‘Barão Vermelho Encontro’ estreia com hit tabu e Ney Matogrosso
Em entrevista à Billboard Brasil, quarteto detalha 1º show, legado e cena atual

Barão Vermelho Encontro (divulgação)
“Os Beatles duraram 10 anos; o Barão já está aí há mais de 40. É quase impossível de acreditar”, explica e comemora Guto Goffi, o eterno baterista do Barão Vermelho, único membro presente em todas as formações da banda.
Frejat complementa com a sua voz aveludada: “As besteirinhas no TikTok podem até ser o grosso que move a indústria da música hoje, mas isso não dá permanência.”
“Essa formação durou uns sete anos, mas com o Cazuza foi até o Rock in Rio. Para a gente, a impressão era de algo épico, de quase uma década, porque mudamos muito. Saímos do colégio, da adolescência para a idade adulta, para um mundo gigante. Tudo tinha proporções épicas. Realmente parecia que tinha passado muito mais tempo”, diz o compositor e tecladista Maurício Barros.
Dé Palmeira tinha apenas 15 anos quando embarcou com o seu contrabaixo na aventura da banda de rock. Depois que saiu do grupo em 1990, ele se dedicou à criação de trilhas sonoras para documentários como “O testamento: o segredo de Anita Harley” e “Vale o escrito”.
Eles todos refletem sobre a turnê “Barão Vermelho Encontro“, que estreia nesta quinta-feira (30) na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, durante o papo on-line descontraído e um pouco atrapalhado de quinze minutinhos à Billboard Brasil antes do primeiro show.
Mais do que um show, o Brasil tem um apego sentimental com a união roqueira de Roberto Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira. O grupo original tinha ainda a poesia e a histórica voz rasgada de Cazuza (1958 – 1990). A saudade do público se justifica pela quantidade de hists atemporais: “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço”, “Maior Abandonado”, “Por Você”, entre algumas dezenas de outras.
Para o espetáculo no Rio e no Allianz Parque, em São Paulo, a banda contará com a justa e lendária presença de Ney Matogrosso, medalhão da música brasileira que legitimou o som daqueles garotos roqueiros nos anos 1980. Por enquanto, a banda prevê a participação de Ney para um bloco completo que até o momento do papo já tinha 7 músicas previstas para um setlist por volta de 33 clássicos.
Além dos membros originais da banda, o show conta com o suporte de músicos que reforçam sua sonoridade histórica. Entre os músicos estão o guitarrista Fernando Magalhães, veterano do Barão desde 1985, e o percussionista Cezinha, irmão do saudoso Peninha. Somam-se a eles Rafael, filho de Frejat, no violão, guitarra e backing vocals, além da voz de Jhusara e o imponente naipe de metais formado por Marlon Sette, Diogo Gomes e José Carlos Bigorna.
Digo que a conversa foi um pouco atrapalhada porque Guto teve dificuldades para encontrar um bom sinal de internet no hotel, mas a banda esperou pelo baterista. Apesar do imprevisto, a paciência do trio demonstra a relevância da união entre eles: a entrevista precisava ser com todos.
Frejat estava de luto pelo falecimento de seu pai, o ex-deputado federal José Frejat, ocorrido no sábado (25), aos 102 anos. A causa da morte não foi informada. Apesar disso, com o apoio de seus eternos companheiros de banda, o vocalista mostrou-se bem-humorado.
O papo intercalado por problemas de sinal de internet, ajudou no tom. Além do show, o quarteto falou sobre família, Ney Matogrosso, Cazuza, uma música do repertório que causava desconforto e o atual cenário musical.
Leia a entrevista completa com o “Barão Vermelho Encontro” à Billboard Brasil
Pessoal, obrigado pelo tempo. Antes de mais nada, Frejat, meus sentimentos pela morte do seu pai.
Por coincidência, eu já tinha planejado começar esse papo lembrando dos Titãs, do reencontro que eles tiveram e como eles estavam junto da família naquela série de shows que lembra o “Barão Vermelho Encontro”, inclusive com a presença do filho do Frejat.
Qual foi o “start” dessa turnê e qual a influência da amizade e da família nesse processo?
Frejat: Muito obrigado, Alexandre. Eu acho que o estímulo da família é fundamental. Se não tivéssemos esse carinho que temos um pelo outro, por termos começado lá atrás e vivido tudo o que vivemos juntos — bons e maus momentos, discussões, entendimentos, sucessos e fracassos — não estaríamos aqui. Não faria sentido. Temos várias fases na história do Barão, mas esse momento em que começamos, batalhamos pelo sucesso, a saída do Cazuza e a reconstrução da banda… isso foi algo que nós cinco vivemos. Outras pessoas estavam ao lado, como o Peninha e o Fernando, que foram muito presentes, mas naquele momento os membros oficiais éramos nós. Eles eram músicos convidados que deram o sangue, não há como subestimar a participação deles, mas o Barão Vermelho éramos nós quatro a partir da saída do Cazuza, e éramos nós cinco quando ele estava. Essa formação inicial tem um caráter muito específico. Há uma magia nela porque é um momento da vida que não se repete: você garoto, tendo sua primeira experiência profissional, lidando com o mundo sozinho. Éramos nós juntos, mas estávamos sozinhos, sem os pais ou outras pessoas para encaminhar nossa trajetória.
