Agrofunk: conheça o gênero que chegou ao topo do Hot 100
Estilo mistura baile com rodeio e ganha força nas paradas

Ana Castela, Jeninho e Luan Pereira: expoentes do agrofunk (Divulgação)
“Peão Todo Tatuado”, de Jeninho e Mariana Fagundes, chegou ao 1º lugar da Billboard Brasil Hot 100 e sacramentou a ascensão do agrofunk às paradas musicais. A música é uma mistura que vem ganhando força há alguns anos: o encontro entre sertanejo, funk, beats eletrônicos, estética rural e linguagem de internet.
O nome varia conforme quem fala: agrofunk, funknejo, agronejo, agro-funk-eletrônico. Mas a lógica é a mesma: chapéu, bota, caminhonete e roça passam a dividir espaço com grave, dança, ostentação e produção urbana.
Como o sertanejo encontrou o funk
Jeninho vê o movimento como uma ponte entre dois mundos que, por muito tempo, pareciam correr em direções opostas. “Quando comecei a notar esse movimento, pelo menos a partir de onde acompanhei, foi com a Ana Castela e o Luan Pereira. Eles passaram a fazer essa mistura entre o chapéu e o beat, entre a rua e a roça”, diz o cantor à Billboard Brasil.
A gênese do agrofunk passa pelo crescimento do chamado agronejo, que explodiu no streaming e nas redes sociais a partir do início da década. Além de Ana Castela e Luan Pereira, Us Agroboy, Leo & Raphael, DJ Chris no Beat e AgroPlay ajudaram a formatar uma sonoridade que atualizou o imaginário sertanejo.
Em 2021, “Os Menino da Pecuária”, de Leo & Raphael, já colocava batida de paredão, EDM e linguagem de ostentação a serviço do universo agro. Depois vieram músicas como “Pipoco”, de Ana Castela, Melody e DJ Chris no Beat, e faixas de Luan Pereira que aproximaram o rodeio do baile.
Agrofunk leva Jeninho ao topo do Hot 100
Enquanto parte dos artistas do movimento veio do sertanejo e passou a flertar com o funk, Jeninho se coloca no caminho inverso. “Sou goiano, fui criado em Goiânia, e minhas maiores referências eram do sertanejo. Eu compunha sertanejo, vivia no estúdio, no meio sertanejo. Mas o estilo com que mais me identificava para cantar era o funk. Então fiquei dividido.”
Por incrível que pareça, essa divisão virou identidade. Antes de se firmar como MC Peão, Jeninho buscou espaço nos centros do funk. “Ia para São Paulo, para a GR6, para a Kondzilla, para a Love Funk, buscar entrar no meio dos caras que, na minha cabeça, eu queria ser. Só que comecei a perceber que estava meio nadando contra a maré: eu querendo ir para lá, e os caras do funk querendo ter acesso ao sertanejo.”
“Peão Todo Tatuado” funciona como síntese dessa mistura entre mundos aparentemente distintos. O título já mistura duas imagens fortes: o peão, ligado à cultura de rodeio e ao interior, e o corpo tatuado, associado ao imaginário urbano e ao funk. A parceria com Mariana Fagundes reforça a ponte com o universo do sertanejo mais tradicional, enquanto a construção da música mira o consumo rápido das redes.
O avanço do agrofunk também indica uma mudança maior no sertanejo e, de forma mais ampla, no mercado da música brasileira. O gênero segue como uma das forças centrais da música brasileira, mas deixou de depender apenas da formação tradicional de dupla, modão ou sofrência. Ele se abriu para DJs, MCs, produtores de funk, piseiro, trap e eletrônico. A mistura de estilos, por sinal, é uma das principais tendências do showbusiness atualmente.
Ainda em fase de desenvolvimento, o agrofunk é um rótulo em disputa. Pode mudar de nome, ser absorvido pelo sertanejo ou virar apenas mais uma linguagem dentro do pop brasileiro. É a síntese de um público que não quer mais gêneros isolados, e não vê nenhuma contradição entre ouvir funk e ir ao rodeio.
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