Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Trilha de ‘Os Outros’: Dany Roland une sons da roça e terror

Os Outros (Divulgação/Globoplay)

Os Outros (Divulgação/Globoplay)

Dany Roland não é apenas um produtor musical; é um arquiteto de atmosferas. Com uma trajetória que atravessa décadas de inovação na cena cultural brasileira — desde o seu papel como baterista da  banda Metrô nos anos 1980 até sua consolidação como um dos mais inventivos sound designers e diretores musicais do país — Dany possui a habilidade rara de transformar silêncio em tensão, surpresa e catarse.

Nesta terceira temporada da série “Os Outros”, da TV Globo, ele leva o espectador para o campo, mas engana-se quem espera a calmaria bucólica. Em entrevista exclusiva para a Billboard Brasil, Dany Roland detalha como transpôs a crueza urbana das temporadas anteriores para uma orquestração orgânica, onde o ruído da natureza se torna instrumento e a música minimalista dita o ritmo da intolerância.

Qual foi o conceito da trilha sonora desta nova temporada?

O conceito da trilha sonora desta temporada e das anteriores é que a música emocione, surpreenda e divirta. Mas também é importante que a música seja muitas vezes transparente ou subjetiva. Não é para ser escutada ou ouvida, mas sim sentida através de frequências, texturas, harmonias, timbres, dissonâncias, sons mecânicos e da natureza.

De que forma a ambientação no campo conceituou seu trabalho?

A ambientação no campo foi um grande presente porque a música não é separada do mundo. Desde as temporadas anteriores, os sons ambientes são parte fundamental da trilha e da música. Não separo ruído da música. Muito pelo contrário. Os ruídos são essenciais no conceito da trilha de “Os Outros”. No caso da terceira temporada, foi um prato cheio porque, além de sons fascinantes da natureza e do mundo, como a chuva, a brisa e o vento, temos a fauna, os cantos dos pássaros, araras, gansos, cachorros, etc. É uma verdadeira orquestra. Não usamos esses sons do mundo como efeitos sonoros, mas como instrumentos musicais.

De que forma a escolha das músicas vem a construir a atmosfera de suspense e tensão que compõem o DNA da série desde a primeira temporada?

Em termos musicais, qualquer música pode ocorrer em qualquer combinação ou continuidade. Criar ambiguidade, suspense, terror, tensão, tristeza, alegria e contraponto através de melodias, harmonias, colagens, filtros e circuitos. Nesta temporada, contei com a participação da cantora japonesa Mio Matsuda, que gravou as vozes em Kyoto em “Omoide” e “Gengitsu Ga Oduru” (passei parte do ano passado, 2025, trabalhando no Japão, por isso muitos títulos em japonês); com o guitarrista Pedro Sá em “Feitiço do Tempo” e “Valsa da Despedida”; com Murilo O’Reilly em “Catarse”; e também de Virginie Boutaud, que gravou de Toulouse, na França, as faixas “Ciel Bleu” e “Perdidamente”.

Que tipos de gêneros / músicas foram escolhidos para compor este universo?

Música minimalista, padrões repetitivos, drones constantes, harmonia consonante e reiteração de frases musicais e unidades menores que se repetem sem parar. Exemplos são as faixas “Os Outros”, “Sunrise”, “Acaso”, “Hokai Suru” e “Desespere”. Há também a música percussiva. Desde a primeira temporada, tenho gravado e usado tambores japoneses, o Taiko (literalmente tambor). O Taiko era considerado divino. Aparece em “Seishin Hokai”, “Acaso”, “Ogum” e outras. Usei música regional também. Pela primeira vez em “Os Outros” gravei bastante viola caipira e sons de fole (acordeão e harmônio), que são instrumentos tradicionais do campo, da roça, como em “Feitiço do Tempo” e “La Santa Espina”. Há música clássica com piano, cordas, sopros e sintetizadores, como em “Concerto N2”, “Reverie” e “Gluck”. E ainda música eletrônica ou ambiente, como em “Kuno”, “Romaji” e “Kiken”.

Existe música-tema dos personagens e/ou núcleos?

As músicas são bem democráticas e podem servir a todas e todos. Em termos musicais, quaisquer sons podem ocorrer em qualquer combinação ou continuidade. O tema de “Os Outros” volta em nova versão, com um novo arranjo emotive, e “As Quatro Estações” de Vivaldi aparece desta vez em uma versão para acordeão.

Existe alguma música original nesta temporada?

Quase toda música é original e autoral. São em torno de 90 músicas. Algumas são reinterpretações livres de obras clássicas ou eruditas de Vivaldi (“As Quatro Estações”, marca registrada de “Os Outros” desde a primeira temporada), Beethoven (gravado por uma orquestra de cordas na Lituânia), Ravel e Debussy, entre outros. Meu processo de criação é muito livre e anárquico. Começo a criar a partir da leitura do roteiro muito antes de ver qualquer cena. Depois vou recebendo os episódios e gravo muito mais. Mudo tudo. É literalmente um work in progress que só acaba na entrega da mixagem final, que é o momento-chave. Em companhia da diretora artística Luisa Lima, da diretora Lara Carmo e do engenheiro de som Luis Rodrigues, tudo é questionado, repensado, transformado ou desfigurado e desconstruído.

Sobre “Os Outros”

A série original Globoplay “Os Outros” amplia a discussão sobre intolerância e dificuldade de diálogo na sociedade atual em um universo inédito: o campo. Com este novo território, a obra provoca reflexões sobre os limites da convivência, da moralidade e até onde somos capazes de ir para proteger quem amamos. No elenco, Adriana Esteves, Lázaro Ramos, Mariana Lima, Antonio Haddad, Docy Moreira, Adanilo, Pedro Wagner, Carol Duarte e Bruno Garcia. Oito episódios já estão disponíveis no Globoplay, com os quatro episódios finais chegando nesta quinta-feira (23).