No Dia do Rock, que tal conhecer grandes bandas lado B do gênero?
Selos/lojas independentes lançam clássicos obscuros do hard rock e progressivo

O conjunto inglês Atomic Rooster (Divulgação)
A história do rock é feita de grandes sucessos e bandas que ficaram no meio do caminho. Para cada Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, que obtiveram fama e fortuna, existem outros grupos de igual categoria, mas cujo insucesso se deve ao mau gerenciamento de carreira ou até mesmo estarem à frente de seu tempo.
Anos atrás, o ouvinte de rock que se dispunha a conhecer esses artistas tinha de ter ímpeto de Indiana Jones e uma fortuna igual à do Neymar para adquirir estas preciosidades. Hoje, graças ao empenho de alguns selos/lojas independentes, muitos dos ótimos “lados B” desse período, em edições luxuosas com direito a vinis coloridos e caixas de CDs com informações preciosas sobre os grupos. A Hellion e a Melômano Discos, duas companhias dedicadas ao universo do rock, dedicaram suas estantes a algumas das maravilhas dos anos 1970. São elas Armageddon, Atomic Rooster e Warhorse, que chegaram a ser chamados de “supergrupos”, a Backstreet Crawler, projeto de Paul Kossoff (1950-1976), ex-Free, e uma das referências da guitarra elétrica.
Armageddon – “Armageddon” (Hellion Records)
Surgido em 1974, o grupo era liderado por duas figuras importantes do rock inglês e americano. Keith Relf (1943-1976), o vocalista, participou dos Yardbirds, conjunto que contou com nada menos do que três lendas da guitarra: Eric Clapton, Jeff Beck (1944-2023) e Jimmy Page. Bobby Caldwell, o baterista, participou do Captain Beyond, banda que combinou a agressividade do rock pesado com o progressivo –tem, entre seus grandes fãs, o tecladista, cantor e compositor Guilherme Arantes.
Lançado em 1975, o auto intitulado disco de estreia do quarteto –que trazia ainda o guitarrista Martin Pugh e o baixista Louis Cennamo– é pesado até para os padrões daquele período. Embora os vocais de Relf tenham um padrão mais suave, ele traz as guitarras em alto nível de distorção (como se pode notar na faixa de abertura, “Buzzard”, que chegou a virar tema do programa “Grandes Momentos do Esporte”, da TV Cultura, e o solo de “Basking in the White of the Midnight Sun”) e Caldwell é um dos bateristas daquele período que não tem pena de peles, pratos e bumbos. O grupo, contudo, sucumbiu à distância –seus integrantes se dividiam entre Londres e Los Angeles – e a empresários incompetentes. Relf morreria no ano seguinte, num acidente doméstico (se eletrocutou com a guitarra).
O disco saiu em duas edições, em vinil e CD.
Atomic Rooster – “Death Walks Behind You” (Melomano Discos)
O grupo foi criado por dois ex-integrantes da banda de Arthur Brown, um roqueiro inglês que utilizava um capacete em chamas durante parte de sua apresentação. O tecladista Vincent Crane (1943-1989) e o baterista Carl Palmer criaram uma banda com objetivo de unir rock pesado, temas “viajantes” e música erudita. Palmer saiu pouco depois do disco de estreia, o ótimo “Atomic Rooster”. Seu substituto, Paul Hammond (1952-1992), não fica atrás em virtuosismo e soa ainda mais pesado que seu antecessor.
“Death Walks Behind You”, de 1970, traz ainda o vocalista e guitarrista John Du Cann (1946-2011). A capa traz uma ilustração do poeta e pintor místico William Blake (1757-1827). É uma pista e tanto para o conteúdo do disco: uma espécie de rock macabro, uma versão musical das produções da Hammer, lendária companhia de cinema inglesa dos anos 1950 e 1960. A faixa-título, por exemplo, fala da inevitabilidade da morte. Outra grande canção do disco, “Tomorrow Night”, fala sobre um amor obsessivo. “Gershatazer”, por seu turno, é um duelo de teclados e bateria onde Hammond não deixa saudades de seu antecessor, Carl Palmer, tido como um dos melhores socadores da história do rock. Pena que, no disco seguinte, “In Hearing of Atomic Rooster”, a formação desse álbum se dissipou.
A Melômano Discos lançou este álbum em várias edições em vinil.
Backstreet Crawler – “Live at Fairfield Hall, Croydon, 1975”, e “Final Performance 1976 + Outtakes and Unreleased CD” (Melômano Discos)
Paul Francis Kossoff (1950-1975) é tido como um dos maiores guitarristas da história do rock. Despontou no Free, grupo que tinha, entre outros destaques, o cantor Paul Rodgers, e tem como característica um som carregado de vibrato – uma espécie de B.B. King com mais fúria– e solos em que a emoção se sobrepõe ao desejo de mostrar virtuosismo. Escutem as canções “All Right Now” e “Mr. Big”, ambas do Free, para se ter uma ideia do talento desse músico morto precocemente.
Após o término do grupo, em 1973, Kossoff saiu em carreira solo e depois criaria o Back Street Crawler. O grupo soltou dois discos, sendo que o segundo, de 1976, chegou às lojas postumamente. Kossoff morreu no dia 19 de março daquele ano, de embolia pulmonar, durante o vôo que o levou de Londres para Los Angeles.
“Live at Croydon Fairfield Halls”, registro de uma apresentação realizada em 1975 na cidade inglesa, fazia parte de uma caixa de CDs dedicada a Kossoff. É uma mostra do talento do músico, que no palco potencializa os talentos em estúdio –que eram muitos. Preste atenção na versão de “The Hunter”, gravada originalmente pelo Free, e no blues “Molten Gold”.
“Final Performance” pertence ao mesmo box set e traz a derradeira apresentação de Kossoff, duas semanas antes da sua morte. São sete canções ao vivo –entre elas as versões incendiárias de “Stealing My Way” e “Cheating on Me”. O disco traz ainda quatro sobras de estúdio, com destaque para o blues “It’s a Long Way Down to the Top” e a balada “She’s Gone” (que, aliás, lembra muito o Stillwater, banda fictícia do filme “Quase Famosos”, do cineasta Cameron Crowe.
Lançamento somente em CD.
Warhorse – Deep Blue Sea (Melômano Discos)

Baixista da primeira formação do Deep Purple, Nick Simper criou o Warhorse ao lado do tecladista Rick Wakeman (que durou pouco, bandeando-se para Strawbs e logo em seguida para o Yes –em seu lugar entrou Frank Wilson), o baterista Mac Poole, o vocalista Ashley Holt e o guitarrista Ged Peck. A ideia inicial era fazer um amálgama entre rock pesado e música progressiva, algo que os aproximou de bandas como Uriah Heep.
“Deep Red Sea” é o segundo disco do conjunto, que nessa formação trazia outro guitarrista, Peter Pack. Os teclados Hammond (marca registrada de Jon Lord, do Deep Purple, ex-grupo de Simper), são uma companhia e tanto para as guitarras de Pack e Ashley Holt é um cantor de múltiplos talentos e com todos os gritos no lugar –o que se pode perceber em “Confident But Wrong”, uma das canções mais acessíveis do álbum. “Sybilla”, por sua vez, é puxada para o funk enquanto que a instrumental “Mouthpiece” traz um demolidor solo de bateria. Após esse disco, o Warhorse se dissolveria e Holt se tornou o cantor de trabalhos notáveis de Rick Wakeman –entre eles “Voyage to the Center of the Earth”.
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