Vitor Kley sobre novo EP: ‘O que as músicas nos diziam, a gente fazia’
Cantor lançou 'O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas'; ouça agora

Vitor Kley (crédito Murilo Amancio)
Logo nos primeiros minutos de conversa, eu e Vitor Kley descobrimos algo em comum: Jundiaí. Hoje morando em São Paulo, ouvi o cantor falar com carinho sobre a cidade onde nasci, e onde ele divide seu tempo com Santa Catarina.
Em uma manhã ensolarada, falamos de coxinha de queijo, corrida no parque, arco-íris e a vista do céu. Tantas coisas aparentemente pequenas. Ou melhor: “As Pequenas Grandes Coisas”. É disso que trata o álbum lançado por Vitor Kley no ano passado.
Mas, como aquilo que importa não se descarta, o cantor e compositor decidiu dar nova vida a faixas que ficaram de fora do projeto original. Assim nasceu o EP “O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas”.
O trabalho reúne cinco inéditas que revelam diferentes nuances desse ciclo. Entre os destaques, está a participação de Joyce Alane em “Abalo Psicológico”, composta por Vitor Kley ao lado de Carol Biazin – uma parceria que ele descreve como fluida e intuitiva. O EP ainda traz a energia de “O Vento”, o tom introspectivo de “Da Minha Natureza”, a sensibilidade sobre perdas em “Desacostumei” e se encerra com o olhar otimista de “Vivão e Vivendo”.
Para Vitor Kley, o lançamento vai além de um presente aos fãs: é a celebração de uma sonoridade que ele define como handmade. O projeto privilegia instrumentos tocados de forma orgânica, por pessoas, valorizando a execução humana. A capa, que retoma elementos de sua criança interior, simboliza a “última nuvem no céu” — o fechamento de um ciclo guiado por liberdade e cuidado artístico.
A seguir, confira a entrevista completa do artista para a Billboard Brasil sobre essa nova fase, colaborações e como a rotina entre cidade e natureza tem influenciado sua música:
O lugar onde você está te influencia a compor? Já rolou alguma música criada em Jundiaí?
Vitor Kley: Várias! Primeiro porque essa chegada de uma carreira mais independente, feita do nosso jeito, foi muito junta com a mudança para Jundiaí. Assim que o estúdio ficou minimamente pronto, as coisas começaram a sair. Até “Arco-Íris”, que é a última faixa do álbum, eu escrevi lá porque vi dois arco-íris na frente de casa. Aí nasceu a música.
Jundiaí é uma mistura entre cidade grande e interior; mas ainda falta a praia… E a praia também te influencia muito, né?
Total. Eu acho que meu DNA artístico se formou muito na praia, mas eu vim da cidade. O pessoal no Rio Grande do Sul fala que eu sou “piá de prédio”. Nasci em Novo Hamburgo, jogando na quadra do condomínio, e só com uns 10 anos vim para Balneário Camboriú. Aí o DNA da minha música se solidificou aqui na praia. Depois, indo para São Paulo com o lance da gravadora, começaram a entrar as coisas urbanas, o parque, o mato… é uma mistura por onde eu passo. Jundiaí é exatamente essa união do mundo urbano com a natureza. Eu consigo ir dali pra praia ou surfar nas piscinas de onda que tem por perto. Fiz uma mistura muito boa me mudando pra lá.
Falando sobre o conceito de “As Pequenas Grandes Coisas”, o que mais importa são os detalhes: o carinho, o amor, o autoconhecimento. Você comentou que o novo EP, “O que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas” é tão importante quanto o original. O que essas músicas desse novo projeto fizeram você criar essa conexão?
As músicas já existiam e talvez as do álbum principal só existam porque essas também existem. Elas estavam na mesma pasta de seleção. Enquanto eu me mudava, estava produzindo o álbum e viajando, enquanto o estúdio na Casa da Colina não ficava pronto. Nasce o álbum principal e sobram algumas coisas. De repente, o estúdio em Jundiaí fica pronto e aquela minha criança interior, que aparece na capa, parece que toma uma bomba de energia: “Agora eu posso produzir na minha casa, olhando pra esse céu azul, com a minha liberdade”.
Aí vem a vontade de fazer o “O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas”, que é totalmente handmade. Fizemos em casa… eu, Léo Beltrão, Guto Vieira, Péter Ferreira e o Vitor Amaral. A gente tomava café da manhã, ia pro Parque da Cidade jogar bola e voltava para gravar. É muito especial ter essa liberdade de experimentar. Eu sinto que as pessoas estão gostando mais do que sobrou do que do próprio álbum, mas deixo pro povo achar o que quiser.
Trazer o Lado B como Lado A é algo que pouca gente faz. Como foi escolher essas faixas entre tantas que sobraram?
Ao todo, selecionamos 31 músicas. Entraram 11 no álbum e ficamos com as outras 20 fora. Tivemos que selecionar cinco. Tinham interlúdios e introduções, uma mistureba louca. Pegamos as que estavam mais concretas, que faziam mais sentido e cujas pré-produções já estavam mais prontas. A gente só impulsionou elas nesse encontro lá em casa.
Interessante que esses dois lados têm o mesmo peso.
Exatamente. Todos os deluxes que eu via eram demos que ficaram de fora, algo tipo: “Joga aí dentro e vamos ver”. Eu acharia mais interessante se os artistas pegassem o que sobrou e trabalhassem com o mesmo afinco. No nosso caso, tínhamos tempo e a oportunidade de fazer algo tão bom quanto o álbum. Veio na cabeça: “Vamos fazer valendo!”. Vamos gravar, mixar com o João Milliet, masterizar com o Carlinhos… isso mostra nossa excelência e cuidado com o público. Quero fazer tudo com a máxima qualidade que eu puder.