Maurício Barros: Somando a isso, o Cazuza ficou uns quatro anos na banda. Essa formação durou uns sete anos, mas com o Cazuza foi até o Rock in Rio. Para a gente, a impressão era de algo épico, de quase uma década, porque mudamos muito
“Saímos do colégio, da adolescência para a idade adulta, para um mundo gigante. Tudo tinha proporções épicas. Realmente parecia que tinha passado muito mais tempo.”
Vocês sentem o som e a união sonora entre vocês muito diferente daquela de 1982?
Frejat: Tocamos diferente porque aprendemos muita coisa. Aprendemos dinâmica, aprendemos a chegar no som que queríamos com os equipamentos que temos. Aprendemos a escolher melhor os instrumentos e a colocar cada um no lugar onde efetivamente tem que ficar. E aprendemos a valorizar o que foi feito com seus defeitos. Aquelas coisas que antes você faria de novo com um “porém”, hoje você entende que são a virtude da obra. O fato de ter sido feito fora de um padrão é o que há de legal. Nossa missão agora é reproduzir aquilo. É a contribuição milionária de todos os erros. As limitações viraram características.
Dé Palmeira: A contribuição milionária de todos os erros. As limitações viraram características. Hoje, é diferente.
Mauricio Barros: A introdução de “Down em Mim”, por exemplo. Sempre que vou tocar, preciso tirar de novo. Ela foi tocada de forma totalmente intuitiva. Hoje está mais “arrumadinha”, com outras preocupações, mas ela é intuitiva. Tenho muito orgulho, as pessoas me falam: “Cara, eu tinha 17 anos quando fiz aquilo”.
Dé Palmeira: Pra mim você toca igual e soa maravilhosamente bem ainda.
Mauricio Barros: Imagine o primeiro single do Barão Vermelho com uma introdução daquela de piano.
Frejat: A gente não tinha uma ideia de mercado. E as pessoas compraram a ideia de um blues no rádio com aquela introdução grande de piano.
Queria resgatar de vocês a ideia do Cazuza no contexto de show. Inclusive, vocês já fizeram shows com trechos dele cantando no telão porque ele é uma presença constante. É impossível não lembrá-lo.
Maurício Barros: Tem muitas histórias. Vou contar uma que não consigo deixar de fora. Estávamos fazendo um show na Heavy Metal, em Santos. Por algum motivo, tinha um cidadão jogando tulipas de chope na gente — a arquibancada ficava em cima do palco. Descobrimos que quem estava quebrando os copos era o nosso produtor, Ezequiel Neves, que estava adorando o show e jogando os copos para o alto. O Cazuza estava de bota, pisando nos cacos de vidro. Acabou o show e, por algum motivo que só ele explicaria, ele resolveu tirar a bota e voltar para o bis descalço. Obviamente deu ruim e ele se cortou. Era esse nível “punk” do Cazuza nos show.
Dé Palmeira: O Cazuza no palco era devastador. Às vezes acabava o show e eu olhava para ele: “Cara, você cantou demais”. Podíamos estar brigados, mas começava o show e era incrível. Terminava e todo mundo se amava de novo.
Mauricio Barros: O Cazuza era um herói. Quem viu o filme do Jim Morrison sabe; era por ali. Você entrava num trem que podia descarrilhar a qualquer momento.
Frejat: Quando assisti ao filme do “The Doors”, pensei: “Esse filme é o flashback da minha vida”. É louco imaginar que tínhamos uma versão louca, igualzinho aqui.
Dé Palmeira: Lembrei de um episódio em Porto Alegre. O Cazuza realmente usava botas de cowboy e se mexia muito, elétrico. Durante o show, eu também estava dançando e, de repente, ele pisou no meu cabo de baixo e eu não conseguia me mexer. Falei: “Larga meu cabo!” e dei uma cotovelada nele. Mas fui inábil e fiz isso enquanto ele estava cantando. Ele ficou chateado e me deu um empurrão.
Frejat: O show terminou na porrada, tivemos que apartar a briga (risos).
Dé Palmeira: Meus pais estavam na plateia vendo aquela coisa desanimada, a cortina fechando… Tive que dormir na casa deles naquele dia. No dia seguinte, ele estava na porta do hotel me esperando: “Cara, desculpa por ontem, fiquei nervoso”. E seguimos.
