Mas retornemos ao assunto diva. Uma merecedora do título tem de combinar carisma, talento e a sapiência de aproveitar as oportunidades. Embora a diva seja algo –pelo menos para este que vos escreve– de berço, é necessário um aperfeiçoamento constante para atingir seu objetivo. Mariah possui todas as qualidades, aliadas a uma eterna busca pela perfeição. “Quero dar sempre o meu melhor. Não sei se isso significa uma obsessão pela perfeição”, diz ela. Há, no entanto, alguns exageros. Numa reportagem do jornal “The New York Times” sobre o disco “Glitter”, de 2001, o crítico Jon Pareles escreveu que a cantora chegou a voar de Los Angeles a Nova York a fim de retornar ao estúdio de gravação e consertar uma nota que achou que estava fora do tom. Como se trata de um disco traumático, este crítico se esquivou de falar sobre “Glitter”. Mas comentou se é verdade que ela às vezes encasqueta com alguma nota vocal dada de modo errado. “Sim, eu às vezes escuto a primeira versão da música e penso: ‘Hmm, dá para fazer melhor.’ Volto ao estúdio e refaço.”
A trajetória de uma diva também conta com um quê de predestinação. E Mariah nasceu para ser grande. Ela veio ao mundo no dia 27 de março de 1969, filha da cantora de ópera Patricia e do engenheiro aeronáutico Alfred Roy Carey. O nome Mariah faz referência à “They Call the Wind Maria”, canção de “Os Aventureiros do Ouro”, musical de 1951. Quando os pais se separaram, coube a Patricia a missão de sustentar a família. Ela, aliás, foi a primeira professora de canto de Mariah e sua soprano de ópera favorita. “Costumo dizer que ‘To Start Again’, disco de árias que minha mãe lançou nos anos 1970, é a minha ópera favorita”, diz.
Mariah, contudo, estava talhada para ser uma estrela pop. As principais influências da jovem cantora nos anos 1980 eram Whitney Houston (óbvio) e George Michael. “Sou fã de ‘Faith’, disco que ele lançou em 1987. Foi um grande cantor e, até o fim da vida [Michael morreu de ataque cardíaco, no Natal de 2016], continuou fazendo coisas interessantes”, comenta.
O primeiro grande passo de Mariah em direção à fama se deu em 1988, quando acompanhou Brenda K. Starr numa festa –ela atuava como vocalista de apoio– e deu um fita demo a Tommy Mottola, executivo da gravadora Columbia. Impressionado com o que escutou, ele passou duas semanas em busca da cantora misteriosa. Quando finalmente a contratou, usou o poder que tinha na companhia para transformar Mariah Carey numa grande estrela.
O pontapé inicial de Mottola foi importante, mas a carreira de Mariah não pode nem deve ser resumida à influência do executivo. Mariah quebrou diversas barreiras para atingir o topo da fama e o respeito da crítica. Era, por exemplo, chamada de artista “fabricada” e de “cantora sem alma” por conta do excesso de baladas açucaradas que marcaram o início de sua carreira. Mas ela mostrou uma musicalidade acima da média. Como bem pontuou Kelefa Sanneh, do “The New York Times”, “Mariah era muito mais talentosa do que seus detratores imaginavam. Após alguns anos de sucesso no mundo pop, ela deu uma guinada em direção ao hip hop. Foi abraçada pelas rádios do gênero, que estavam se tornando potências musicais, e ajudou a ensinar uma geração de cantores de pop e R&B a ver os rappers como seus aliados naturais e colaboradores em potencial. Ela também desenvolveu um estilo de cantar evasivo e sincopado que a ajudou a se afastar das grandes baladas rumo a composições mais simples, voltadas para as pistas de dança”, decretou Sanneh, no livro “Na Trilha do Pop”.