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COPA DO MUNDO
Seu Jorge tem ascendência de Cabo Verde (divulgação)

Seu Jorge tem ascendência de Cabo Verde (divulgação)

Copa da Música: Cabo Verde tem parentesco sonoro com Brasil

Arquipélago africano é o adversário da nossa rival Argentina no mata-mata

Nesta sexta-feira (3), o menor país a chegar ao mata-mata de uma Copa do Mundo joga a vida contra a atual campeã no Hard Rock Stadium de Miami. São os 16-avos de final: de um lado, a Argentina de Lionel Messi, artilheiro do torneio. Do outro, os Tubarões Azuis de Cabo Verde, estreantes em Mundiais, que avançaram sem vencer, apoiados na força da diáspora. Fora das quatro linhas, porém, a música do país conta uma história surpreendentemente íntima do Brasil.

COPA DA MÚSICA: conheça a trilha sonora das seleções

Muito antes de Cesária Évora ganhar o mundo com “Sodade”, o Brasil já era o “irmão mais velho” das ilhas. Foi pelo Porto Grande de Mindelo que o samba desembarcou e contaminou o carnaval cabo-verdiano. Ouvindo instrumentistas brasileiros, B.Léza, o maior compositor de mornas, introduziu o chamado “meio-tom brasileiro” no gênero. E foi com o choro na cabeça que músicos como Luís Rendall reinventaram o violão local. A saudade das ilhas, não por acaso, soa como prima da nossa dor de cotovelo.

O que o torcedor brasileiro talvez não saiba é que a corrente atravessa o Atlântico nos dois sentidos. Ex-colônia portuguesa, o país era um entreposto para os navios que faziam a rota Brasil-Portugal. Por isso, vozes que o ouvinte jura serem cem por cento tupiniquins carregam sangue crioulo.

Da mesma forma, a cultura brasileira chegou via televisão. O goleiro Vozinha, herói da campanha histórica e queridinho da torcida brasileira, cresceu vendo novela da Globo e ouvindo Ivete, Seu Jorge, Cidade Negra e Grupo Revelação. E justamente em 2026 essa ponte Brasil-Cabo Verde ganhou um capítulo novo, assinado por um dos maiores nomes do rap nacional.

COPA DA MÚSICA: Argentina tem joias sonoras

Quando a bola rolar em Miami, contra a nossa eterna rival, saiba haverá um pouquinho do Brasil em cada um dos Tubarões Azuis.

Cabo Verde: via mão dupla no Atlântico

Morna e coladeira

A morna nasceu no fim do século XIX e é hoje Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, mas seu desenho melódico deve muito à travessia atlântica. No Mindelo boêmio dos anos 1930, o carnaval espelhava o do Rio, os primeiros sambas eram cantados em português antes de virarem crioulo, e a coladeira, mais dançante, absorveu o balanço do samba. As grandes divas (Titina, Celina Pereira, a própria Cesária) citavam Ângela Maria como referência.

Seu Jorge

 O carioca é bisneto de uma mulher cabo-verdiana e está em processo de reconhecimento da cidadania do arquipélago. A ligação, que ele antes vivia como admiração, virou pertencimento: chegou a dividir o palco com Cesária Évora sem saber que tinha ali um elo de família. Nesta Copa, Seu Jorge é o narrador do documentário “Um Milagre no Atlântico”, sobre a epopeia dos Tubarões Azuis. “Minhas raízes são cabo-verdianas, mas o meu coração é brasileiro”, resumiu. Difícil imaginar embaixador melhor para a noite de hoje.

Dudu e Lucinha Nobre 

O sambista Dudu Nobre e a irmã, a porta-bandeira Lucinha Nobre (primos, aliás, de Seu Jorge) descobriram a bisavó Iria Maria da Conceição, nascida em 1899 em Chã das Furnas, na ilha de Santo Antão. Em agosto de 2025, depois de quatro anos de papelada, a família recebeu a cidadania cabo-verdiana, ao som de “Cabo Verde Terra Estimada”, imortalizada por Cesária. “Eu já digo a toda gente no Brasil que sou cabo-verdiana”, contou Lucinha.

Sandra de Sá

Sandra Sá no João Rock 2025
Sandra Sá no João Rock 2025 (Thiago Duran, Denilson Santos e Paduardo/Divulgação)

A dona de “Olhos Coloridos” e “Bye Bye Tristeza” tem no avô materno, Manoel, um cabo-verdiano. Uma origem que ela própria faz questão de reivindicar e que já a levou a se apresentar no arquipélago.

Criolo, Amaro & Dino

 O capítulo mais recente da ponte tem data: janeiro de 2026, quando Criolo lançou o álbum “Criolo, Amaro & Dino”, ao lado do pianista pernambucano Amaro Freitas e do cantor Dino D’Santiago, português de ascendência cabo-verdiana. Gravado entre Rio, Recife, São Paulo e Lisboa, o disco funde rap e MPB a morna, coladeira, funaná e batuku, sem hierarquia. Tudo começou quando Dino elogiou publicamente “Nó na Orelha” (2011). Da amizade nasceu “Esperança”, indicada ao Grammy Latino, e depois o álbum inteiro.

Ivete Sangalo, Marisa Monte, Caetano Veloso

 Se os elos acima correm no sangue, o de Ivete Sangalo corre no afeto. Em agosto de 2024, ela estreou no Festival Baía das Gatas, em São Vicente, e transformou o show em tributo a Cesária, projetando imagens da diva enquanto cantava “Sodade”. Não foi a única brasileira seduzida: Marisa Monte teve relação próxima com a “diva dos pés descalços” e chegou a cantar ao seu lado, e a mesma “Sodade” já foi entoada por Caetano Veloso. A