Você enxerga essa fase como um capítulo oculto que veio à tona ou algo mais íntimo?
Enxergo como algo mais experimental. Não é algo que estava sob os panos, é parte tanto quanto as outras faixas. Tem mais “flow”, mais doideiras e texturas que fomos testando no dia. A gente não ficou pensando muito; o que as músicas nos diziam, a gente fazia. Sinto que o mundo está precisando disso. Passamos por um tempo na indústria com muitos “envelopes” onde tínhamos que estar dentro, mas agora surgiram novos artistas com coragem. Com o estúdio em casa, é o momento perfeito para experimentar.
Você pretende incluir as “sobras” no setlist dos shows?
Sim! O conceito está todo amarrado. Na capa do álbum principal estou eu e o Eric (a criança). Na capa do “O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas” é o Eric olhando o céu pela porta, como quem diz: “Estou pronto para essa liberdade, vou me jogar no mundo”. Faz todo sentido trazer isso para o ao vivo, nos telões, na arte e nos arranjos. Quero incluir pelo menos duas ou três, ou quem sabe todas.
O mercado vem pautando os cantores, exigindo diferentes “eras”, entre outros conceitos. Você sente essa pressão ou seus conceitos saem puramente de dentro de você?
Eu já fui essa pessoa pautada pelo mercado. Faz parte do aprendizado. Quando “O Sol” estourou eu tinha 23 anos, era outra pessoa. Hoje eu deixo sentir o que tem aqui dentro. Escuto muito a minha equipe, que é a família que eu escolhi, mas não tem muito essa de: “Pra ser cantor você tem que fazer tal coisa”. Às vezes eu faço o contrário só de birra! O que é legal é fazer sentido para a gente. Eu sou um cara que está em casa escrevendo, vivendo a vida e transformando isso em arte. Quando você entra nesse lugar muito pautado, a máscara cai ou você perde o prazer de conversar sobre o trabalho porque não tem fundamento. Prefiro ser feliz com cada escolha de arranjo. Não tenho intenção nenhuma de ser parecido com alguém.
Você se dá muito bem com colaborações. Se você fosse montar uma banda hoje com outros artistas, quem estaria nela?
Bom, teria que ter afinidade. Com certeza a Ana Caetano; já escrevemos juntos e eu faria uma banda com ela fácil. O Deco (do projeto Hotelo) é um dos meus grandes parceiros, estaria junto também. O Filipe Coimbra, que é um baita guitarrista. Eu gostaria de ver um produtor comigo no palco, e esse cara seria o Felipe Vassão; no meu sonho seria legal ter ele tocando tudo. E, por fim, o Marcelo Camelo. A gente até brincou que podia ter uma banda de rock, porque ele gosta da minha voz com mais “drive”.
Ah, me veio outra pessoa: o Di Ferrero. A gente já fez Rock in Rio e temos uma conexão muito bonita. Acho que daria uma liga animal.
Falando em parcerias, e sobre seu pai, que sempre foi um colaborador? Como tem sido esse período sem tê-lo fisicamente, mas presente no coração?
A vida vai se ressignificando. A morte é como um relacionamento que termina: dói, mas lá na frente você ressignifica a saudade. Hoje, o luto virou um escudo, uma força, uma conversa espiritual. Eu converso mais com meu pai hoje do que nos últimos três anos de vida dele. Minha relação com ele hoje é muito pautada pelo tênis. Voltei a jogar e ali eu sinto ele por perto, lembro das dicas que ele me dava na quadra. Levo isso para a música também. Às vezes estou no estúdio sozinho e uma luz pisca ou um passarinho canta, e eu sinto que ele está ouvindo. Sempre que vou gravar um take de voz valendo, penso nas pessoas que mais amo — minha mãe, meu pai, meu irmão — e sinto que tenho que botar o coração na boca. A lembrança dele é uma força para eu seguir fazendo o que acredito.
Dá pra sentir que você tem essa conexão de família com tudo. Até no seu público. Minha mãe é sua fã, já a levei em shows. Ter fãs de todas as idades, de crianças a idosos, influencia na sua maneira de produzir?
Família é o maior pilar da vida. Fico emocionado de saber que você acompanha a nossa equipe e a nossa união. Meu pai e minha mãe sempre me ensinaram a respeitar todo mundo e ter o pé no chão, e eu estendo isso para a nossa galera que viaja na estrada. Sobre as crianças, é um dos maiores presentes. Tem mãe que traz o filho de um ano e diz que sentia o bebê mexer na barriga com a minha música. Isso é especial porque um dia eu não vou estar mais aqui, e essas crianças vão lembrar do cara que fazia bem a elas.
Eu enxergo a arte como algo para deixar o mundo melhor do que recebemos. Se Deus me deu esse presente de influenciar pessoas, eu vou fazer isso com unhas e dentes. Então, respondendo: na hora de produzir, eu me pauto, sim, pelos valores de vida. Tento ter a medida certa nas palavras e nos arranjos para que chegue nas crianças, na tua mãe e em ti. É um pensamento natural da minha natureza. Minha pauta é valorizar as pequenas grandes coisas e entregar algo que exponencie a vida das pessoas.
Ouça “O Que Sobrou Das Pequenas Grandes Coisas”, de Vitor Kley
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