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‘Brincadeira ficou séria’: como Ed Gama foi do humor a cantar forró pra valer

Humorista fez aulas quando criança e hoje canta até no Domingão

Ed Gama

Ed Gama cantando forró (Divulgação)

“Será que eu tenho cacife para isso?”. Foi essa a primeira reação de Ed Gama ao receber um convite de Wado para gravar uma música ao seu lado. A dúvida durou pouco, e os chamados têm sido recorrentes para, além de fazer humor, cantar seus forrós. Nos últimos meses, Ed também dividiu o palco do “Domingão do Faustão” com Zé Vaqueiro, recebeu elogios de artistas como João Gomes e começou a transformar uma paixão antiga em um capítulo da sua carreira. Tudo isso sem perder sua característica mais forte: fazer tudo para se divertir.

“Eu comecei quando era criança. A minha avó colocou eu, minha irmã e meu primo para fazer alguma coisa relacionada à música. E eu escolhi cantar. A gente fez aula, participou de recital, cantava em barzinho, no teatro… A escola levou a gente para cantar em inauguração de supermercado lá em Maceió (risos). Foi uma brincadeira que foi ficando séria.”

Como diria Faustão: ‘Ô loco, bicho’

Antes de se tornar um dos nomes conhecidos da comédia brasileira, Ed Gama chegou a se formar em direito. A advocacia, no entanto, ficou para trás após vencer o quadro “Quem Chega Lá”, do então “Domingão do Faustão”, em 2014. O alagoano ficou conhecido pelo humor rápido, o improviso, a comédia stand-up, imitações marcantes, como a do Faustão, e uma infindável lista de referências que tira da manga para fazer rir.

Vieram trabalhos na Globo, no Multishow, no Porta dos Fundos, com o canal Castro Brothers e uma carreira consolidada no humor — mas a música nunca saiu completamente de cena. “Eu parei porque fazia um monte de coisa ao mesmo tempo. Estudei direito, me formei advogado, fazia comédia também. Mas nos meus shows eu sempre cantei. Sempre fiz imitação e sempre gostei muito de forró.”

Foi justamente a família que reacendeu esse lado artístico. “A minha irmã começou a cantar profissionalmente, a fazer shows em Maceió. Vira e mexe ela me chamava para cantar no palco. Outros amigos de banda também me chamavam. Eu comecei a gostar desse negócio de novo. Sempre gostei, mas estava adormecido dentro de mim.”

O retorno começou sem grandes pretensões, cantando nos shows de humor. Ao lado do músico Thiago Fagundes, o Zeca Urubu, Ed passou a gravar vídeos interpretando clássicos do forró para as redes sociais. A resposta do público fez o projeto crescer.

“Num show, eu e o Zeca Urubu começamos a brincar. Eu falei: ‘Cara, vamos gravar isso e postar no Instagram, no YouTube, em algum lugar’. A gente gravou, postou e a galera gostou. Começamos a fazer uns clássicos de Flávio José, Petrúcio Amorim, Oswaldinho [do Acordeon]… Esses vídeos deram certo e eu fiquei empolgado.”

Mesmo com o alcance dos vídeos, ele garante que a motivação nunca mudou. “Sempre foi na intenção de me divertir. Nunca como se fosse uma profissão. Obviamente hoje virou um trabalho, mas surgiu como um hobby, uma brincadeira.” Hoje Ed Gama faz shows, e os ingressos têm ficado disputados, a ponto de ele gravar um especial de forró.

‘Se vira nos 30’

O projeto musical rapidamente deixou de ser apenas uma brincadeira. A releitura de “Mágica”, do Calcinha Preta, ultrapassou 5 milhões de visualizações, enquanto a releitura forrozeira de “Deslocado”, sucesso da banda portuguesa NAPA, ganhou lançamento oficial ao lado de Zé Vaqueiro e já se aproxima de 2 milhões de streams no Spotify.

