Nattan defende paredão e piseiro no São João: ‘Passo a mais’
Cantor fala à Billboard Brasil equilíbrio entre tradição, inovação e romantismo

Nattan (Divulgação/Brunini)
São João é o período mais intenso no calendário dos artistas do forró. E com Nattan não é diferente. Em junho, o cantor cearense cumpre uma maratona de quase 30 shows em cerca de 25 cidades, passando por dez estados e por polos juninos como Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba.
A agenda também serve como combustível para “Paredão do Nattan”, projeto lançado em abril com 32 faixas e participações de Xand Avião, Zé Vaqueiro, Wesley Safadão, Rey Vaqueiro, Eduardo Costa e Edson Lima. No repertório, o cantor atravessa forró eletrônico, piseiro, forró de vaquejada, sertanejo e referências tradicionais.
Em entrevista à Billboard Brasil, Nattan exalta o São João do Nordeste, fala da preparação física para a sequência de shows e defende que o piseiro e o paredão fazem parte da cultura regional. “Nós, da nova geração, precisamos dar um passo a mais”, diz.
O São João é para o artista de forró o que o Carnaval é para o artista de axé?
Com certeza. Este ano eu fiz 28 shows no mês, se não me engano. Depois vem o “São Julhão”, que é o mês de julho, e aí vêm mais uns 22. Mas eu tenho amigos artistas que fizeram 45 shows. São 45 shows em 30 dias. Tem dia em que você faz três. É uma logística absurda. Eu sempre digo que é o mês mais corrido, puxado e cansativo. Mas é tão prazeroso de viver que esse cansaço, essa loucura, fica de lado. Você passa por vários estados e conhece a cultura de cada um. Por mais que seja muito parecido, cada estado tem uma energia diferente. O carinho, o amor, o jeito de amar, o jeito de abraçar.
Como você monta o repertório para uma maratona dessas?
No meu show, canto de tudo. Tem música de Flávio José. Na abertura da quadrilha, coloco um grito de Luiz Gonzaga, aparece a imagem dele no telão e eu falo: “Rei Luiz Gonzaga”. Quando a gente forma um bloco de quadrilha no show, todo mundo entra na mesma energia. Eu falo “quadrilha” e o público responde. Quem vem de fora olha e pensa: “Meu Deus do céu, o que está acontecendo?”. Eu sento com mais dois produtores e a gente monta um bloco especialmente para mim. Eu sou um cantor mais frenético, então tento buscar músicas mais para cima, para as pessoas esbanjarem alegria. É um estudo gigante, porque cada cantor vai em um nicho. E as pessoas já conhecem o Nattanzinho por algo mais frenético.
E fisicamente, como você segura essa sequência de shows?
A logística é muito difícil. A gente tem pregas vocais, e elas só conseguem funcionar se regenerarem. E elas só regeneram dormindo, descansando. Não tem como um cantor ter voz saudável em um São João com 30 shows, dobradas, logística, tempo mudando, uma hora frio, outra hora quente, um dia come uma coisa, outro dia come outra, um dia treina, outro dia não. Então é deixar o celular de lado. Eu tento ao máximo. Sou o cara que posta o próprio show, gosto de postar. Acabo o show e já quero postar. Mas, ao mesmo tempo, tenho que largar o celular, porque tenho pouco tempo para dormir e preciso entregar outro show à noite.

O que você responde a quem acha que piseiro e paredão afastam o forró da tradição?
Lá atrás, quando o forró era zabumba, triângulo e sanfona, o Mastruz com Leite quis mudar, deu um passo à frente e modernizou um pouco o forró. Depois vieram Aviões do Forró, Garota Safada, colocaram guitarras, duas sanfonas, metais. Ali nasceu um novo forró. Eles foram muito criticados, chamados de loucos, disseram que aquilo não ia dar certo. E o forró deu um passo a mais. Nós, da nova geração, precisamos dar um passo a mais também. Mas digo isso com muita responsabilidade. Não faz mal fazer uma música que seja viral, que chegue nos adolescentes. Essa música pode levar nossa cultura mais longe.
Como nasceu o “Paredão do Nattan”?
O “Paredão do Nattan” nasceu quando as pessoas falavam: “Nattan, cadê o Nathanzinho falando de amor?”. Tinha gente falando do Nattan do Velho Testamento. Mas eu sempre falei: “Galera, eu tenho cinco anos de carreira. Eu não sou velho em nada. Velho Testamento de quê?”. Então pensei: vou fazer um paredão, que é algo típico do Nordeste. Além de regravar algumas músicas do meu começo, vou chamar pessoas que foram e são muito importantes para o nosso forró.
Você ainda se vê como “Nattanzinho falando de amor”?
Eu sou o cara mais apaixonado que existe. Sou apaixonado por tudo na vida. Uma coisa que aprendi com Dudu Borges foi muito importante. Estava gravando com ele e, no meio da gravação, ele viu que eu estava lendo uma música no celular. Eu lia e cantava. Ele falou: “Nattan, vamos parar a gravação por hoje? Vai para casa, lê essa música, que é uma história do início ao fim. Deita na sua cama e imagina essa história”. Era a história de um homem abandonado por uma morena, pedindo uma nova oportunidade. Quando imaginei aquela história na minha cabeça, deixei o celular de lado e fui cantar de novo. Aí veio o sentimento. Fechei os olhos e me imaginei dentro daquela música. A interpretação de um artista vivendo aquela música, de verdade, muda totalmente. As pessoas em casa sentem isso. Então me considero muito um cara apaixonado, que fala de amor o tempo inteiro.
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