Opinião: Anitta criou uma nova categoria musical?
Gustavo Luveira, sócio da Bono Casa de Música, fala sobre nova era da cantora

Anitta (Divulgação)
Nas últimas semanas, todo mundo decidiu que Anitta inventou uma categoria. Influenciador, veículo, coluna de fim de semana, todo mundo repetindo a mesma tese sobre “EQUILIBRIVM”: a de que ela criou um lugar só dela no mercado da música, indefinível, sem comparação possível. Concordo que o disco é um marco, mas discordo do motivo que estão apontando pra isso.
O que sustenta “EQUILIBRIVM” não é a versatilidade. É a coragem de tratar a religião como matéria-prima, não como estética emprestada.
Isso aparece em detalhe técnico antes de aparecer em discurso. Felipe Britto, sócio-fundador da Ginga Pictures, produtora que já soma mais de 100 projetos com Anitta, contou à CNN Brasil que o processo começou com mais de 100 áudios dela descrevendo o que sentia: referências espirituais, lugares afetivos, memórias. O disco nasceu como conversa íntima sobre onde ela estava na vida, e só depois virou conceito, que virou os quatro atos do primeiro bloco audiovisual: Despacho, Fé e Festa, Deus Mãe, Renascimento.
+ Leia mais: Como foi criada a nova turnê de Anitta
A régua que ela impôs para a equipe técnica também não deixa dúvida sobre onde está o centro do projeto. O branco da iniciação no candomblé, o vermelho da Pombagira, o dourado, o preto, o prata: nada ali é decorativo, cada cor carrega significado ritual verificado. As máscaras vêm de um mestre que vive essa tradição há décadas. Os movimentos de coreografia nascem de pesquisa real sobre gestos de incorporação. Segundo o próprio produtor, a exigência inegociável desde a primeira conversa foi clara: nenhum elemento religioso poderia ser tratado como exotismo, como pano de fundo bonito. Tudo que aparece em tela precisava ter base, consulta, propósito.
Isso é decisão de artista, não de mercado. E fica ainda mais evidente quando a própria Anitta assume o discurso. “Esse álbum não é sobre religião, é sobre um estado de espírito, coisas que acredito não no sentido apenas religioso”. Sobre o preconceito que motivou anos de silêncio: “Existia muito essa vergonha, pelo julgamento das pessoas, de estar em público com uma religião que sofre tanto preconceito.” E sobre quem fica de fora da conta: “Não fiz esse álbum pensando em um público conservador.” Sobre quem frequenta seus shows, foi direta: “Não são eles que vão no meu show.”

Convicção também vende — e vende melhor
Aqui mora o ponto que eu queria puxar. Vivemos um momento em que o artista virou, cada vez mais, consequência do mercado. Testa formato, mede engajamento, ajusta discurso pela reação do público antes mesmo de ter certeza do que quer dizer. É o percurso mais seguro e também o mais raso. Quando aparece alguém disposta a dizer exatamente o que acredita, sem editar a convicção pra caber em todo mundo, o efeito costuma ser o oposto do que a lógica de mercado prevê. Esse artista não perde audiência. Ganha profundidade com quem já estava ali, e ainda atrai quem andava procurando justamente esse tipo de verdade.
A religião potencializa esse efeito porque é um dos temas mais sensíveis da cultura brasileira, e também um dos mais mal resolvidos. O Brasil tem candomblé e umbanda historicamente perseguidos, terreiros atacados até hoje, uma maioria que finge não ver o preconceito e uma minoria que convive com ele todos os dias. Escolher esse terreno para fazer arte, com o nome e o rosto de quem está no topo do pop, não é estratégia de posicionamento. Me parece um risco calculado a favor de uma convicção pessoal, algo cada vez mais raro justamente porque expõe o artista a um julgamento que a maioria prefere evitar.
É por isso que insisto no ponto: chamar “EQUILIBRIVM” de “nova categoria” esvazia o que há de mais interessante no disco. A categoria não é o resultado. É a origem, uma artista que decidiu que sua fé merecia ocupar o centro do trabalho e estava disposta a pagar o preço de quem escolhe isso no Brasil de hoje.
O mercado vai continuar chamando isso de estratégia, porque é mais confortável explicar sucesso por cálculo do que por convicção. Mas convicção, quando é real, também vende. E vende melhor, porque quem compra sabe reconhecer verdade quando vê.
Ouça Anitta
Gustavo Luveira é sócio do Bona Casa de Música, espaço independente dedicado à música brasileira. Publicitário, transita entre criação, curadoria e escrita, atuando no desenvolvimento de projetos que investigam música, cultura e comportamento.
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