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BaianaSystem (Filipe Cartaxo)

BaianaSystem (Filipe Cartaxo)

O invisível em movimento: uma foto da odisseia do BaianaSystem

O fictício “Ministério do Carnaval” adverte: “O BaianaSystem causa catarse, suor e gruda imagens de alegria na retina já na primeira audição”.

Este alerta de araque poderia ser um recado público real. Cada integrante desta banda/coletivo sabe disso porque acompanha, há 17 anos, a multidão que oscila entre o transe das rodas e a satisfação engajada.

No entanto, as sensações que o folião desavisado sente quando vê as pessoas pulando não são fáceis de entender na primeira vez que se embarca no trio Navio Pirata. No caldeirão do grupo tem dub, reggae, samba-reggae, ijexá, afoxé, cumbia, pagode baiano e rock. 

BaianaSystem no Furdunço em Salvador no Carnaval 2026 (Pedro Soares/Taiana Mafe/Máquina de Louco/Divulgação)
BaianaSystem no Furdunço em Salvador no Carnaval 2026 (Pedro Soares/Taiana Mafe/Máquina de Louco/Divulgação)

A banda é capitaneada por Russo Passapusso, vocalista oriundo do underground da cultura soundsystem; acompanhado por Roberto Barreto, idealizador do projeto e mestre da moderna guitarra baiana; a base sonora é de Marcelo Seco, o SekoBass, e a identidade visual é assinada pelo artista Filipe Cartaxo.

No palco, o sistema se expande com a percussão de Ícaro Sá, a guitarra de Juninho Costa, o Junix, os teclados e programação de Ubiratan Marques, João Meirelles, nos beats, synths e programações, além da presença vocal de Claudia Manzo, que traz influências latinas e contemporâneas.

BaianaSystem no Festival de Verão 2024 (Pedro Soares/Máquina de Louco)
BaianaSystem no Festival de Verão 2024 (Pedro Soares/Máquina de Louco)

O engajamento do Navio Pirata

O Carnaval reafirma o poder das imagens que a banda evoca. Em Salvador, Russo observou uma cena que sintetiza o grupo: enquanto puxava o hit “Lucro (Descomprimindo)”, avistou o presidente Lula e a primeira-dama Janja pulando no camarote.

Mas a imagem que definiu o momento estava logo abaixo: um cordão de garis abria caminho com precisão cirúrgica para cadeirantes em meio ao turbilhão da pipoca.

“Olha como a política é natural e fala de identidade. O espaço de comunhão da rua que vai dos foliões ao presidente e aos garis. O Carnaval sempre foi isso”, reflete Russo. 

Sem dúvida, o Carnaval 2026 do BaianaSystem foi um sucesso de público e crítica, marcado pela potência do “Navio Pirata” em Salvador e São Paulo, além de encontros históricos com Caetano Veloso, Margareth Menezes, BNegão, Chico César e Lazzo Matumbi.

A Ministra da Cultura e um dos maiores expoentes da geração que moldou esse estilo de cantar em trio elétrico e interagir com o público, Margareth Menezes, exaltou o BaianaSystem como um fenômeno musical e também do Carnaval.

Para ela, o grupo promove uma catarse única ao conectar a “força do trio elétrico às raízes afro-brasileiras e tropicalistas, traduzindo questões contemporâneas com sagacidade, irreverência e domínio estético”. Ela sintetiza o impacto da banda destacando sua sensibilidade.

“O BaianaSystem tem talento e inteligência. O grupo entendeu exatamente o poder que tem a música contemporânea afro-brasileira, trazida pelos blocos afros da Bahia, pelo afropopbrasileiro, e a pelas gerações tropicalistas e neo-tropicalistas. Entenderam o poder da mensagem que se transmite com a música, sem perder a leveza”, disse Margareth. 

O átomo da folia: Dodô, Osmar e a eletrônica de rua

A alquimia do trio Navio Pirata do BaianaSystem é indissociável de uma revolução iniciada nos anos 1940, quando Dodô, que tocavam no conjunto Três e Meio, de Dorival Caymmi, criou o pau elétrico para resolver um problema técnico: os instrumentos acústicos não tinham volume para as ruas. 

A invenção marcou o surgimento da guitarra elétrica de corpo maciço no Brasil. Com o instrumento pronto, veio a mobilidade. Em 1950, a dupla Dodô e Osmar  adaptou um Ford 1929, a famosa Fobica, com alto-falantes e baterias. No Carnaval de 1951, com a entrada de Temístocles Aragão, nascia oficialmente o trio elétrico.

Nos anos 1970, Armandinho, filho de Osmar, refinou o instrumento ao adicionar a quinta corda, elevando o trio a um palco de alta performance instrumental.

É nesse domínio da eletricidade de rua que a pesquisa de Roberto Barreto resgatou a figura do inventor preto muitas vezes apagado pela história oficial. “Antigamente, todos os trios tinham duplas de guitarra baiana, algo muito forte e próximo do rock progressivo.