“Essa música fala dos portugueses que saíram da Ilha da Madeira pra tentar a vida em Lisboa. É um sentimento muito parecido com quem sai do Nordeste, quem sai da sua cidade pra tentar a vida numa cidade maior. Eu adaptei pra realidade da gente. Botei que a minha casa cheira a macaxeira, umas coisas assim que são regionais”, conta Ed, que tem recebido respostas carinhosas de fãs da sua versão. “Muita gente fala pra mim: ‘Cara, essa música é tipo um hino. Era o que eu queria dizer, era o que eu sinto’. É muito bom ouvir isso.”

‘Tá pegando fogo, bicho’

O momento é tão bom que Ed já pode se permitir sonhar alto. “Quem sabe um dia tocar no Palco Mundo do Rock in Rio. A line-up seria eu, Elton John, Lady Gaga e Jota Quest”, brincou.

Os objetivos mais realistas têm um toque emocional. “Eu tenho alguns sonhos. Cantar no São João de Caruaru, cantar no São João de Campina Grande, cantar no São João de Maceió, que é a minha terra. Essas festas populares do Nordeste são lugares onde eu gostaria muito de cantar”, diz ele.

‘Quem sabe faz ao vivo’ (no estúdio)

Além dos shows, Ed já trabalha no primeiro projeto de estúdio.

“Vou começar a colocar a mão na massa para gravar o meu próprio EP, meu álbum. Vai ter música original, vai ter versão de músicas que eu gosto, mas com a minha carinha. A gente começa esse trabalho agora e talvez fique pronto ainda este ano. Vai ser algo muito divertido.”

‘Brincadeira, essa fera’

Nos últimos meses, além do público, o humorista passou a receber o reconhecimento de artistas que sempre admirou. Para ele, esse tem sido um dos aspectos mais marcantes dessa nova fase.

“É engraçado porque você não imagina que as pessoas estejam acompanhando. Muita gente chega para falar. Eu me surpreendi muito com o Tony Ramos falando isso para mim. Outro cara de quem eu sou muito fã é o Jackson Antunes. O João Gomes, quando a gente se encontrou no Domingão, chegou lá e cantou a versão que eu fiz de ‘Deslocado’. O próprio Luciano Huck me deu a oportunidade de cantar com o Zé Vaqueiro no programa. Também cantei com o Tiaguinho. São coisas que surpreendem porque você vê que está atingindo pessoas que você admira e pessoas que acabam te dando oportunidades.”

Outro momento importante foi o convite de Wado para participar de “Esse Trem”, single lançado em junho.

“O Wado é um músico muito virtuoso, um cara que tem uma caneta absurda. Quando ele me chamou, eu pensei: ‘Será que eu tenho cacife para isso?’. É um ídolo para mim. Fiquei muito surpreso, muito feliz, muito nervoso, muito ansioso. Mas vi que ele estava colocando muito coração naquela música. Pensei: ‘Se esse cara está colocando tanto carinho nisso e está direcionando isso para mim, acho que é isso que eu tenho que fazer’. Foi um momento muito feliz.”

‘Sucesso tanto no pessoal quanto no profissional’

O Ed cantor se beneficiou de uma decisão pessoal do humorista, de cuidar da saúde. Segundo ele, o objetivo nunca foi estético, mas de recuperar a qualidade de vida e conseguir trabalhar com mais disposição.

“Quando eu estava no auge dos meus 115 kg, era muito difícil fazer show. Às vezes eu dava aquela corridinha para entrar no palco e já chegava sem fôlego. Na Comic Con de 2024, eu estava com o joelho ferrado por causa do peso. Precisei fazer o último dia de evento sentado. Eu pensei: ‘Estou assim, estou f*****, novo. Por minha culpa mesmo. Não me cuidei. Me abandonei um pouco’.”

Hoje, com 36 anos, ele afirma que a mudança também refletiu na música. “Eu falei que queria chegar aos 35 bem de vida. Nunca foi para ficar magro por vaidade. Foi para melhorar minha qualidade de vida. O fôlego para cantar é uma consequência disso. A disposição para ficar no palco também. A cabeça melhor para pensar, criar e ficar bem mentalmente”. Que Ed siga se divertindo e divertindo.

 

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Ed Gama no palco

Ed Gama toca neste sábado no Clube do Minhoca, em São Paulo. Os ingressos estão à venda no Sympla.