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O tempo e a essência: Seu Jorge detalha jornada de 16 anos até novo álbum

'The Other Side' chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (8)

Seu Jorge (divulgação)

Seu Jorge (divulgação)

“The Other Side” é, antes de tudo, um manifesto a favor do tempo. Produzido ao longo de 16 anos, o novo álbum de Seu Jorge traz um profundo reflexo de maturidade, misturando paciência e essência para mostrar o que é precioso, mas sem preciosismo.

Gestado em uma longa jornada entre 2009 e 2019, o trabalho foi gravado em Los Angeles, nos Estados Unidos, com a parceria do produtor Mario Caldato Jr., e afasta o cantor, compositor e multi-instrumentista das pistas de dança e do samba tradicional, aproximando-o de uma atmosfera contemplativa que flerta com o jazz, com a música sinfônica e com a bossa nova.

Em 11 faixas, que chegam às plataformas digitais nesta sexta-feira (8), o artista se encontra em colaborações de peso com nomes como Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Maria Rita e o astro internacional Beck.

O lançamento global do álbum já demonstra que este é um dos momentos mais maduros da trajetória artística de Seu Jorge, que conversou com a Billboard Brasil sobre o processo sem pressões que moldou o disco, as transformações do mundo e o desapego das travas que o limitavam. Como o próprio artista resume: “Esse talvez seja o disco que melhor explique o que é o Seu Jorge”.

Seu Jorge (divulgação)
Seu Jorge (divulgação)

Billboard Brasil: Você vem trabalhando seu último álbum, “Baile à la Baiana”, com shows numa pegada mais dançante e animada. E aí “The Other Side” chega com uma atmosfera mais contemplativa. É pra mostrar, literalmente, seu outro lado?

Seu Jorge: Realmente é um álbum que tinha uma outra preocupação, uma outra orientação: a de investigar e buscar a beleza. Sobretudo a beleza da música brasileira, que já está para lá de estabelecida e fundada no mundo. Eu queria me reencontrar com valores como a sonoridade de Claus Ogerman, uma interpretação que me aproximasse mais de João Gilberto, ter o Milton Nascimento e o Lô Borges através de suas canções… Trazer um pouco de Minas Gerais, um pouco de Bahia. Eu queria explorar esse lado de ser apenas o intérprete e não o autor.

O disco tem essa preocupação de ir atrás da beleza mesmo, sem nenhuma outra responsabilidade. Começamos a gravá-lo sem a pressão de prazos ou orçamentos que, muitas vezes, limitam a criação. No nosso tempo, íamos gravando, debatendo e discutindo as faixas. Quando nos demos conta, nada mais nos pressionava. Nos distanciamos daquela fórmula industrial de produzir discos, onde tudo tem uma data certa para sair por conta da campanha de marketing. O projeto levou esse tempo todo porque essa pressão simplesmente não existia.

Você levou 16 anos para finalizar o disco. Quando percebeu que ele finalmente estava pronto?

Em 2019 terminamos as gravações e partimos para a pós-produção e mixagem, tudo feito com muita calma. Nesse processo, algumas adições aconteceram. O Beck, por exemplo, que participa do disco, chegou nessa fase de finalização. Eu não estava na gravação dele, mas a música já chegou estruturada, pronta. Já a Maria Rita e a Marisa Monte gravaram as vozes entre 2013 e 2015. Para você ter uma ideia, a primeira base de tudo eu gravei lá em 2013.

Foram anos agarrando as oportunidades que surgiam, e fomos surpreendidos no caminho. Em 2019, lembrei de “Crença”, uma canção que não estava prevista. Ela tinha sido uma sugestão do Pupilo em 2008, no disco “Almas”, que o Mario Caldato Jr. também pós-produziu. Lembrei disso onze anos depois! O Mario, de cara, topou tentar. É uma canção extremamente sinfônica. E Milton, você sabe como é… O Milton é o cara que esgotou todas as possibilidades de beleza em tudo o que cantou. Ninguém vai conseguir fazer nada mais bonito do que ele já fez. Não dá para pegar uma música gravada pelo Milton, sobretudo sendo uma composição dele, e achar que vai superar o que ele encontrou ali. Então corri um risco enorme, um esporte radical. Gravar Milton, para mim, é o equivalente a dropar uma onda do Kelly Slater: se você não estiver no tempo certinho da praia, vai tomar um caldo feio. Não é qualquer cançãozinha.

Mesmo as músicas teoricamente mais simples do Milton e do Lô Borges, aquelas que nos embalaram em violadas e luais na juventude, são difíceis demais de reproduzir. Nós aprendemos muito com as canções deles através daquelas revistinhas de cifra, mas tocar como eles tocavam? Nunca. É muito difícil.

Dá para dizer que foi um processo difícil, mas, ao mesmo tempo, despretensioso e muito prazeroso?

Extremamente prazeroso! Foi um privilégio me dar a liberdade de cantar músicas que realmente preenchem o coração. E tudo isso ao lado dos meus companheiros de longa data: Adriano Trindade, Cidão Santos, Claudio Andrade, Rodrigo Tavares, Pretinho da Serrinha, Fernando Vidal, Miguel Atwood-Ferguson, Michael Valeanu, Pedro Dom… Esses músicos estão comigo há muitos anos, o que facilita o entendimento musical da coisa toda. Muito da beleza desse trabalho está no empenho e no talento dos músicos que me acompanharam.

