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‘Expresso 2222’, um disco tão bom que merecia ir para o espaço

Quinto trabalho de Gilberto Gil funde as culturas folclóricas e internacionais

Gilberto Gil

Gilberto Gil (@pridiabr)

Quando a sonda espacial Voyager partiu para sua exploração no espaço, em 1977, levou consigo um disco de ouro com saudações em diversas línguas, sons de animais e da natureza e uma seleção musical compilada pelo cientista Carl Sagan (1934-1996). Ela possuía, entre outras maravilhas, uma trechos de obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750) pelo pianista canadense Glenn Gould (1932-1982), canções do jazzista Louis Armstrong (1901-1971) e do roqueiro Chuck Berry (1926-2017), além de músicas folclóricas de vários países. Mas, como brasileiro, sinto te avisar, Carl, que você pisou na bola. “Expresso 2222” tinha de estar na lista.

Quinto disco do aniversariante de hoje, o cantor e compositor Gilberto Gil, foi o primeiro trabalho que ele lançou depois de voltar do exílio forçado em Londres. O resultado sonoro é um artista que traz na bagagem a pulsação do rock com a saudade dos ritmos e cantos de seu país. Até por uma questão geográfica –afinal, é baiano de Salvador–, a nordestinidade sempre esteve presente na canção de Gilberto Gil, a começar por suas influências. A bossa de João Gilberto (1931-2019), o baião e o forró de Luiz Gonzaga (1912-1989) e o rojão de Jackson do Pandeiro (1919-1982) são algumas das influências mais evidentes. Mas seu violão sempre mostrou que sua música ia além da reverência.

“Expresso 2222” abre com “Pipoca Moderna”, de Caetano Veloso, na qual Gil se faz acompanhar pela Banda de Pífanos de Caruaru. “Back in Bahia”, a canção seguinte, é um rock, onde confessa a saudade da terra natal, “querendo ouvir Celly Campelo para não cair” ou lamentando a falta “de calor, de sol, de sal, de coração pra sentir.” O Nordeste volta a pulsar forte nas duas canções seguintes, “A Ema Gemeu” (de João do Vale, Aires Viana e Alventino Cavalcanti”, eternizada por Jackson do Pandeiro, seguido por outro sucesso do rei do rojão (ritmo que ele diz ter criado). “Chiclete com Banana”, de Almira e Gordurinha, faz justamente alusão ao amálgama das culturas brasileiras e internacionais –une Miami com Copacabana, bebop e samba, e chiclete com banana. “Ele e Eu”, por seu turno, é uma celebração da amizade com Caetano Veloso e fala das diferenças de temperamento entre os dois

“Sai do Sereno” é outra forte composição do lote nordestino de “Expresso 2222”. Sucesso do sanfoneiro Abdias dos Oito Baixos, traz a participação de Gal Costa e a guitarra desenfreada de Lanny Gordin. Aliás, a escalação do grupo que acompanha Gil é impecável. Além de Lanny, o baiano contou com Antônio Perna (piano), Bruce Henry (baixo) e Tutty Moreno (bateria e percussão). “Expresso 2222”, a faixa-título, é uma mostra do poder rítmico de Gil enquanto que a letra de “O Sonho Acabou” constata o fim da utopia hippie dos anos 1960. “Oriente”, que fecha o disco, foi gravada também por Elis Regina e usa a palavra não apenas para tratar da dualidade da cultura oriental e ocidental como fala de autoconhecimento – quando fala de “se oriente, rapaz”. 

“Expresso 2222”, sim, deveria ter sido mandado para o espaço. É um dos melhores retratos da cultura brasileira.