‘EQUILIBRIVM II’, de Anitta: vale o play?
Este é o nono álbum de estúdio da cantora

Anitta na divulgação de 'EQUILIBRIVM' (André Nicolau/Divulgação)
O importante não é ser a primeira, mas sim abrir caminho. É com essa ideia que Anitta parece ter construído a sequência de abertura de “EQUILIBRIVM II’,, e a análise de Kynnie no quadro Vale o Play, original da Billboard Brasil, mostra que a escolha da faixa inicial está longe de ser aleatória.
“Você Já Sabe” funciona como um verdadeiro rito de passagem. Logo no primeiro verso, a cantora avisa: “Você já sabe quem chegou pelo toque do tambor”. Nas religiões de matriz africana, antes de qualquer caminhada importante, antes de se abrir um novo ciclo, pede-se licença e a bênção de Exu — a entidade que abre os caminhos e permite que a jornada aconteça sem obstáculos. Nada começa sem esse movimento inicial, e é exatamente esse gesto que a faixa reproduz, com muitos atabaques, coros de vozes e uma estética visual repleta de alusões que arrepiam pela coesão do arranjo.
A conexão espiritual não para por aí. Já nos primeiros versos de “Sal Grosso”, Anitta canta “Oyá, Oyá, Oyá…”, invocando a força de Oyá, ou Iansã, orixá dos ventos, das tempestades e das transformações. A ponte, aliás, começa ainda na faixa anterior, quando ela canta “pode chover trovão” — o trovão e o vento forte anunciam que uma mudança está a caminho.
Em “Sal Grosso”, essa energia ganha corpo: o próprio sal grosso é um dos símbolos mais conhecidos de limpeza e proteção espiritual na cultura brasileira, como se, depois de abrir os caminhos, a artista blindasse o próprio percurso.
Veja a análise completa de Kynnie
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É também a primeira vez que Kynnie sente Anitta mergulhar de forma tão explícita na estética do dancehall, construída para a cultura dos soundsystems. Os sound systems nasceram na Jamaica no fim dos anos 1940, quando equipes montavam paredões de caixas de som nas ruas para que a comunidade vivesse a música coletivamente.
No Brasil, essa cultura encontrou terreno fértil nas periferias, criando uma ponte entre a Jamaica e os subúrbios cariocas — e é justamente desse lugar que vem KBrum, artista convidado da faixa e uma das vozes mais importantes dessa conexão entre o dancehall jamaicano e a música urbana brasileira. Além da influência do dancehall e do ragga, a canção ainda resgata um sample de “Treinamento do Bumbum”, do DJ O Mandrake.
Já “Deus Mãe” amplia a forma como se enxerga o divino: um convite para lembrar que toda vida nasce de um ventre, de um útero, de uma mulher. A oração que abre a faixa emociona, e a sonoridade equilibra um sample de funk leve com uma levada de violão cativante. Destaque para o feat com King, que inverte o papel de filha com a mãe ao convidá-la para dividir o fardo da vida.
“Ponta do Pé” é uma das melhores faixas solo do projeto — um samba gostoso, com um quê de samba de gafieira moderno, gênero trazido para a canção pela referência do pai de Anitta, tanto dentro da carreira quanto de quem ela é fora dos holofotes. É possível traçar ali a trilha certinha da vida da artista dentro de toda a dinâmica do álbum.
Por fim, “Oke” encerra “Equilibrium 2” redirecionando os holofotes para assuntos que realmente importam: os povos originários, sua resistência e seu legado — um tema que permeia os diálogos da artista.
A força de Oxóssi e dos encantados ganha corpo em um som eletrônico que já é feito há muito tempo por uma gama de novos cantores indígenas, e que, segundo a análise, precisa ser escoado e expandido.
Ouça ‘EQUILIBRIVM II’, de Anitta

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