Entre o início do projeto e a finalização, foram 16 anos. O Seu Jorge que começou o disco não era o mesmo que o terminou. Como foi atravessar esse processo de mudança pessoal enquanto o álbum era gestado?

Meus filhos cresceram ao longo desses anos. Inclusive, guardo um roteiro com o storyboard desenvolvido pela minha filha, Flor, para esse disco. Quando ela tinha 16 anos e estava completamente envolvida no projeto, escreveu faixa por faixa o que deveria ser filmado e como deveria ser a estética. A visão dela é belíssima. Estamos recuperando esse material para estudar como colocá-lo em prática.

Além disso, o mundo mudou profundamente de 2009 para cá. O Brasil de 2019 passou por uma transformação muito aguda e profunda, que pegou muitos de nós de surpresa. Logo em seguida, o mundo encarou uma pandemia. Esses eventos nos transformam bastante.

Acho que a possibilidade de publicar esse disco agora, depois de tudo o que passamos, colabora com a ideia de trazer um acalento. Algo que nos preencha e faça com que a gente se reconheça no mundo — não apenas dentro do nosso território, mas de forma global, worldwide. Acredito que a cultura é uma plataforma maravilhosa para criar um ambiente diplomático e construir caminhos de expansão geopolítica. Se o Brasil não estiver em um momento comercial excelente com os Estados Unidos, por exemplo, a cultura pode manter essa ponte acesa. Ela é um instrumento de apoio em tempos de conflito.

Manifestamos muito a ideia do multilateralismo, de conversar com todos em um mundo que se transforma rápido demais por forças que mal entendemos. Muitas das lideranças mundiais e chefes de grandes potências que comandam essas transformações hoje não estarão aqui nos próximos dez anos. Essa mudança precisará ser administrada por uma renovação que ainda não conhecemos. Por isso, a diplomacia e a cultura precisam ser ferramentas de pacificação, especialmente em um mundo com tantos conflitos armados e crises humanitárias. A nossa cultura tem vertentes poderosíssimas que podem se desdobrar em projetos e ações políticas efetivas.

Pensando em toda essa bagagem, no fato de ter gravado nos Estados Unidos e misturado a nossa música com tantas influências globais, o grande legado de “The Other Side” para a sua carreira seria justamente essa costura cultural?

Eu sou uma testemunha do meu tempo, como quase todo artista. Considero o lançamento deste álbum um passo necessário na minha busca por construir uma discografia realmente diversa. Ainda quero fazer um disco de samba, preciso disso. Quem sabe, no futuro, até um disco de rimas.

O que este projeto me deu foi a oportunidade de me utilizar, genuinamente, como um instrumento musical. Na música temos a guitarra, o baixo, o teclado e os sopros passeando por diversos gêneros; por que a voz não poderia fazer o mesmo? Me sinto afortunado por transitar por tantas vertentes. Já estive em estúdio ou no palco com Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Ivete Sangalo, BaianaSystem, Luedji Luna, Planet Hemp, o próprio Beck, e até o Daniel, no sertanejo, com quem fiz uma dupla linda. Eu me sinto ilimitado nessas horas. Eu desobedeço os rótulos. Não me defendo em nenhum gênero, porque, para mim, o estilo é a própria música.

Acho que o primeiro grande legado desse trabalho é perceber que ele é o meu primeiro álbum de carreira que traz participações especiais — nos anteriores, não havia ninguém cantando além de mim. É um disco onde me encontro com as coisas que me encantaram quando ouvi música pelas primeiras vezes. Em algumas faixas, me aproximo de João Gilberto; em outras, de Frank Sinatra. Me sinto conectado com o mundo inteiro quando canto “River Man” ao lado do Thundercat, mas ao mesmo tempo continuo sendo um cara do Rio de Janeiro.

E eu adoro a cafonice charmosa de “Beleza Bárbara”, acho que foi uma das coisas mais legais que fiz na vida. O disco está cheio de momentos bacanas, mas essa é a minha favorita por ser um bolero. Ninguém grava mais bolero hoje em dia! Foram ousadias que me permiti fazer. As travas eram minhas, e me libertei delas com este trabalho. Daqui para frente, vai ser mais habitual me ver investindo nos Jorges que eu ainda não conheço do que naqueles que já estão consagrados. Não preciso ser tão comedido. Gosto dessa instabilidade, dessa falta de obrigação de ter que responder sempre às expectativas.

Você atingiu um patamar na carreira em que o público sente que você conquistou a liberdade de fazer o que quiser. 

Olha, é uma armadilha acreditar nisso. A prudência é fundamental. O que procuro extrair desse processo é o aprendizado. A perfeição não existe, o que existe é o aperfeiçoamento constante. Experimentar me dá a chance de aprender algo novo, mas sei que não posso fazer o que bem entender sem arcar com as consequências.

Pretendo continuar agindo de forma intuitiva e proativa. À medida que o tempo passa, a experiência se eleva e a prática traz a precisão. As conexões humanas que somamos no caminho também alimentam essa intuição. No fim das contas, a bagagem vai se assentando e, como se diz, o pó no coador vai ficando arrumado.

Ouça ‘The Other Side’, de Seu Jorge