As eras do Kid Abelha, do BRock ao reencontro de 2026
História do grupo pode ser dividida em seis fases marcadas por mudanças

Kid Abelha (Danilo Cardoso)
O reencontro de Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato na turnê “Eu Tive Um Sonho”, iniciada pelo Kid Abelha em 2026, colocou novamente em evidência um dos maiores repertórios do pop brasileiro. O espetáculo percorre mais de quatro décadas, de “Pintura Íntima” a “Nada Sei”.
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A história do Kid Abelha pode ser dividida em diferentes fases. Não são eras definidas apenas por figurinos, capas ou tendências de produção. Cada passagem está ligada a uma mudança concreta: a formação do grupo, a saída de seu principal compositor, a transformação das letras, a consagração comercial e o longo processo de encerramento e reunião.
Como o Kid Abelha mudou ao longo de seis fases
O primeiro Kid Abelha nasceu dentro do circuito que revelou o rock brasileiro dos anos 1980. Rádio Fluminense FM, Circo Voador, gravadoras em busca de novos grupos e a primeira edição do Rock in Rio ajudaram a transformar uma banda universitária em fenômeno popular. Naquele momento, o nome ainda vinha acompanhado dos Abóboras Selvagens e Leoni ocupava posição central na composição.
A saída do baixista, em 1986, poderia ter encerrado o grupo. Em vez disso, obrigou Paula e George a assumirem a escrita das músicas e a reorganizarem a identidade do Kid Abelha. As canções deixaram gradualmente o universo juvenil dos primeiros discos, enquanto a imprensa passou a concentrar boa parte da atenção na imagem de Paula.
Vieram depois as letras mais adultas, os discos conceituais, as regravações de clássicos brasileiros e o “Acústico MTV”, projeto que apresentou o catálogo a uma nova geração. Após um hiato iniciado nos anos 2000 e o fim anunciado em 2016, o reencontro de 2026 fecha um ciclo que começou nos corredores da PUC-Rio do século passado.
1. Os Abóboras Selvagens e a explosão do BRock (1981 a 1986)
Formado no Rio de Janeiro em 1981, o grupo chegou ao público como Kid Abelha & os Abóboras Selvagens. A primeira fase foi construída ao redor da voz de Paula Toller, dos sopros de George Israel, da guitarra de Bruno Fortunato e das composições de Leoni, que também tocava baixo. Depois de circular pela Rádio Fluminense e pelo Circo Voador, a banda lançou o compacto de “Pintura Íntima” e estreou em álbum com “Seu Espião”, de 1984. O disco reuniu “Como Eu Quero”, “Fixação”, “Alice” e “Nada Tanto Assim”, definindo uma combinação de new wave, tecnopop e letras sobre ciúmes, desejo e relações ainda observadas de um ponto de vista juvenil. “Educação Sentimental”, de 1985, aprofundou esse caminho com “Lágrimas e Chuva”, “Os Outros” e “Garotos”. A participação no primeiro Rock in Rio confirmou o tamanho alcançado pelo grupo. A fase terminou em 1986, quando Leoni deixou a banda e formou os Heróis da Resistência.
2. A reorganização e a parceria entre Paula Toller e George Israel (1987 a 1990)
Sem Leoni, o Kid Abelha perdeu seu principal compositor e precisou provar que conseguiria continuar. “Tomate”, lançado em 1987, foi o primeiro resultado dessa reorganização. Paula Toller e George Israel assumiram a linha de frente da criação e passaram a dividir composições que dariam outro rumo ao grupo. “Amanhã é 23”, “No Meio da Rua” e “Me Deixa Falar” mantiveram a habilidade para construir refrões, mas apontaram para arranjos mais ligados ao funk, ao soul e à música negra norte-americana. A mudança também apareceu no palco. Figurinos, coreografias e a produção visual do show ajudaram a consolidar Paula como símbolo sexual, enquadramento que muitas vezes reduziu seu papel como compositora e líder da banda. Em “Kid”, de 1989, a nova formação autoral já estava estabelecida em faixas como “Agora Sei”, “Todo o Meu Ouro” e “Dizer Não é Dizer Sim”. O complemento “os Abóboras Selvagens” começou a desaparecer e seria abandonado definitivamente no início da década seguinte.
