Como o The Muse Summer Series convenceu megabandas a tocarem em um vilarejo
Projeto traz shows intimistas de grandes bandas de volta a bar histórico

The Muse Nantucket (reprodução @themusenantucket)
A maioria das rotas de turnê não leva os artistas a 30 milhas em mar aberto – mas quase 40 atrações, incluindo Sugar Ray, Natasha Bedingfield, Mt. Joy, Dispatch, Yellowcard e The Fray, estão fazendo essa viagem neste verão ao pegarem a balsa para Nantucket.
A ilha de Massachusetts (EUA), localizada no Oceano Atlântico, na costa de Cape Cod, é um importante destino de verão, com a população aumentando em dezenas de milhares durante “a temporada”. Mas esses talentos mundialmente conhecidos não tocarão em um anfiteatro ou em uma grande arena, mas sim no The Muse, um boteco que existe em Nantucket desde a década de 1960 e que comporta apenas 375 pessoas.
“As pessoas reagem tipo, ‘Isso é tão bom que nem acredito que é real’”, diz o organizador do The Muse Summer Series, Hayden Arnot. “Estou lendo os comentários no Instagram anunciando o line-up e eles dizem coisas como ‘Que diabos, eu preciso me mudar para Nantucket?’ e ‘É muito tarde para encontrar um emprego em um restaurante em Nantucket este verão?’”
Para Arnot, que cresceu indo a Nantucket todo verão com sua família e, em 2022, fundou a empresa de batatas fritas Nantucket Crisps, a série de shows é um projeto de paixão que nasce de seu amor pela música e pela própria ilha. “Trata-se de trazer músicos incríveis e dar a eles a experiência do porquê acho Nantucket adorável, para que, com sorte, eles também a amem, e também unir a ilha por meio de boa música.”
Acostumar bandas habituadas a tocar em grandes arenas como o Red Rocks e o Madison Square Garden (como o Mt. Joy fará neste verão e outono) exige jogo de cintura. Arnot é carismático, entusiasmado e assumidamente apaixonado por Nantucket, usando a beleza da ilha para atrair os artistas.
“O Hayden é muito hospitaleiro e torna as coisas divertidas para a banda”, diz Jack Gallagher, empresário do Mt. Joy. “Muitas vezes, agentes e empresários podem ficar céticos em relação a um show em um local tão menor do que o habitual (underplay), mas conhecê-lo torna a proposta muito mais atraente.”
“Trazer esses artistas para Nantucket é a minha oportunidade de retribuir algo a eles”, diz Arnot sobre as atrações que deram a ele e a milhões de outras pessoas tantas músicas e memórias incríveis. “Podemos oferecer a eles três dias em um lugar especial onde nunca estiveram antes.”
O próprio Arnot costuma buscar as bandas e suas equipes na estação de balsa, levando-os de carro para pontos turísticos da ilha e oferecendo jantares em bons restaurantes. Algumas dessas relações ficaram tão profundas que os artistas criaram sabores personalizados de batatas fritas para a Nantucket Crisps (como o sabor Bay Spice do All Time Low) – e, enquanto as batatas fritas de Arnot “exportam Nantucket para o mundo, agora estou importando música para Nantucket.”
O início de tudo
O projeto começou de verdade quando Arnot usou seus contatos para convencer Noah Kahan a tocar na ilha em 2022. Artistas como Stephen Marley e Graham Nash vieram em seguida e, em 2025, ele deu um “passo mais ousado” e contratou 25 atrações para tocar no The Muse ao longo do verão.
Ele escolheu o local não apenas por conhecer o proprietário, Mike O’Reilly, mas também porque sabia que o próprio O’Reilly organizava shows no The Muse no início dos anos 2000, quando artistas que estavam surgindo ou já consagrados, como John Mayer, Hootie & the Blowfish, Guster, Train, Dave Matthews Band e Dispatch, tocaram no bar.
“Quando cheguei ao The Muse, não havia muita música autoral sendo tocada na ilha”, diz O’Reilly, proprietário e operador do local desde 1993. “Comecei a trazer algumas atrações novas e desconhecidas, e os shows foram ficando cada vez maiores, porque todo mundo por aqui estava sedento por entretenimento e música nova.”
Mas, com o aumento dos custos de produção, “eu comecei a quebrar as pernas financeiramente”, diz O’Reilly. Eventualmente, as atrações no The Muse – que abriu na década de 1960 como uma pista de patinação antes de se tornar um bar e ser batizado como The Muse nos anos 80 – começaram a migrar para apresentações de DJs e, depois, festas privadas.
“Durante esse período, senti falta do entretenimento e da música e estava sempre procurando algo novo para fazer”, diz O’Reilly. “Foi quando trombei com o Hayden e ele disse: ‘Vamos fazer isso’, e eu respondeu: ‘Vamos nessa’.”
A conta (não) fecha
A equipe instalou um novo sistema de som e começou a agendar e promover a série de shows, o que Arnot admite que “ainda não faz sentido nenhum, financeiramente”. Embora Arnot também tenha perdido dinheiro durante a temporada de 2025, este ano ele arrecadou mais de um milhão de dólares com “indivíduos ricos da ilha que acreditam nas artes” e marcas como a Campari e as grifes de roupas Vineyard Vines e Tuckernuck. “O objetivo principal é fazer com que eles se sintam como patrocinadores fundadores e pessoas que farão parte desta missão nos próximos anos”, diz Arnot.
