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Como Raquel fez sua versão particular da frase ‘a vida é feita de som e fúria’

Cantora se entrega ao rock no disco 'Não Incendei a Casa por Milagre'

Raquel Divulgacao

A cantora Raquel (Eduardo Pimenta/Divulgação)

O manual do bom jornalismo sugere que não é de bom tom escrever textos muito pessoais –principalmente na análise de um trabalho artístico–, mas esse caso merece ser exceção. Quando Raquel me convidou para a audição de “Não Incendiei a Casa por Milagre”, que chega hoje às plataformas de streaming, pensei que se tratasse do mesmo disco que havia escutado dois anos atrás, um álbum eletrônico que falava sobre ascensão e queda de um personagem no universo do showbiz.

Para a minha surpresa, escutei um disco… de rock! Sete canções (cinco da própria lavra e releituras de “Autotune Erótico”, do repertório de Gal Costa, e “Vidinha”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho), com produção de Moreno Veloso e uma base de músicos formada por Domenico Lancellotti (bateria), Pedro Sá (guitarra), Bruno di Lullo (baixo) e Eduardo Manso (programações eletrônicas). Em temas que vão de amor a desejo e domínio, o quarteto de instrumentistas “senta a mão” em canções que ora pedem algo mais pesado (a faixa-título e “Vidinha”, por exemplo), ora ganham um andamento blues/tango (“Monopólio” e “Ao Vivo”). “Queria dar vazão para falar das minhas toxicidades. Raiva, medo, insegurança. Todos estes sentimentos dos quais, muitas vezes, preferimos ocultar do que expô-los. Acho maravilhoso quem não está com raiva neste momento com tudo que acontece no mundo, mas eu estou com raiva. E precisava falar disso”, desabafa no texto que acompanha a apresentação do disco. 

Em conversa durante a audição, Raquel me explica também que o álbum que conheci foi adiado por vários motivos, entre eles logísticos –era uma produção por demais cara para se levar para os palcos e para a estrada. Penso, no entanto, que passamos por tempos de guerra e os gritos se fazem necessários (e até Domenico, que me encanta desde sempre pela leveza de sua percussão, trava uma conversa mais pesada com o baixo de Di Lullo, enquanto Pedro Sá carrega nos tons dissonantes de sua guitarra). A raiva produz interpretações diferenciadas como “Vidinha”, uma canção resgatada de “Reza”, trabalho de Rita Lee & Roberto de Carvalho de 2012. 

A voz de Raquel, embora mais rasgada por conta da opção pelo rock, tem fúria e doçura na medida certa. É mansa em “Jogador de Futebol” e “Autotune Erótico” e soa indignada em “Ao Vivo” e “Carne dos Meus Versos”. Em suma, tudo o que uma intérprete tem de ser: recriar os versos da história que tem de ser contada, se apropriar do cancioneiro alheio, tornar a canção um relato de sua própria trajetória pessoal. 

De volta à nossa conversa inicial… E o disco que escutei e que tanto encantou? A princípio, está programado para o final deste ano. Mas em se tratando da inquietude de Raquel… Nunca se sabe.