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M4IA, criador de música viral da Copa, conta: ‘Não tenho mais noção do tamanho

'Brasil com S' viralizou nas plataformas digitais; entenda a história

M4IA (reprodução Instagram)

M4IA (reprodução Instagram)

Embora a Seleção Brasileira tenha uma música oficial, chamada “Bate no Peito”(produzida por Papatinho e cantada por Ludmilla, João Gomes, Zeca Pagodinho, Samuel Rosa e Veigh), a Copa do Mundo de 2026 tem uma trilha sonora que não sai da cabeça dos torcedores, e ela não veio de um comitê organizado da FIFA. Veio direto do quarto de um DJ e produtor de Uberlândia, Minas Gerais, chamado M4IA.

Com 31 anos, ele assiste ao seu som se transformar em um fenômeno. “Brasil com S” é uma das faixas temáticas de futebol que mais cresce no Spotify. Misturando a percussão do funk com as texturas da música eletrônica, os números por trás do viral são de deixar qualquer grande astro da música impressionado.

“Essa passou de um nível que eu já não tenho mais nem noção do tamanho em que está. Nos últimos relatórios da gravadora, falamos de mais de 3 bilhões de conteúdos gerados. Tem mais de 1 milhão de vídeos feitos só no TikTok, mais 1 milhão no YouTube e mais de 400 mil no Instagram. É um absurdo o poder de criação de conteúdo e de viralização.”

O domínio nas plataformas de vídeos curtos é incontestável, impulsionado por um formato que engaja o público do início ao fim.

“Nós acompanhamos as tags da música, e a partir desse link dá para ver todas as criações feitas com aquele áudio. Graças a Deus, tivemos a sorte de estar no Top 1 do YouTube Shorts no Brasil. Estamos há mais de 40 dias em primeiro lugar. No Brasil, no YouTube Shorts, só toca essa.”

Da web rádio à resposta aos franceses

A carreira de M4IA começou em meados de 2009. Ainda no ensino médio, o mineiro já comandava o som das festas escolares e gerenciava uma web rádio. Mas ele percebeu que precisava ir além da discotecagem e mergulhou na produção musical. Lançou suas primeiras faixas autorais entre 2013 e 2014, mas enfrentou um duro revés em 2018, quando sua distribuidora fechou e todas as suas músicas sumiram das plataformas digitais, forçando-o a recomeçar do zero em 2021.

Essa nova etapa culminou no atual hit, que foi produzido a partir do incômodo com a provocação dos rivais franceses, conhecidos por embalarem suas campanhas com hinos marcantes de torcida.

“Eu gosto de contar que, antes do jogo do Brasil contra a França, a França já tinha uma música. Eles têm tradição de fazer músicas de Copa — em 2018 foram campeões e o pessoal foi para o estádio cantar com os jogadores. Fizeram uma versão para 2026 e, antes do jogo, estava todo mundo com medo da música. Como eu gosto muito de futebol, pensei: ‘Gente, não é possível que o brasileiro, pentacampeão mundial, esteja com medo da França por conta de uma música. Tudo bem, tomaram nossa Copa de 98, mas não é para tanto!’. Então resolvi fazer a versão do Brasil. Me inspirei no estilo call and response — que é você falar e responder o nome dos jogadores. Peguei isso como base, com o intuito de criar uma trend mesmo, e coloquei a batida do Brasil, que é o funk, um estilo muito usado nesses edits de futebol. Existe uma música Top 1 no YouTube que está em alta há mais de um ano, que é funk, chamada ‘Passo Bem Solto’. Me inspirei nas suas músicas virais para fazer a versão brasileira. Eu acreditava que ela viralizaria e que as pessoas comprariam a ideia, mas não tinha noção de que seria desse tamanho. Foi muito mais do que eu esperava.”

A agilidade para lançar “Brasil com S” usou de uma estratégia moderna de produção. M4IA utilizou ferramentas de inteligência artificial para executar a ideia com rapidez.

