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Tomorrowland: a prova de que viver um sonho não é exagero

Billboard Brasil viveu o 1º finde da edição 2026 do Tomorrowland na Bélgica

Tomorrowland 2026 (divulgação)

Tomorrowland 2026 (divulgação)

Existe uma frase que se repete, quase palavra por palavra, na boca de todo mundo que a Billboard Brasil entrevistou em Boom, na Bélgica, durante o Tomorrowland: “Estou vivendo um sonho”. 

Não importa se é a primeira vez que a pessoa pisa ali ou se é a décima edição que ela não perde. Não importa se veio da Holanda, país vizinho, ou do outro lado do mundo, da Ásia ou da América Latina. A resposta é sempre a mesma. 

E depois de quatro dias cobrindo o primeiro fim de semana do Tomorrowland 2026, na Bélgica, com mais de vinte artistas e dezenas de pessoas do público entrevistados, dá para confirmar: não é força de expressão… é a descrição mais exata que existe para o que acontece ali.

Um sonho que também é realidade

A primeira tentação, ao escrever sobre isso, é chamar o Tomorrowland de escapismo. Afinal, o conceito fala sobre fugir de uma realidade desagradável, criar um mundo paralelo onde tudo é bom. Mas seria simplificar demais, e errado. O Tomorrowland não é uma utopia inatingível: é uma realidade construída, vivida, sustentada por pessoas reais durante os dias em que o festival acontece. A diferença é que existe algo que, fora dali, o mundo raramente consegue sustentar por muito tempo: um objetivo comum entre desconhecidos de mais de 200 nacionalidades, tudo sob o mesmo som e a mesma intenção.

Isso está dentro do próprio slogan do festival, repetido em bandeiras, camisetas e cerimônias de abertura e encerramento: live today, love tomorrow, unite forever (viva hoje, ame amanhã, una-se para sempre). É a tradução direta da filosofia PLUR (peace, love, unity, respect: paz, amor, união e respeito), que nasceu com a cultura rave e continua sendo o pilar não escrito da música eletrônica. Talvez as pessoas não vivam esse lema 100% no dia a dia, infelizmente, mas não tem como negar que ele é marcante. E durante o festival ele ganha prática.

O palco Crystal Garden no Tomorrowland 2026 (divulgação)
O palco Crystal Garden no Tomorrowland 2026 (divulgação)

A própria edição de 2026 leva esse recado no nome do tema: Consciencia. Pela primeira vez na história do festival, um tema não se limita a um ano: ele vai acompanhar o Tomorrowland até 2027 e vai se espalhar por três continentes, com capítulos na Bélgica, na Tailândia (a mais nova edição da marca, que acontece em dezembro deste ano) e no Brasil (no fim de abril do ano que vem). 

O conceito nasce da ideia de que são as emoções humanas que nos conectam entre nós e com o mundo: maravilha, amor, raiva, alegria, desejo e tristeza, seis sentimentos que dão forma literal à cenografia, com esculturas gigantes de rostos humanos erguidas no Mainstage.

Essa vibração ganha ainda mais corpo nas pistas de dança… e a música eletrônica é a melhor escolha para senti-la. Estudos de neurociência mostram que a atividade cerebral de quem escuta música eletrônica tende a se sincronizar com o ritmo que ouve, um fenômeno conhecido como entrainment (ou arrastamento): os batimentos cardíacos e as ondas cerebrais literalmente se ajustam à batida. 12 horas de música, 16 palcos e cerca de 20 quilômetros percorridos o dia todo. Cansa… mas o estado de presença coletiva faz aguentar. 

Existe também um conceito sociológico, cunhado por Émile Durkheim há mais de um século, que ajuda a nomear o que se sente numa pista lotada: a efervescência coletiva. Segundo o francês, trata-se de um estado que toma uma multidão em um mesmo ritual, no momento em que a pessoa sente que faz parte de algo maior do que ela mesma, e as fronteiras entre o “eu” e o “outro” momentaneamente se dissolvem. 

E é exatamente isso que se vê no Tomorrowland. Gente de continentes diferentes, que não fala a mesma língua, mas se comunica com um olhar, um sorriso, um gesto de mão levantada no drop. A música vira a única língua necessária ali dentro, e a música eletrônica sustenta esse tipo de comunhão silenciosa por horas.

