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Por que o Tomorrowland nasceu na Bélgica? Pequeno país é gigante da eletrônica

Bélgica construiu um dos legados mais influentes da eletrônica mundial

Tomorrowland 2026 Mainstage

Tomorrowland 2026 Mainstage

Quando se pensa em potências da música eletrônica, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos e Holanda vêm à mente em primeiro lugar. Mas há um país do tamanho de um estado brasileiro, com pouco mais de 11 milhões de habitantes, que guarda um segredo: a Bélgica é, há décadas, um dos epicentros mais revolucionários da cena eletrônica global. E não é por acaso que o Tomorrowland, o maior festival de música eletrônica do mundo, acontece em terras belgas.

Para dimensionar: com seus 11,7 milhões de habitantes, a Bélgica tem população equivalente à da cidade de São Paulo (quase 12 milhões, considerando somente a região metropolitana). Um país do tamanho de uma metrópole brasileira que mudou a história da música global. Vamos entender.

As raízes de uma cultura de dança

A história da música eletrônica belga não começa nos anos 1980. Ela tem raízes profundas. Desde o início do século XX, a Bélgica já era uma “nação da dança” por excelência, com uma tradição de “tea parties”, animadas festas vespertinas regadas a cerveja no lugar do chá.

O país foi um dos primeiros a adotar a cultura do som mecanizado, introduzindo o “barrel organ”, um órgão que funcionava como uma espécie de protótipo do que chamamos hoje de sequenciador, tocando música a partir de tiras de papelão perfurado, uma forma primitiva de automação musical muito antes da era digital.

Já nos anos 1960 e 1970, enquanto o mundo descobria a soul music e o funk americanos, os belgas criaram o “Popcorn”, um movimento onde DJs tocavam discos importados dos EUA em velocidade reduzida (33 RPM em vez de 45 RPM), criando uma atmosfera mais densa, sexy e obscura. Essa prática de manipular a velocidade dos discos seria um prenúncio do que seguiria.

O acidente que criou um gênero: nasce o new beat

A virada aconteceu em 1987, em um clube de Antuérpia chamado Ancienne Belgique. O DJ Dikke Ronny, durante uma apresentação, cometeu um erro: colocou o vinil com a música “Flesh”, da banda eletrônica belga A Split Second, na velocidade errada, com o pitch acelerado. O resultado foi hipnótico, mais pesado e obscuro. O erro encheu a pista. “Foi um acidente, mas imediatamente encheu a pista, e soou fantástico, lindo”, lembrou Ronny anos depois.

‘Flesh’, da banda A Split Second, o marco do new beat

Nasceu ali o new beat, o primeiro gênero genuinamente belga a conquistar o mundo. Uma fusão de EBM (Electronic Body Music), synthpop industrial e acid house que rapidamente se espalhou por clubes lendários como o Boccaccio, em Destelbergen, uma verdadeira catedral da nova batida que recebia mais de 3 mil pessoas todos os domingos.

A cena era alimentada por uma infraestrutura única: não havia legislação sobre horário de funcionamento, então clubes ficavam abertos 24 horas, e o acesso a anfetaminas era irrestrito em farmácias. A moda também era efervescente: crucifixos, smileys, emblemas de carros usados como pingentes e roupas de ciclista, tudo misturado num caldeirão visual que anteciparia a liberdade da moda clubber de anos depois. Alguns nomes se tornaram ícones do estilo, como Front 242, Erotic Dissidents, The Neon Judgement, Lords of Acid, A Slipt Second… a lista é longa!

Foto do grupo belga Front 242
O Front 242, um dos grupos mais icônicos do new beat (Divulgação)

A explosão do techno e do trance

Se o new beat abriu caminho, o techno e o trance belgas pavimentaram a estrada. Com o sucesso comercial, o gênero se canibalizou e foi perdendo força. Mas os produtores belgas já estavam um passo à frente.

Selos como o R&S Records, fundado em Ghent por Renaat Vandepapeliere e Sabine Maes em 1984, tornaram-se a espinha dorsal do techno e do trance na Bélgica, reverberando no mundo todo pela qualidade e peso de seus lançamentos, que incluem nomes como Joey Beltram, Aphex Twin, Jaydee (autor de um dos hinos eternos da música eletrônica, a faixa “Plastic Dreams”), CJ Bolland (outro ídolo local) e Human Resource. A R&S se mantém relevante até hoje, com curadoria impecável, agora com sede em Londres.

