Mas Pedro ri e continua analisando o seu entorno. “É tudo muito agressivo, voraz e, ao mesmo tempo, eu tenho que brigar pela minha música, mostrar que estou firme e forte. Na minha opinião, não era para ser assim. Mas é. A minha maior ansiedade é lançar meu álbum. Gravar, botar na rua, atingir as pessoas”, ele diz, colocando o trabalho como sua maior angústia, como se não tivesse tempo para as críticas nem para as próprias lamúrias.
Muitos dos maus faladores de Pedro se concentram exatamente no que ele diz ser: o tal do “cara normal”. Apesar de ter se vestido com as armas e as roupas do mercado pop brasileiro –o suficiente para atrair tanto fãs quanto haters–, o produtor tem méritos por ter hackeado o mercado nos últimos cinco anos.
Quando fez isso informalmente, lá pelos 17, angariou simpatia. Mais colorido, autoral e se apropriando de toda fagulha pop que pipocou no Brasil, começou a ser visto como um produto raso, algo que foi inventado por aí, um playboyzinho alçado à fama. A grita não impediu que seus pares do mercado o adorassem. Até porque seu som é potente, capaz de ser ao mesmo tempo limpo e safado, embalando adultos e também crianças.
Seus congêneres também o adoram: ele está, para citar alguns exemplos recentes, em “Funk Generation”, último álbum de Anitta, junto de seu padrinho Dennis DJ; em “After”, remixando a drag queen Pabllo Vittar e o cantor baiano O Kannalha; e em “Atemporal”, de Lulu Santos, numa releitura do sucesso “Tempos Modernos”.
Até na rádio inglesa NTS, quase sempre pouco interessada no pop radiofônico brasileiro, é possível encontrá-lo com “Galopa”, presente em um set dedicado à nova seresta e ao piseiro.
Em momento nenhum, Pedro parece interessado em pensar nas críticas. Falta-lhe tempo. “Você me pergunta como eu estou… Não vou para casa há 15 dias, fico em videochamada com minha família para tentar matar a saudade, tendo que estar sempre bem para enfrentar o mercado. Ontem eu não dormi, estava ansioso”, confessa, após o ensaio fotográfico que ilustra esta reportagem da Billboard Brasil.
Um dia antes, fez uma maratona de visitas a empresas como YouTube e Spotify para apresentar “ASTRO” e “vender” o álbum –prática comum que o mercado chama de pitch: os executivos precisam ser convencidos pelo artista das possibilida
des que a obra tem. “Acordei com dor no ombro, mas tinha que vir fazer as fotos”, lista o guardião da própria obra. Se não há muito tempo para ele, imagine para quem não gosta dele. A carreira de Pedro Sampaio tem dois momentos cruciais. Um deles, muito conhecido, foi quando “Bota Pra Tremer” penetrou ouvidos em meados de 2018. “Para todas as meninas que gostam de dançar”, anunciava uma faixa que, pouco a pouco, revelava uma das maiores fórmulas do DJ: ser funk e ser pop, com cores mais radiofônicas, que o aproximam do público infantil. Àquela altura, Pedro já havia adquirido o visual colorido que se tornou comum em videoclipes e apresentações.
É uma brisa vê-lo em um passado recente, mas tão diferente –sem assessoria, sem gravadora, sem staff. Mas, ali, já havia o assertivo produtor, tão certeiro quanto sua versão contemporânea, e que já colecionava os primeiros milhões de visualizações. A junção de “Baile de Favela”, “Metralhadora” e “Tá Tranquilo, Tá Favorável” em um único remix (mais precisamente um mashup, quando várias músicas diferentes soam como uma faixa única), por exemplo, atingiu seu ápice viral em uma rede social que morreu e existe até hoje, o Facebook.Escavar esses vídeos demonstra que, como artista, Pedro parece não ter constrangimento de uma fase em que assinava e enviava pelos Correios bonés para fãs, memórias de sua primeira viagem de avião a trabalho ou filmagens que retratam festinhas de iluminação duvidosa. Era o reflexo de um prodígio que, antes dos 20 anos, já exibia uma poderosa CDJ da marca Pioneer –o instrumento dos DJS que, em sua versão completa, pode custar de R$ 20 mil a R$ 50 mil.