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Paulinho da Costa, o brasileiro que colocou o mundo para dançar

Paulinho da Costa (Divulgação)

Paulinho da Costa (Divulgação)

Aos 77 anos, o músico do Irajá que gravou com Madonna, Quincy Jones e Michael Jackson tem sua história contada em documentário patrocinado por Johnnie Walker que revela como o Brasil está presente nos maiores hits da música pop

Ele é o brasileiro mais ouvido do planeta e você provavelmente nunca ouviu falar seu nome. Nascido em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Paulinho da Costa construiu uma carreira tão vasta quanto silenciosa. Na verdade, silenciosa apenas no que diz respeito à sua exposição pública, porque, musicalmente, sua maneira ímpar de tocar percussão atravessou cinco décadas de maneira estrondosa. Com mais de 6.000 gravações no currículo e quatro álbuns solo, o percussionista é o nome por trás dos sons que fazem o mundo dançar desde os anos 1970. Mas seu reconhecimento sempre obedeceu a uma lógica cruel: enquanto Michael Jackson o chamava de “o maior percussionista do mundo” e estrelas como Madonna, George Benson e Whitney Houston disputavam sua presença em seus discos, no Brasil ele permaneceu como um segredo bem guardado dos músicos e dos aficionados mais obsessivos.

Essa injustiça começa a ser reparada agora com dois acontecimentos históricos. O primeiro é um documentário produzido pela Nuclear e patrocinado por Johnnie Walker que será lançado pela Netflix. Dirigido por Oscar Rodrigues Alves e produzido por Alan Terpins, o filme estreia após uma década de produção e promete revelar ao grande público a dimensão do impacto de um dos maiores gênios da música mundial.

O segundo é a iminente estrela na Calçada da Fama de Hollywood, que fará de Paulinho o primeiro brasileiro nato a receber a honraria, um feito que, ironicamente, precisou ser celebrado nos Estados Unidos para que o Brasil finalmente voltasse seus olhos para um de seus maiores talentos musicais.

“A história desse músico nascido em Irajá e considerado por Michael Jackson ‘o maior percussionista do mundo’ é tão encantadora que conseguimos montar um time espetacular”, conta Alves. O filme, que começou a ser idealizado em 2009, enfrentou seis anos de negociações até que as filmagens enfim pudessem começar, em 2015. O motivo da demora? O mesmo que explica a aura de mistério em torno de Paulinho: sua natureza reservada, avessa aos holofotes, combinada à complexidade de liberar os direitos das centenas de faixas em que ele aparece. “É um filme impossível de ser realizado”, brinca o diretor, que só conseguiu viabilizar o projeto com um time de peso: o produtor executivo Glen Zipper (vencedor do Oscar por “Undefeated”), o supervisor de roteiro Doug Blush (três vezes premiado pela Academia), o diretor de fotografia Darran Tiernan (de “Westworld” e “The Penguin”) e o engenheiro de som Moogie Canazio (vencedor do Grammy).

“Eu ouvia muito o Michael (Jackson) e ele ouvia muito minha opinião também. Ele prestava muita atenção nas pessoas. Acreditava muito no seu talento e em si próprio. Talvez eu tenha aprendido isso”

As filmagens percorreram Los Angeles, Vancouver, Rio de Janeiro, São Paulo e Cachoeira, na Bahia, capturando depoimentos de nomes que já nos deixaram, mas seguem eternizados na música, como Quincy Jones, Bill Withers e Lalo Schifrin, e de outros como George Benson, integrantes do Earth, Wind & Fire, will.i.am, além de brasileiros como Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho e Alcione, parceira de Paulinho no início de sua trajetória.

“Fazer esse documentário foi uma jornada muito especial. Olhar pra trás e relembrar tanta coisa e tanta gente. Foi muito importante mesmo”, revela o percussionista à Billboard Brasil, em rara entrevista -falar muito raramente com a imprensa foi um dos ensinamentos de Michael Jackson que Paulinho levou pra vida. ”A qualidade imensa dos músicos e artistas com que trabalhei. A qualidade das músicas em que dei minha contribuição. Muito valor mesmo no meu trabalho. Tudo muito especial. Mas quem vai descobrir alguma coisa sobre mim mesmo é o público que vai assistir esse trabalho de muitos anos”, completa.