3. Letras sensuais e ambição conceitual (1991 a 1996)
A mudança de linguagem iniciada em “Tomate” ganhou forma completa em “Tudo É Permitido”, de 1991, primeiro álbum apresentado apenas com o nome Kid Abelha. “Grand’Hotel”, “Lolita” e “A Indecência” levaram as letras para relações marcadas por sexo, culpa, controle e desgaste emocional. A banda já não escrevia como um grupo que observava a vida adulta à distância. Em “Iê Iê Iê”, de 1993, o Kid transformou as referências ao pop dos anos 1960 em ponto de partida para um disco sobre desejo, televisão e comportamento. Embora tenha identidade própria, o álbum faz parte da mesma transformação gradual, e não de uma era isolada. O registro acústico “Meio Desligado”, de 1995, aproximou novamente o público das canções, enquanto “Meu Mundo Gira em Torno de Você”, lançado em 1996, tornou-se o trabalho de estúdio mais bem-sucedido comercialmente da banda. “Te Amo Pra Sempre” e a regravação de “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, de Hyldon, encerraram a fase com o Kid ocupando um espaço entre o rock, o pop romântico e a música brasileira.
4. Expansão, regravações e maturidade pop (1997 a 2001)
A segunda metade dos anos 1990 foi menos marcada por uma ruptura do que pela ampliação do repertório e das possibilidades comerciais da banda. O Kid gravou versões de seus sucessos em espanhol, incluindo uma parceria com Alejandro Sanz, e trabalhou com Egberto Gismonti nos arranjos de “Autolove”, álbum de 1998 que trouxe músicas como “Eu Só Penso em Você” e “Maio”. Em “Coleção”, de 2000, a banda assumiu a posição de intérprete e revisitou músicas associadas a Wanderléa, Jorge Ben Jor, Rita Lee, Os Mutantes, Gilberto Gil, Paulo Diniz, Evinha e Roberto e Erasmo Carlos. Não era uma guinada aleatória: o projeto colocava o Kid em diálogo com o pop brasileiro que existia antes da geração de 1980. “Surf”, de 2001, abriu o período na Universal Music com referências ao Rio, ao mar e à música eletrônica. Foi também nessa fase que o grupo voltou ao Rock in Rio, agora já tratado como parte da história do evento que o ajudara a projetar dezesseis anos antes.
5. O “Acústico MTV” e a canonização do repertório (2002 a 2006)
Gravado e lançado em 2002, o “Acústico MTV” não criou uma nova identidade para o Kid Abelha. Seu impacto veio de organizar, atualizar e legitimar tudo o que a banda havia feito até então. Os arranjos acústicos aproximaram músicas de épocas diferentes, enquanto “Nada Sei” se tornou um novo sucesso e impediu que o projeto funcionasse apenas como retrospectiva. O repertório ainda incluiu “Quero Te Encontrar”, de Claudinho & Buchecha, “Mudança de Comportamento”, do Ira!, e participações de Lenine e Edgard Scandurra. Com cerca de 2 milhões de cópias comercializadas, o álbum tornou-se o título mais vendido da série brasileira “Acústico MTV” e sustentou uma turnê de três anos. O projeto transformou músicas dos anos 1980 e 1990 em catálogo permanente, ouvido por quem não havia acompanhado os lançamentos originais. “Pega Vida”, de 2005, retomou o erotismo em faixas como “Poligamia” e “Peito Aberto”, mas acabaria sendo o último álbum de estúdio do grupo.
6. Hiato, encerramento e o reencontro (2007 a 2026)
O fim do Kid Abelha não aconteceu de uma vez. Em 2007, os integrantes anunciaram férias e passaram a se dedicar a trabalhos individuais. Paula Toller lançou discos e turnês solo. George Israel desenvolveu diferentes projetos autorais. Bruno Fortunato manteve uma atuação mais discreta. O trio voltou a se apresentar na comemoração de 30 anos, registrada no álbum ao vivo de 2012, mas encerrou novamente os shows no ano seguinte. Em abril de 2016, a banda confirmou oficialmente que havia chegado ao fim, descrevendo a separação como um encerramento gradual provocado pelo desgaste e pelo desejo de experimentar outras formas de criação. Dez anos depois, Paula, George e Bruno anunciaram a turnê “Eu Tive Um Sonho”, sem a participação de Leoni. É uma celebração de catálogo e a confirmação de que as diferentes versões do Kid Abelha continuam convivendo dentro das mesmas músicas.
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