Armandinho e Pepeu Gomes eram referências máximas. Isso me influenciou diretamente”, diz Roberto. Aos 16 anos, ele ouvia o seu vizinho, simplesmente Armandinho, e absorvia os ensaios de nomes como Raphael Rabello e Luiz Caldas

Show do BaianaSystem em Itaparica (BA) (@pedrosoaresfs/@maquinadelouco/Divulgação)
Roberto Barreto no show do BaianaSystem em Itaparica (BA) (@pedrosoaresfs/@maquinadelouco/Divulgação)

Hoje, ele transmite o bastão para Ágata Macedo, que estudou com Aroldo Macedo,  irmão de Armandinho, na “Escola de Música Irmãos Macedo”.

“Ter a Ágata trocando conosco dentro do Navio Pirata é muito potente. Ela traz a sensação de continuidade: uma mulher preta de 22 anos tocando um instrumento criado por Dodô”, destaca Roberto.

BaianaSystem apresenta o ato 'Lundu Rock Show' em passagem pela Europa (@youknowmyface)
BaianaSystem e Ágatha Macedo apresentam o ato ‘Lundu Rock Show’ em passagem pela Europa (@youknowmyface)

Ágata reforça a ideia de legado: “É gratificante ver o público e outros músicos reconhecendo a guitarra baiana. Além disso, tocar com o Beto Barreto — que é uma referência para mim — e com o próprio Russo Passapusso é uma satisfação pessoal. Sinto-me honrada por uma banda com tanta importância me integrar nessa missão de trazer a cultura trieletrizada para a atualidade”.

BaianaSystem reúne multidão em Salvador (Alfredo Filho/ Secom)
BaianaSystem reúne multidão em Salvador (Alfredo Filho/ Secom)

Afinal, o que é o BaianaSystem?

O surgimento do grupo, entre 2009 e 2010, foi fruto de uma efervescência que conectava Salvador ao Brasil. Roberto, Russo e o engenheiro de som Regivan Santa Bárbara uniram a guitarra baiana aos sistemas de som jamaicanos. “Eu produzia um programa de rádio de reggae e música africana na Educadora, e existia o Ministereo Público, um sound system perambulante que atuava nas periferias de Salvador. Isso gerou um movimento muito grande na cena”, explica Roberto. 

A legitimidade dessa mistura é atestada por BNegão, que agiu como um “semeador” do grupo: “Eu vi naquele primeiro momento que a ideia central era a alquimia. Eles herdam isso do Planet Hemp, do Chico Science & Nação Zumbi. A influência ideológica: a coragem de se arriscar e buscar o próprio caminho”. 

Saci comanda a galera no Festival da Virada (Pedro Soares/Máquina de Louco)
Saci comanda a galera no Festival da Virada (Pedro Soares/Máquina de Louco)

Essa força também corre no sangue de SekoBass, primo de Gerônimo Santana, músico fundamental para a cultura do Carnaval baiano e para o surgimento do axé nos anos 1980. “O Seko tocou com Gerônimo por muitos anos e é um dos baixistas mais absurdos do Brasil. Ele sabe colocar o som perfeito entre os tambores”, atesta BNegão.

“Depois, entendemos que o BaianaSystem era muito mais do que a união da guitarra com o sistema de som; tornou-se um sistema de cantos e referências de muitos lugares. É a Bahia ampla: a capital, o Recôncavo e o interior. Entendemos o BaianaSystem como esse laboratório que ele é até hoje”, define Roberto.

A cumbia argentina, a guitarra baiana e o grande sucesso

O BaianaSystem traz a essência latina em suas influências e no modo de compor, processo onde a música está sempre em movimento. Um marco dessa criatividade é a história de “Lucro (Descomprimido)”, o maior hit da banda. A base surgiu em 2010, no primeiro trio do grupo, a partir de um tema instrumental do argentino Mintcho Garramone.

A composição era tocada ao lado de nomes como Roberto Barreto e Ramiro Musotto — outro músico argentino genial, um dos pilares da música sul-americana e baiana e uma das maiores influências do BaianaSystem.

Sobre a evolução da faixa, BNegão recorda: “A gente tocava direto e fazia rimas em cima. Dois anos depois, o Russo colocou voz, fez uma letra e ela virou ‘Lucro’. Isso mostra como a música deles está sempre se transformando.”

No Carnaval 2010, Russo Passapusso, BNegão e Roberto Barreto no show em homenagem a Ramiro Musotto (Filipe Cartaxo/Máquina de Louco)
No Carnaval 2010, Russo Passapusso, BNegão e Roberto Barreto no show em homenagem a Ramiro Musotto (Filipe Cartaxo/Máquina de Louco)

O fotógrafo do som do berrante ao sound system

A gênese criativa de Russo Passapusso nasceu no sertão de Senhor do Bonfim, na forma como ele aprendeu a “ver” o som através da limitação visual de seu pai, Roosvell. O patriarca perdeu a visão em um acidente com dinamite na infância. “Consigo ver música, sabe? Por causa da limitação visual do meu pai, sempre quis ver o som”, revela.

