‘Flerte’: Xamã leva influência do cinema para a escrita em novo álbum
Rapper convida L7nnon e Ludmilla no disco e celebra trajetória como ator

Xamã (Divulgação)
Xamã lançou “Flerte”, álbum de oito faixas em que explora uma sonoridade mais suingada e transforma encontros e desencontros afetivos em histórias de amor bem-humoradas. Sem, no entanto, perder a caneta afiada para temas sociais. Com participações de Ludmilla, L7NNON, Amabbi, NP e Nomad, o trabalho tem temperos de afrobeat, amapiano, dancehall, house e outras referências latinas.
Em entrevista à Billboard Brasil, o rapper apontou uma influência menos evidente na construção do disco: o cinema. Desde que começou a atuar, Xamã diz ter passado a escrever canções pensando mais na construção de cenas, diálogos e personagens.
“Depois que eu comecei a trabalhar com cinema, comecei a escrever mais com storytelling. Algumas músicas não, algumas são só vibe, energia. Mas comecei a contar historinhas”, diz.
Essa estrutura aparece de forma direta em “Moça”. Na parceria com Ludmilla, a aproximação entre duas pessoas vira praticamente uma cena: o personagem de Xamã tenta abordar uma mulher, que inicialmente acredita estar prestes a ser assaltada.
As vozes avançam conversando, com a cantora assumindo o outro lado da situação. A faixa mistura afrobeat, amapiano, dancehall e house.
“Quando fui escrever essa música, pensei: ‘Isso vai ser engraçado, vou entreter com umas ridadas’. É basicamente o cara flertando. É diálogo o tempo todo”, explica Xamã.
Michael Jackson e Max de Castro entram no repertório
“Like a Michael” reúne duas referências que acompanharam Xamã durante a produção. Uma delas é Michael Jackson, de quem o rapper se declara fã desde criança. A outra é “Mancha Roxa”, composição de Max de Castro que serviu de ponto de partida para a nova faixa.
Xamã conta que estava especialmente imerso na obra de Jackson durante a produção do álbum e que a faixa chegou na reta final do processo. A experiência também o fez repensar a própria escrita.
“Eu gosto muito da letra dessa música do Max. Ela não é uma letra grande. Tem uma melodia bonita, umas metáforas. Às vezes a gente faz 60 versos rimando uma coisa com a outra, e essa música é tão simples. Às vezes nem tudo é sobre verso; às vezes é sobre harmonia, sobre música”, afirma.
“Meu Sonho é Tu”, produzida por Márcio Arantes, ocupa outro ponto central do disco. A música recupera referências da juventude de Xamã, como as feiras de Campo Grande e Acari e o bairro de Sepetiba. Nesta letras, o brado pelo preço das passagens, que de tão repetido virou até meme, continua presente na arte de Xamã.
“Tem várias cidades em que nem precisa pagar passagem. A passagem é muito cara, a gasolina tá muito cara. Às vezes você precisa de uma condução para ir e vir. Eu tô aí na minha luta, irmão, então o meu protesto segue. Sempre que eu posso, o protesto sobre a passagem tá aí”.
Cinema mudou a forma como Xamã escreve
A influência do audiovisual sobre “Flerte” acompanha uma fase em que a atuação deixou de ser atividade paralela na carreira do rapper. “Cinco Tipos de Medo”, dirigido e roteirizado por Bruno Bini e gravado em Cuiabá, marcou sua estreia no cinema. Xamã interpreta Sapinho, traficante envolvido em um relacionamento abusivo com Marlene, personagem de Bella Campos.
“Cinco Tipos de Medo” está entre os 15 longas habilitados pela Academia Brasileira de Cinema para tentar representar o país na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. A comissão escolherá seis títulos em 9 de setembro; a decisão final brasileira será anunciada no dia 16.
O trabalho rendeu ao artista o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado de 2025. O longa também venceu Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem.
“Foi meu primeiro filme. Viver aquilo foi surreal. Todas as outras coisas que fiz, nos outros projetos, eu aprendi naquele set com a galera. Esse filme foi gravado em 2023 e até hoje a gente está conseguindo sonhar cada vez mais alto, mais um passinho”, diz.
O rapper também destaca a origem mato-grossense da produção e o espaço conquistado por um filme de gênero realizado fora dos principais centros da indústria audiovisual brasileira.
“É um filme de Cuiabá, de uma outra realidade. É um filme de gênero. Às vezes se diz que no Brasil a gente não sabe fazer filme de ação, de gênero. A gente tem tanto repertório para contar, tanta coisa de cinema. Todo brasileiro tem um roteiro pronto na cabeça, um jeito de contar, de fazer. Acho que esse filme prova muito isso.”
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