“Eu usei o meu conhecimento de produtor musical,  de entender de arranjo, estrutura, harmonia e composição, aliado à Inteligência Artificial para otimizar e fazer tudo mais rápido. Tive essa ideia apenas quatro dias antes do jogo, então precisava de algo ágil. A IA me ajudou a potencializar a criação através de uma plataforma online. E não é só colocar o comando (prompt) lá e a música sai pronta; eu errei mais de 15 vezes. Você começa a pegar o início de uma, o meio de outra e o final de uma terceira para compor uma obra totalmente nova. A partir dos meus testes, criei a estrutura com aquela base, levei para o meu software de produção musical para finalizar e deixar o áudio certinho. Depois, fui para um software de edição de vídeo, porque a música precisa estar acompanhada de um bom material visual. Também usamos uma estratégia de marketing: pegamos os comentários hypados das reações à música da França e começamos a colocar a música do Brasil. Fiz isso em uns cinco ou seis perfis em cada rede social e fui dormir. No outro dia, quando acordei, já havia vídeos reagindo à música passando da marca de um milhão em apenas dois dias. Foi um sucesso repentino. Eu brinco que a música estourou quatro vezes: a primeira nas reações antes do jogo; a segunda por conta da coreografia das meninas mexicanas, que dura até hoje; a terceira por causa do álbum de figurinhas, onde as pessoas usavam a música e o Instagram começou a entregar mais; e a quarta, agora, com a convocação do Neymar. Ela teve quatro grandes picos.”

O alcance foi tamanho que furou a bolha da internet e chegou diretamente aos grandes influenciadores, atletas de elite e ao grande público.

“A Virgínia fez um post 100% orgânico no perfil dela com fotos da Copa, algo que não esperávamos. A própria reação do Neymar com a filha, em casa, num ambiente muito acolhedor, com ela pedindo: ‘Pai, dança comigo’, e ele dançando a música. No dia em que recebi isso, quase caí para trás. Pensei: ‘Nossa, o cara está dançando a música que eu fiz aqui de casa, junto com a família’. Foi melhor do que a minha própria pretensão de chegar a ele. O Pedro Sampaio também fez a versão dele. Além disso, ver o público aderindo, com casas de acolhimento colocando os idosos para dançar, crianças criando suas próprias versões. A trend se reinventa a cada semana. Primeiro era a dança, agora são as crianças cantando os nomes errados dos jogadores. Tive a sorte de ver vários vídeos que me chamaram a atenção e deixaram a música ainda mais legal de ser consumida.”

Mas a pergunta que não quer calar: ele acredita mesmo na Seleção Brasileira?

“Como torcedor, eu nunca perco a esperança. E eu gosto desse ambiente mais conturbado, que faz a gente acreditar mesmo. O torcedor é aquele que acredita quando está bom e quando está ruim. Espero, como torcedor, que o Brasil seja campeão e, como artista, que essa música fique marcada na história embalando as pessoas. Recebo mensagens no direct de gente dizendo que, por causa da música, voltou a sentir aquela vontade de pintar a rua e colocar a bandeira em casa. Isso traz aquele sentimento de pertencimento, de Copa do Mundo. É muito legal.”

Os próximos passos de M4IA

O impacto imediato na vida do DJ alterou sua rota e o seu futuro na indústria. Aquela frustração de ter perdido os lançamentos passados foi completamente superada pela realidade de um plano de carreira em expansão.

“Mudou muito. Pelas pessoas que conheci a partir da música, pelos bons contatos que fiz e por agora ter um plano de carreira para levar tudo isso adiante de forma muito mais intensa e profissional. É poder viver o sonho daquele menino que colocava musiquinha na web rádio para as pessoas ouvissem. Posso anotar na minha caderneta de sonhos: estourar uma das músicas mais relevantes do momento na Copa do Mundo. Sou muito grato a Deus e a todo mundo que está me ajudando.”

A estratégia agora é capitalizar em cima do ecossistema que ele mesmo criou. Nos últimos 20 dias, o produtor trabalhou sem parar para entregar à sua gravadora um álbum completo contendo 17 versões temáticas de Copa do Mundo. A fórmula de exportar a batida brasileira para outros países já deu resultado: além do Brasil, ele é o nome por trás dos áudios virais de torcida de grandes países como Argentina, Portugal, Colômbia, Turquia e Estados Unidos. O próximo objetivo é transformar os cliques digitais em apresentações ao vivo pelo país, consolidando sua identidade como DJ e produtor.