A chegada aos Estados Unidos nos anos 1970 foi decisiva para o deslanche de sua carreira. No início, Paulinho esbarrou na burocracia imigratória, mas conseguiu seu green card com ajuda de conexões importantes que a música lhe proporcionou. Já estabelecido nos EUA, ele pôde provar que era muito mais do que um músico “exótico”, era um artista completo.

A partir daí, a carreira de Paulinho da Costa se confunde com a história da música pop. Ele se tornou músico de estúdio requisitadíssimo em Los Angeles, gravando com artistas que formam o panteão da cultura mundial. Fez amizades longevas com o papa da produção musical, Quincy Jones, trabalhou com o pai e a mãe do pop dos anos 80, Michael Jackson e Madonna, claro. Levou ideias que marcaram gravações de grupos como Earth, Wind & Fire, inventou inúmeros instrumentos e, agora, prestes a ganhar uma estrela na Calçada da Fama e ter sua vida recontada em documentário, sente que cumpriu com seu dever – e que não seria nada mau ter sua importância reconhecida por gerações mais jovens.

“É importante falar da era em que a música pop abriu as portas para influências diferentes. Tinha pitada de tudo, de jazz ao samba. Foi beber de tudo que existia mundo afora. E, ainda bem, eu estava por perto!”

Um encontro que merece ser decupado antes de seguirmos com a entrevista completa aconteceu durante as gravações de “Thriller”, um disco que dividiu a carreira de Michael Jackson entre antes e depois. Paulinho esteve presente nas gravações do álbum mais vendido de todos os tempos. Se tornou um homem de confiança de Michael, ensinou e aprendeu com ele. “Eu ouvia muito o Michael e ele ouvia muito minha opinião também. Ele prestava muita atenção nas pessoas e acreditava muito no seu talento e em si próprio. Talvez eu tenha aprendido isso. Acreditar em si próprio. Ter certeza de seu talento”, lembra.

O documentário que estreia em breve promete mostrar a conexão entre o menino do Irajá e o músico aclamado no mundo inteiro. E, ao fazê-lo, escancara uma verdade incômoda: o Brasil muitas vezes ignora seus próprios gênios. “Me emociona saber que agora, com a estrela na Calçada da Fama e o documentário, talvez os brasileiros passem a me conhecer melhor”, reflete Paulinho.

Como são raras as entrevistas com esse craque que nos enche de orgulho verde-amarelo, que tal adentrar em seu universo, lendo sobre lendas, amizades e percussão.

Não posso deixar de perguntar sobre o documentário que foi anunciado na SIM SP no ano passado. O que você descobriu sobre si mesmo ao ser forçado a olhar para trás e organizar a própria história em forma de filme?

Olha, fazer esse documentário foi uma jornada muito especial. Olhar pra trás e relembrar tanta coisa e tanta gente. Foi muito importante mesmo. A qualidade imensa dos músicos e artistas com que trabalhei. A qualidade das músicas em que dei minha contribuição. Muito valor mesmo no meu trabalho. Tudo muito especial. Mas quem vai descobrir alguma coisa sobre mim mesmo é o público que vai assistir esse trabalho de muitos anos.

Precisamos falar de lendas, e nenhum desses encontros teria sido possível se não fosse você uma das maiores delas. Dizzy Gillespie apresentou você a Norman Granz, que te apadrinhou e viabilizou seu Green Card. O que foi mais difícil de atravessar: a burocracia para ficar nos EUA ou o peso de ser visto como “o brasileiro que toca de verdade” num mercado que muitas vezes trata nossa música como material “exótico”?

Vamos lá! Imigração e Green Card já eram complicados naquela época, muita burocracia e papelada. Como eu viajava muito em turnês pelo mundo, era sempre muito complicada a questão da saída e reentrada nos Estados Unidos. Mas, com muito trabalho e ajuda de grandes amigos conseguimos superar essa parte. Já em relação a ser um percussionista brasileiro trabalhando nos Estados Unidos, foi muito natural pra mim. Jamais gostei da palavra “exótico” e como sempre fui muito profissional e certeiro no meu trabalho, eu nunca fui visto como “brasileiro exótico” ou “caricato”. Muito pelo contrário, sempre fui bastante respeitado por todos. Por causa do meu talento, que trouxe do Brasil, e do meu profissionalismo.