Essa ideia do som visual transformou o silêncio da roça, o aboio dos vaqueiros e o som do berrante em imagens fundamentais.

“Minha primeira lembrança é dos discos. Eu ouvia discos como se estivesse lendo livros. Eu sempre fui apaixonado pelo invisível que nos move”, conta Russo Passapusso. 

Russo Passapusso, do BaianaSystem
Russo Passapusso, do BaianaSystem (@monteiro.gab)

Ao migrar para a capital, essa “visão” encontrou a estética de Filipe Cartaxo. A identidade visual do grupo usa máscaras e “caretas” de Maragojipe para criar um “Carnaval do Invisível”. “A gente precisava ver para refletir. Quando vemos as pessoas pulando, os graves mexem com o equilíbrio e deslocam nossa identidade”, analisa Russo.

Essa catarse é legitimada a cada show e a cada navegação do trio Navio Pirata e nos shows ao redor do mundo da banda.

BaianaSystem
BaianaSystem (Divulgação)

A música que se vê

Em 2019, o registro do cinegrafista Nick Gomes viralizou. Ele filmou em slow motion uma roda entre os amigos no Memorial da América Latina, em São Paulo, durante uma apresentação da “Máquina de Louco”, nome do selo independente e da plataforma sonoro-visual do BaianaSystem. O vídeo chamou a atenção por ser uma prova física do transe coletivo.

“Sempre é legal ver o BaianaSystem e é difícil explicar para quem nunca foi. Aí no dia eu estava junto de uns 15 amigos e me veio a ideia de mostrar como o som mexe com eles. Não tinha a intenção de viralizar, mas é bem massa capturar a emoção da galera e sentir que curtiram porque foi um momento verdadeiro”, explica Nick.

Periferia global: de Salvador para o mundo

O que começou nas ruas de Salvador ganhou o mundo. Da trilha do game “FIFA 16” ao Grammy Latino por “O Futuro Não Demora”, o grupo expandiu seu diálogo. A presença da chilena Claudia Manzo simboliza essa busca: “Sobre a língua, acho que é uma colonização mental dizer que brasileiro não entende ou aceita espanhol. Eu faço show aqui em espanhol e as pessoas correm atrás. Existe um diálogo real”, afirma Claudia analisando a latinidade sempre presente no grupo.

Ela destaca que a banda convida o outro para dentro do seu sistema, criando um território onde o migrante e o estrangeiro encontram seu lugar de fala e pertencimento.

Além de Claudia, o grupo já contou com a colaboração do ícone franco-espanhol Manu Chao na faixa “Sulamericano” e da angolana Titica em “Capim Guiné”.

Show do BaianaSystem em Itaparica (BA) (@pedrosoaresfs/@maquinadelouco/Divulgação)
Claudia Manzo no show do BaianaSystem em Itaparica (BA) (@pedrosoaresfs/@maquinadelouco/Divulgação)

Agora, o grupo prepara dois grandes lançamentos: o álbum “O Mundo Dá Voltas Dando Voltas pelo Mundo”, previsto para maio, e a opereta “Línguas e Léguas”, que integra a trilha da segunda temporada de “Cangaço Novo”, com estreia em 20 de março. O disco revisita sucessos da banda e conta com participações de peso.

A atriz Alice Carvalho, parceira de composição e performance da banda, recorda o impacto do primeiro encontro: “Não esqueço da primeira vez que vi o olhar de Russo para o público. Aquilo me impactou. Lembro do calor que as músicas e o espetáculo de luz e som evocavam”.

Sobre a obra para a série, Alice explica o desejo de “descristalizar” a imagem do Nordeste: “Pensamos na constante invenção — e desinvenção — da região.

Na primeira temporada, tivemos um assalto em plano-sequência com trilha entrecortada. Para a segunda, a ideia foi inversa: fazer um assalto imenso, com cenas picotadas, mas onde o plano-sequência fosse sonoro com a opereta”.

Alice Carvalho e Russo Passapusso na voz do Navio Pirata (Beto Lemos/Máquina de Louco)
Alice Carvalho e Russo Passapusso na voz do Navio Pirata (Beto Lemos/Máquina de Louco)

“O Baiana não é só rock, nem só samba; é cada um com seu quadrado montando uma imagem que a gente não esperava”, resume Russo.

Ao unir o grito das ruas de Salvador ao cenário global, o BaianaSystem segue como a fotografia mais nítida de um Brasil que pulsa entre a festa e o pensamento crítico.

Veja a entrevista do BaianaSystem à Billboard Brasil

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Capa BaianaSystem