Os custos de produção de toda a temporada giram em torno de US$ 700 mil, preço que dobra quando os cachês dos artistas são somados, totalizando cerca de US$ 1,3 milhão. Arnot afirma que vai atingir essa meta “cem por cento”, mas não através da venda de ingressos. Em um esforço para tornar os shows acessíveis a todos, os ingressos variam entre US$ 40 e US$ 198. Se o objetivo fosse apenas cobrir os custos, esses preços precisariam dobrar ou triplicar para gerar lucro.
“Música em Nantucket não é sustentável”, diz Arnot, “então você precisa de financiamento dedutível de impostos”. Sendo assim, além dos patrocinadores fiscais, Arnot fez uma parceria com a organização de saúde mental da ilha, a Fairwinds, que receberá uma porcentagem de todo o patrocínio. Essa estrutura permitiu que ele criasse a organização sem fins lucrativos Nantucket Music Foundation, cujo status de ONG torna possível que os shows operem com prejuízo e ainda assim aconteçam.
Impacto na comunidade local
Essa enorme quantidade de trabalho para pouco retorno financeiro vale a pena para Arnot – tanto como amante da música de longa data quanto como alguém interessado em retribuir à ilha, e especialmente à sua população local, muitos dos quais trabalham no setor de serviços que dá suporte ao fluxo de visitantes de verão.
“Recebo mensagens de pessoas dizendo coisas como: ‘Fico emocionado ao ver a banda favorita da minha infância a um quilômetro de distância do meu pequeno apartamento’”, diz Arnot.
Levar grandes nomes à ilha é especialmente importante para quem trabalha o verão inteiro e não pode ir ao continente para assistir a um show. (“O custo para sair de Nantucket para um show é de US$ 100 de balsa de ida e volta, mais US$ 100 de Uber, mais um quarto de hotel de US$ 300 e o valor do ingresso, certo? Ou você pode assistir aqui mesmo, no seu quintal.”)
A parceria com a Fairwinds, a organização de saúde comportamental de Nantucket que atua na ilha desde 1962, também foi uma jogada estratégica, dados os problemas de saúde mental que podem afetar os moradores locais, especialmente durante os meses longos e escuros de inverno.
Claro que a chance de ver uma grande banda em um espaço pequeno é atraente para pessoas que talvez nem tivessem ouvido falar de Nantucket antes do anúncio da série de shows. Arnot se lembra de uma mulher irlandesa que viajou para o The Muse no verão passado para ver o All Time Low e que está voltando este ano. Quando o Hanson tocou no verão passado, O’Reilly lembra de “garotas acampando na frente do prédio a noite toda. Eu levava comida e água para elas.”
O lado dos artistas
Tocar no The Muse também não é um mau negócio para os artistas. Depois de conhecer Arnot por meio de amigos em comum nos shows beneficentes de conservação ambiental Whale Jam, que ele organizou em Boston e Nova York, o Mt. Joy tocou no The Muse pela primeira vez em junho passado.
“Nantucket parecia um lugar lindo para fazer um show no verão”, diz o empresário do grupo, Jack Gallagher. “Tocar para essas multidões imensas é incrível, mas não tem aquela atmosfera íntima de um show de bar. Sacia uma vontade diferente. É nostálgico para todos os envolvidos, e os fãs ficam super animados para ver a banda em um formato de show menor.”
Naturalmente, o The Muse não consegue comportar o mesmo nível de produção que essas bandas levam para grandes shows de turnê. Por isso, os grupos deixam os ônibus de turnê e as carretas para trás e levam na balsa apenas os equipamentos essenciais. O The Muse, por sua vez, se modernizou nesta temporada e estacionou um trailer nos fundos para servir de camarim. Desde 7 de junho, a 2026 Muse Summer Series já recebeu a Marcus King Band, Spin Doctors, Everclear e Jimmy Eat World. Todos esses shows esgotaram.
Para Arnot e O’Reilly, o objetivo de longo prazo é programar música no outono e no inverno e atender à comunidade local durante a baixa temporada. (Os shows para setembro, outubro e novembro deste ano já estão sendo agendados.) Arnot também planeja expandir o projeto para um festival de música ao ar livre de três dias com capacidade para 4 mil pessoas. “Vamos construir isso para os próximos anos e agendar música o ano inteiro”, diz ele.
“É como se conectar a uma veia vital”, diz O’Reilly sobre trazer a música ao vivo de volta ao The Muse. “É sobre a emoção, a empolgação, a expectativa, as pessoas e a forma como elas são tão gratas.”
Ao reunir grandes artistas, moradores locais, visitantes de verão e muito mais, Arnot vê vislumbres da atmosfera da ilha que ele lembra da infância. “No verão passado, eu olhava ao redor do The Muse e via todo tipo de pessoa. Via meu pai de 79 anos e um morador local de 22 anos, e a música era a razão de todos estarem ali. É muito legal unir essa ilha.”
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui]
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