Tomorrowland: a Disneylândia dos adultos

Não é força de expressão comparar o Tomorrowland a um parque temático, pois os próprios idealizadores do festival, os irmãos belgas Manu e Michiel Beers, se inspiraram na Disney para criar um universo com narrativa própria e cenografia que não deixa nenhum detalhe de fora. 

Dos palcos às latas de lixo, das pontes às barraquinhas de comida, tudo ali conta uma história. Até quem trabalha no festival, a própria staff, parece atuar dentro de um sonho coletivo.

Ouvimos de Alesso e de mais artitas, em entrevista, praticamente a mesma ideia: que o Tomorrowland é a Disneylândia dos adultos. Faz sentido. Como na Disney, existem cerimônias de abertura e encerramento narradas como se o público estivesse entrando literalmente dentro de uma história. 

E quem sai de lá não sai igual. Armin van Buuren, um dos nomes mais respeitados da cena, nos contou que, provavelmente, no público do Tomorrowland estejam pessoas que se tornarão ministros, CEOs e pessoas que depois de vivenciar aquilo saem para mudar a vida de outras. Carreiras de artistas nasceram ali. Vidas de festivaleiros mudaram ali. Essa é, talvez, a prova mais concreta de que aquele mundo mágico não fica preso ao parque e volta com quem esteve lá.

O palco Rose Garden do Tomorrowland 2026 (divulgação)
O palco Rose Garden do Tomorrowland 2026 (divulgação)

E o clima toma conta muito antes da entrada no festival: já no aeroporto de Bruxelas, o universo do Tomorrowland está espalhado pelas paredes, e a própria cidade de Boom, pequena, vizinha do parque De Schorre, onde tudo acontece desde 2005, se veste com bandeiras do festival em quase todas as casas. É diferente da edição brasileira, realizada no Parque Maeda, em Itu, mais afastado do centro urbano: em Boom, a comunidade local abraça o festival como um evento seu, não apenas hospedado ali.

A Billboard Brasil foi, pela primeira vez, à Bélgica. Cobrimos o primeiro fim de semana (17, 18 e 19 de julho) presencialmente, e assistimos ao segundo (24, 25 e 26 de julho), ao vivo pela livestream oficial, enquanto este texto era escrito. E se existe algo que a experiência confirma, sem exagero nenhum, é isso: o Tomorrowland supera a expectativa e, ao mesmo tempo, comprova exatamente o que todo mundo diz sobre ele. 

Reparamos em detalhes que só quem vive percebe: na Bélgica, em julho, o sol só se põe perto das dez da noite, o que muda completamente a relação do público brasileiro com o tempo: a gente acha, por hábito, que às sete da noite o festival já devia estar no auge, e na verdade ainda é tarde da tarde. Vimos pessoas com pernas engessadas, cadeirantes, gente enfrentando toda sorte de dificuldade física, e mesmo assim ali, vivendo aquele sonho até o fim. 16 palcos é, sabidamente, coisa demais para uma primeira edição só, impossível viver tudo de uma vez, mesmo em quatro dias.

O que fica, no fim, é a sensação de que aquilo que parece fantasia é, na verdade, um recado sobre o que o mundo poderia ser. Por alguns dias, é possível ter esperança de que a música e a cultura tenham o poder de transformar as coisas, e as pessoas saem de lá acreditando nisso, e levando um pouco dessa filosofia para fora do festival. Não é exagero dizer que é um evento que muda vidas.

O palco The Great Library no Tomorrowland 2026 (divulgação)
O palco The Great Library no Tomorrowland 2026 (divulgação)

O Tomorrowland já dura 21 anos, e essa magia não dá sinais de que vai se perder. Além da Bélgica, o festival ganhou vida própria em outras frentes: o Tomorrowland Winter, na neve, o Tomorrowland Brasil, que volta em 2027 sob o mesmo tema Consciencia, e agora a estreia do Tomorrowland Tailândia, em dezembro deste ano. 

Quem não pode ir até Boom pode viver essa mesma energia, tropicalizada e com a identidade brasileira, no Parque Maeda, em Itu. É a mesma atmosfera, a mesma Disneylândia, só que mais perto de casa.