Conheça mais sobre o selo R&S Records, um pilar da eletrônica belga

O som belga se tornou tão influente que ditou o ritmo da cena rave do Reino Unido. “O som rave britânico foi completamente inspirado por aqueles riffs belgas”, admitiu JD Twitch, do Optimo, no documentário “The Sound of Belgium”. O que os produtores belgas faziam numa semana, os britânicos corriam para copiar na semana seguinte. Isso também passou a valer para os americanos. O coletivo Underground Resistance, um dos pilares do techno de Detroit, prestou homenagem à relevância da música produzida no país com o EP “Belgian Resistance”, lançado em 1992.

No trance, a influência belga é igualmente gigantesca, com selos como Dance Opera, Bonzai e Green Martian produzindo clássicos atemporais como “The First Rebirth”, de Jones & Stephenson, e “Sunrise at Palamos”, de M.I.K.E.

‘Plastic Dreams’, a música que se confunde com a história da eletrônica belga

Identidade flexível e falta de marketing

Qual o segredo de um país tão pequeno ter gerado tanto barulho na música mundial? A resposta pode estar na própria identidade belga. Como explica o produtor belga Peter Van Hoesen, em entrevista ao site Electronic Beats, a falta de uma identidade definida é, paradoxalmente, a maior força do país.

“A Bélgica é um país criado pelos outros, pelas nações grandes ao redor. Entre todos os povos da Europa Ocidental, o belga é o que tem mais jogo de cintura. A gente se adapta a qualquer situação porque, a vida inteira, a gente foi obrigado a isso.”

Ao longo da história, a Bélgica foi uma espécie de encruzilhada da Europa. Potências vizinhas como França, Holanda, Alemanha, Espanha e Áustria passaram por ali, dominaram a região, deixaram sua marca e foram embora. O resultado é um país que não tem uma identidade única, mas três heranças fortes que coabitam a personalidade belga: a cultura flamenga (de influência holandesa, no norte), a valã (de influência francesa, no sul) e a germânica (no leste).

Essa mistura de culturas criou um terreno fértil para a inovação, mas também uma curiosa relutância em se autopromover. “Os belgas são péssimos em se autopromover justamente por causa dessa falta de identidade”, completou Van Hoesen.

O diretor do documentário “The Sound of Belgium”, Jozef Devillé, ecoa o sentimento: “Se isso tivesse acontecido na Holanda, já teriam feito um monte de livros e documentários, porque eles se orgulham da cultura deles… mas a gente, belga… se a gente tem alguma coisa interessante, a gente é o último a contar.”

Assista ao doc ‘The Sound of Belgium’, fundamental para entender a cena

Tomorrowland e a coroação

A criatividade sem amarras, combinada com uma infraestrutura de clubes históricos e uma audiência educada por décadas de experimentação, criou o ambiente perfeito para o nascimento do Tomorrowland.

Em 2026, ano em que o Tomorrowland celebra sua 20ª edição, recebendo centenas de artistas de mais de 40 nacionalidades e visitantes de mais de 200 países, fica a sensação de que essa história só poderia ter acontecido na Bélgica. O evento é a manifestação máxima de uma cultura que sempre esteve à frente do seu tempo, mas que nem sempre recebeu o reconhecimento que merecia.

Enquanto o Tomorrowland se torna um dos maiores festivais do planeta, é importante lembrar que ele é apenas a ponta do iceberg. A Bélgica é o país que, ainda nos anos 1980, criou o new beat, exportou a EBM e o techno para o mundo. É a nação que, com seu caráter resiliente e sua flexibilidade cultural, transformou “acidentes” de cabine em movimentos globais.

E é exatamente por ter uma história tão rica, tão antiga e tão respeitada que o Tomorrowland não poderia ter nascido em outro lugar. Um país pequeno e sem talento natural para a autopromoção que, em vez de seguir tendências, as criou. Uma aula sobre como usar adversidades para criar legado e autoridade.

Acompanhe o Tomorrowland na Billboard Brasil