentar o recente álbum “Sentimento”, Ferrugem liga seu trabalho a uma linhagem que passa por Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Djavan e Gilberto Gil, e projeta esse aprendizado no encontro com Péricles na turnê “As Vozes”, que terá gravação oficial do audiovisual nos dias 25 e 26 de abril, no Espaço Unimed, em São Paulo. 

Ao longo do bate-papo, Ferrugem desmonta a ideia de controle absoluto sobre a própria carreira. Fala do público como força decisiva na vida das músicas, descreve o processo interno de escolha de repertório e explica como referências atravessam seu trabalho sem romper com a base do samba. Confira o papo completo abaixo. 

Hoje você tem duas músicas no Hot 100, e é apenas um dos dois nomes do pagode presentes no ranking, junto com Menos é Mais. Isso aumenta sua responsabilidade de alguma forma? 

Eu vivo uma dualidade quando a gente fala desse assunto. Fico muito feliz por o artista ser eu, né? Mas também me pergunto: por que só eu e o Menos É Mais? Tem tanta qualidade no pagode. Queria entender, num nível mais profundo, como o mercado tem se movimentado com relação ao segmento para ter só nós ali, sendo que tem muita gente fazendo coisa boa. Ao mesmo tempo, é bacana porque eu sirvo de exemplo para os novos que estão chegando, para mostrar que é possível. Isso me deixa muito feliz e aumenta, sim, a responsabilidade.

O sucesso de “Arrependidaço” com os fãs te surpreendeu?

Eles fizeram com “Arrependidaço” uma coisa que eu nem imaginava. Eu achei que a gente teria um pouco mais de dificuldade para introduzir essa música no mercado, porque ela tem uma linguagem diferente das músicas que eu costumo cantar e do que o meu público está acostumado a ouvir de mim. Achei que seria um trabalho mais pesado, mas eles fizeram tudo ficar mais leve. No fim das contas, a gente não sabe muito sobre o que o público quer. O que a gente enxerga como aspirante a sucesso, às vezes, não acontece. E a música que parecia um lado B vira a que puxa o bonde do trabalho inteiro.

Me conta um pouco mais desse processo. Como nasce essa leitura dentro do estúdio? Em que momento vocês percebem que a música pode crescer mais do que o esperado? 

É um processo muito restrito, muito fechado. Na escolha de repertório, normalmente estamos em poucas pessoas: eu, meu produtor e nosso empresário, que também é um cara da música, foi músico, então a opinião dele é super importante. Eu peço também a opinião da minha família. Acredito que a família faz o papel do público, dos ouvintes da rua, do Brasil. Eles me ajudam muito com isso. E é um processo que não fica registrado em gravação nem nada, porque, em alguns momentos, é até feio de assistir. O bicho pega na hora da escolha de repertório. 

“Apaguei Pra Todos” vem em alta desde 2024. O que faz uma faixa deixar de ser hit do momento para virar algo mais duradouro? Dá para responder isso ou é impossível? 

Não dá para responder. E não é feeling também. Quem manda é o meu público. Eles é que firmaram esse relacionamento sério com essa música. Era uma música do DVD “Ferrugem 10 Anos”. Eu já vou fazer 13 anos de carreira, então isso explica muito o que o público pode fazer com a carreira de um artista. Quem manda mesmo, quem assina a direção, como dizia o Jorge Aragão, é o povo. É o povo que comanda o show, diz para onde a gente tem que ir e o que eu tenho que fazer.

Meu palpite é que Apaguei Pra Todos toca num cotidiano muito reconhecível, esse universo do celular, da mensagem, da digitação. Quando a música esbarra no dia a dia, ela tem mais chance de se espalhar?

Claro. Exatamente. Quando a música encontra o cotidiano, ela faz com que as pessoas se identifiquem. E, quando elas se identificam, a chance de isso virar alguma coisa maior aumenta muito.

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Ferrugem lança novo projeto, ‘Sentimento’ (Thais Marques/Divulgação)

No disco Sentimento, há referências que escapam do samba mais direto. O trabalho tem uma ambiência mais ligada à black music, aos anos 1970. Em Amor Gigante, por exemplo, tem uma citação a Djavan. Queria te ouvir sobre isso: o que você escuta além do samba e como essas influências entram no seu trabalho. 

Vou te mostrar o que eu tenho escutado, porque aí você entende melhor o que eu gosto. Eu sou analógico total. Tem Zeca Pagodinho, depois Drake. Aí a gente vai para Xande de Pilares. Aí pulo para Gilberto Gil. A gente vai para Cazuza, mas sem nunca deixar de escutar Fundo de Quintal, porque isso aqui é o fundamento da música para mim, do que eu considero música.Para mim, a maneira de fazer música é o Fundo de Quintal. E todas as outras influências chegam com suas pintadas. Principalmente Djavan e Gilberto Gil. Na minha opinião, eles são dos maiores sambistas que a gente tem no país, porque nunca se intitulam sambistas, mas, quando fazem samba, fazem melhor do que todo mundo. E o Fundo de Quintal eu não coloco em prateleira nenhuma, porque merece estar num lugar à parte. Inventaram muita coisa. 

Mês que vem chega uma faixa oculta do disco, “Amar ou Odiar”. Queria que você explicasse primeiro o que é essa faixa oculta e depois contasse um pouco da história da música. 

Eu fui entender isso há pouco tempo também. É uma faixa que já está ali na plataforma, já subiu, mas, de alguma forma, quem consome ainda não tem acesso a ela. No mês que vem, a gente vai abrir esse acesso. Então, quem já ouviu o disco inteiro ganha meio que um plus, uma música bônus. A partir daí, ela deixa de ser bônus e se torna faixa do disco também. A gente separou Amar ou Odiar porque é uma música muito bonita. Ela tem aquele apelo emocional forte que as pessoas esperam de mim também. Dentro das escolhas do repertório, preferimos guardá-la. E, no momento em que a gente vai soltar, perto do Dia dos Namorados, tudo faz sentido. É uma música que conta essa história de pessoas que se amam, se separam, sentem falta, voltam e se separam de novo. Fala muito bem sobre isso.

Queria falar agora da turnê As Vozes, com o Péricles. Você já gravou com outros mestres, mas o que muda quando essa convivência fica mais próxima? Isso altera sua régua como cantor, como artista e como pessoa?

Muda tudo. Estar com pessoas carimbadas, com histórias de mais de 30 anos de carreira, como Péricles e Xande, e agora tendo essa convivência muito mais direta com o Pericão, ao vivo, toda hora, toda semana, falando com ele todo dia, faz a gente enxergar uma régua nova para a nossa vida. Uma régua mais alta, que exige mais da gente, se a gente quiser chegar onde eles chegaram. Então a busca fica ainda mais interessante e ganha mais significado quando a gente tem um ídolo do lado, como o Péricles. É um cara que me ensina o tempo inteiro. E não só na carreira, não só como cantor ou artista, mas como ser humano. Ele acrescenta muito na minha vida. Me fez ter uma nova visão de vida, enxergar que eu posso ter uma postura mais 100%. 

O que você espera da gravação do show?

Agora, nos dias 25 e 26, sábado e domingo, a gente tem a gravação de As Vozes no Espaço Unimed. Vai ser o momento daqueles. A gente já fez dois shows dessa turnê, em Recife e no Rio, e agora vamos para São Paulo com duas noites esgotadas para gravar. Vai ser muito especial. Espero conseguir me conter e cantar todas as músicas, mas tudo indica que não. Acho que vou me emocionar bastante. Então já peço paciência para a galera que vai estar lá, porque, se eu chorar, vai ter que fazer a música de novo.