Outro amigo seu que todos amamos foi Quincy Jones. Quando foi que a admiração profissional deu lugar a algo que só dois músicos que já viram de tudo podem compartilhar; silêncio, talvez?

Desde o primeiro trabalho que fizemos juntos, houve um respeito mútuo muito grande. Eu o respeitava como músico e ele me admirava como músico. E esse respeito rapidamente virou uma grande amizade. Ele gostava muito não só da música do Brasil, mas também da cultura brasileira, da nossa língua e dos nossos costumes. Frequentei bastante a casa dele. Nós éramos uma grande família. Apresentei muita gente pro Quincy e ele apresentou muita gente pra mim. Era delicioso conversar com ele. E o papo ia longe. Falávamos de tudo! Desde viagens até racismo, mas sempre voltávamos nos nossos assuntos preferidos: família e música, claro!

Você lançou alguns discos solo. O primeiro, “Agora” (1977), é simplesmente fabuloso. Ser “solo” exigiu de você uma coragem diferente da exigida para ser músico de estúdio?

Fazer disco solo foi muito diferente do que tocar nos discos de outros artistas. A responsabilidade foi bem diferente. Exigiu uma confiança muito maior, foi um esforço que não estava acostumado. A Pablo Records, que lançou os discos, estava acostumada com um jazz bem tradicional. E o meu estilo trouxe um sabor que era novidade pra eles. Com o “tempero” brasileiro e africano. Trabalhar, controlar equipe e entregar tudo no prazo era uma loucura mesmo! Foi muito enriquecedor poder ter o controle do que estava sendo feito. E trouxe, claro, muita satisfação pessoal.

Um dos pontos “famosos” do seu CV é que você não só tocou em “La Isla Bonita” como deu nome à música. Quarenta anos depois, o que você entende sobre como seu nome foi parar ali e mais ainda o que isso diz sobre o lugar do músico de estúdio, que às vezes está mais dentro da canção do que o próprio intérprete?

Algumas histórias que circulam por aí não são verdade. E essa é uma delas. Eu nunca disse que dei o nome da música, mas numa entrevista o jornalista publicou que eu tinha dado o nome. E isso acabou saindo em vários lugares. Contribuí bastante para essa música e ajudei também na tradução de uma frase que a Madonna canta (Te Dijo Te Amo). Só isso! Em relação ao músico de estúdio estar mais dentro da música do que o próprio intérprete pode acontecer mesmo. Eu quando tocava em alguma música, mergulhava fundo naquela canção. Queria contribuir para ela ficar ainda melhor. Mas não qualquer contribuição. Tinha que fazer sentido. Artisticamente mesmo. Já aconteceu de eu ir pra uma sessão e acontecer ao contrário: de eu falar que aquela faixa não precisava de nada mais. Tava pronta. E é essa sensibilidade que o músico deve ter!

Agora quero tirar a limpo algumas lendas, tá? É verdade que você tem mais de 200 instrumentos de percussão? Tem também a história das duas colheres de cozinha usadas em “Brazilian Rhyme”, do Earth, Wind & Fire. Como acontecem essas ideias de pegar um objeto e sair fazendo música com ele?

Sim! É verdade. Tenho bem mais de 200 instrumentos de percussão. Um dos meus primeiros instrumentos foi a mesa da minha casa quando eu era ainda criança. Batucava nela sem parar!! No caso de “Brazilian Rhyme”, eu toquei uma colher especial, feita para percussão mesmo. Ela trouxe uma levada que marca bem o ritmo da música com muito groove. E essas colheres foram inspiradas em colheres de cozinha. A música está em todo lugar. O segredo é saber ouvir a música no nosso dia a dia.

Momento de orgulho: foi aprovada sua estrela na Calçada da Fama. Você será o primeiro brasileiro nato a receber essa honra. No Brasil, porém, você é ídolo de nerds da música (como eu), mas não tem a popularidade que merece. Como essa constatação te atravessa emocionalmente?

A estrela na calçada de Hollywood me deixou muito feliz! Um reconhecimento enorme do meu trabalho. Muito curioso é que grande parte do meu trabalho aconteceu em Hollywood. Vários estúdios em que gravamos músicas importantíssimas ficam ou ficavam em Hollywood. E isso tem um gostinho especial! Já a questão de não ter uma popularidade enorme não me afeta muito. As pessoas que precisavam saber quem eu era, sabiam. A indústria da música sempre soube de mim. Quem é louco por música dessa época, também sabe quem sou eu. Não ser conhecido do público em geral nunca foi um problema pra mim. E agora com o documentário, mais gente vai descobrir o meu trabalho!