Podem dar um “spoiler” da participação do Ney Matogrosso?
Frejat: São sete músicas. É um bloco realmente consistente, uma participação de verdade. O repertório remete a coisas que já fizemos juntos, que têm a ver com a nossa história. Será algo muito bonito, mas que só o Rio de Janeiro e São Paulo terão. Nas outras cidades, provavelmente teremos apenas uma apresentação. O objetivo é fazer um show em cada cidade; ainda não temos datas no Nordeste, mas pretendemos fazer. Estamos preparando um repertório muito forte para botar para quebrar.
Guto Goffi consegue caiu e conseguiu entrar novamente no papo.
Você nos ouve, Guto? Perfeito! Qual música do Barão talvez não tenha entrado tanto no gosto do grande público, mas vocês amam?
Guto Goffi: Filho feio não tem pai, né? (risos). Todas as músicas do Barão são maravilhosas. As que foram bem divulgadas são mais conhecidas. Mas o hino do Barão Vermelho é “Pro Dia Nascer Feliz”. Acho que é o hino da geração dos anos 1980, não só da banda. Simboliza o recado positivo, a luta para conquistar as coisas.
Frejat: Tem uma música nesse repertório que é “Eu Queria Ter uma Bomba”. Eu fiquei uns 15 anos sem querer cantar essa música. Ela saiu em 1985, quando o Cazuza saiu, e só fomos tocar em 1999 no disco “Balada”. Foi um trauma para mim, porque marcou o momento da ruptura. Ela foi lançada como sendo a primeira música da carreira solo dele, mas era o Barão tocando no clipe. Mas hoje toco com muito prazer.
Guto Goffi: A música foi anunciada como primeira música solo dele, mas era com o Barão tocando. Anunciaram no Fantástico, eu acho, assim. Não sei nem quem foi o culpado por essa atrocidade.
Dé Palmeira: Muita gente chama essa música de Barão versus Cazuza… (risos).
Guto Goffi: A música era no sentido de alguém querendo superar um amor. Agora, em tempos tão malucos, o Irã e os Estados Unidos reivindicam trocar seus hino para “Eu Queria Ter uma Bomba”… (risos).
Frejat: …que barbaridade, Guto!
O que vocês diriam para a turma nova que vê o Barão como o grande símbolo do rock brasileiro e quer ter uma banda que dure 40 anos?
Frejat: Eu adoraria que isso acontecesse, queremos ver a renovação. Mas o mundo hoje dificulta. Dificilmente os artistas de hoje conseguirão ter essa permanência com um repertório que fique no conhecimento das pessoas por décadas. A indústria da música destruiu os elos de comunicação profunda entre artista e público. Hoje o elo é comercial ou comportamental — um clipe no TikTok, uma viralização rápida.
“As besteirinhas no TikTok podem até ser o grosso que move a indústria da música hoje, mas isso não dá permanência. Isso não gera a lealdade do fã que acompanha o trabalho por toda a vida.”
Antigamente a pessoa comprava o disco, deitava no sofá e passava a tarde lendo as letras, vendo quem produziu. O consumo era mais voraz e atento. Hoje, se o clipe não for legal em 10 segundos, a música já “não presta”. As besteirinhas do TikTok é o grosso da indústria da música. Isso não dá permanência.
Guto Goffi: Nos festivais antigos não tinha telão; você via a banda do tamanho de um palito de fósforo e viajava no som através do ouvido, da música, sem tanto estímulo visual. É um privilégio termos construído essa obra longeva.
“Os Beatles duraram 10 anos; o Barão já está aí há mais de 40. Quase impossível de acreditar”
Frejat: Concordo com o Guto sobre o apelo visual exagerado de hoje. O rádio era maravilhoso nisso. A geração que viveu isso conseguiu uma carreira de 40 anos como Caetano, Gil, Ney. As motivações hoje são diferentes. E, sim, tem muitas bandas incríveis.
Avisam que o tempo da entrevista acabou.
Frejat: Poxa! Você conseguiu fazer o seu roteiro de perguntas, Alexandre?
Rolou uma boa parte, Frejat. Farei presencialmente em outra oportunidade. Obrigado, Mauricio, Dé, Guto e Frejat. Bom show.
SERVIÇO: Barão Vermelho – Encontro
30/04 – Farmasi Arena, no Rio de Janeiro (Com Ney Matogrosso)
23/05 – Allianz Parque, em São Paulo (Com Ney Matogrosso)
27/06 – Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre
8/08 – Arena Opus, em Florianópolis;
29/08 – Igloo Super Hall, em Curitiba
26/09 – BeFly Hall, em Belo Horizonte
Realização: 30e Apresentado por: Itaú Live
Ingressos: site da Eventim. Clientes do Itaú Unibanco têm 15% de desconto no valor dos tíquetes
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