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Você gosta de ouvir o clique enquanto grava?

Sim! Eu gosto do clique no fone de ouvido, sim. Mas tenho a fama de ser um metrônomo humano! O Michael Jackson falava isso. E falava também que eu marcava o tempo com a boca enquanto tocava.

Pergunta do meu amigo nerd maravilhoso, o produtor Felipe Vassão: Você que levou pros EUA o shaker de Yakult? A LP lançou um shaker que é copiado dessa gambi brasileira, o Felipe acha que foi você que levou pros EUA. É fato?

Essa é mais uma das histórias e lendas que não são verdade. Engraçado como essas histórias vão tomando vida própria né? Eu criei muitos instrumentos na minha jornada. Teve até aquelas caixas de charuto em forma de canudo que transformei em shakers. Mas não garrafinhas de Yakult.

E a polêmica da garrafa em “Don’t Stop Til You Get Enough”? A Sheila E andou falando por aí que foi ela que gravou… Mas não foi você?

Olha. Eu posso responder o que sei. Mas nunca o que não sei. A primeira vez que ouvi a música foi numa fita demo do Michael. Quando o Quincy começou a produzir a faixa, ele me chamou. Entrei no estúdio e fiz toda a minha parte. Se depois das minhas gravações ele gravou de novo com mais alguém, aí eu não sei. Como falei antes, não posso dizer.

Você começou na ala jovem da Portela. O que o samba de (terreiro) e o chão de fábrica dos estúdios de Los Angeles têm em comum, além de você?

Acho difícil fazer essa ligação entre samba e os estúdios de Los Angeles além do fato de eu ter trazido pra música pop americana um tempero genuinamente brasileiro. Talvez seja a falta de preconceito que ligue as duas coisas. Música é algo mundial, atravessa fronteiras e não existe espaço para preconceito dentro dela. E foi isso que deu abertura pra esse tempero brasileiro na música mundial.

Se pudesse esconder uma única coisa do documentário — um arrependimento, uma história que não quer reviver, um dia em que quase desistiu… o que seria, e por que isso não vai entrar no filme?

Não tenho nenhum arrependimento do documentário. Muito pelo contrário. Foram mais de 10 anos de muito trabalho. Tudo o que está lá me deixa com muito orgulho e felicidade. Mesmo os desafios. Tudo contribuiu para essa história de vida maravilhosa. A gente só se arrepende do que faz e nunca do que não faz não é mesmo? Eu fiz tudo da melhor maneira possível. Sempre!

Aos 77 anos, com mais de 6.000 gravações, estrela na calçada, participações em músicas ganhadoras Grammy e Oscar de trilha sonora, amizade com lendas. O que Paulinho da Costa ainda não fez e precisa fazer antes de considerar que a música terminou com ele?

Chegou a hora de deixar a nova geração tomar o seu lugar. Acho que o documentário vai ser um instrumento importante pra quem está chegando no mundo da música ver como foi feito no passado. Ver como respeitar o trabalho de tantos artistas diferentes por aí. E vou ajudar como eu puder essa nova geração!

Michael Jackson, “Thriller”, 1982. Você tá ali no estúdio, tocando instrumentos que milhões de pessoas ouviriam sem saber que eram tocados por um brasileiro. Quarenta e três anos depois, o que você ouve quando volta a “The Lady in My Life” ou “Baby Be Mine” e o que Michael, que era um obsessivo por som, te ensinou de mais valioso?

Eu ouvia muito o Michael e ele ouvia muito minha opinião também. Ele prestava muita atenção nas pessoas. Acreditava muito no seu talento e em si próprio. Talvez eu tenha aprendido isso. Outra coisa que aprendi com ele, sei que você não vai gostar muito, foi não dar muitas entrevistas! Mais do que essas músicas específicas, acho importante falar dessa época. Dessa era. Foi quando a música pop, principalmente americana, abriu as portas para influências diferentes. Tinha pitada de tudo, de jazz ao samba, a música pop foi beber de tudo que existia mundo afora. E, ainda bem, eu estava por perto!E